É a primeira vez que minha filha tira longas férias de verão. A geração de crianças da qual ela faz parte, que passam seus primeiros anos de vida em creches, não conhecem o ócio. Além disso, estão tão acostumadas com atividades definidas e orientadas por adultos, que não sabem o que fazer no tempo livre. Por isso, Alice repete com frequência a mesma pergunta: o que eu faço agora?
Como Nane trabalha em casa, sobra para ela dar alternativas: ler o livro que está ainda pela metade, brincar com as bonecas que estão esquecidas numa caixa, ouvir uma música diferente daquela que ela canta todos os dias, escrever no diário sobre o que anda fazendo de mais interessante. Alice tem que aprender a decidir sozinha. Se as opções que a mãe dá não servem, restam os pequenos vícios: o joguinho do iPod, a série que passa no Disney Channel, o filme que ela já viu mais de cinco vezes.
Normalmente chego do trabalho em torno das sete da noite. Só então posso tentar substituir a Nane na condução das atividades da criança. Muitas vezes não adianta, Alice continua preferindo chamar a mãe em quase todas as situações, ou simplesmente dizer mamãe sem motivo algum. Há momentos, porém, que a sugestão de um filme pode fazer a diferença. E a pequena cinéfila costuma topar as minhas propostas.
Em dezembro, depois de vermos Ponyo, animação japonesa do mesmo diretor de A Viagem de Chihiro, escolhi A Vida é Bela porque queria saciar um pouco a curiosidade da minha criança sobre guerras. Em outra ocasião, vimos Peixe Grande (embora não tenha sido intencional, foi interessante ver dois filmes seguidos que tratam do relacionamento entre pai e filho). Por fim, para servir como antídoto para Violettas e Anittas, tivemos aulas com Jack Black na sua Escola de Rock. E parece que deu certo: ela fez questão de repetir o filme na mesma semana.
Quando não quer ler antes de dormir, se não estou muito cansado, leio junto com ela. Se não tenho forças, tenho preferido contar as histórias que ando lendo. Vem dando resultado também: ela não só quer saber mais sobre a menina Cosette, como quer que eu veja as versões de Os Miseráveis disponíveis no Netflix para decidirmos se ela pode ou não assistir.
Agora, enquanto as meninas viajam pelo mundo encantado dos parques da Disney, onde falta do que fazer não é um problema, e eu curto alguns dias sozinho, tenho pensado muito sobre as necessidades dela e as escolhas que temos feito. Nestes dias solitários, é a minha vez de encarar um tempo livre a que eu não estou mais acostumado. E, por isso, venho repetindo ao fim de cada texto que escrevo, de cada filme que vejo, de cada capítulo que leio, o mantra preferido de Alice: O que eu faço agora?
O que eu faço agora?
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Tapioca com Coco
Em nosso segundo dia de passeios pelo Centro do Rio de Janeiro, não havia ansiedade da minha parte. Eu já sabia desde a noite anterior o que queria fazer. Alice, porém, não escondia sua resistência às minhas longas caminhadas e hesitava. Não dava sinais de querer sair de novo com o seu malvado favorito. Só aceitou meu convite quando soube que iríamos de táxi.
Depois de um almoço improvisado em casa, chegamos ao Espaço Cultural da Marinha às 13 horas, um pouco tarde para conseguir os ingressos do passeio do rebocador Laurindo Pitta pela baía de Guanabara. Como esta primeira opção não deu certo, acabamos decidindo pela visita à Ilha Fiscal.
Enquanto esperávamos a hora de partida do saveiro, Alice aproveitou para matar a curiosidade de conhecer um helicóptero por dentro, coisa que disse só ter visto nos filmes. Depois, fomos até o navio-museu Bauru, que foi explorado por ela com muita animação, sempre me puxando pelo braço. Embora estivesse cansada das fotos, intercalando rabugices com sorrisos, consegui registrar o que, de certa forma, era um encontro dela com o vovô Edmundo, que era oficial da Marinha e nenhum de nós dois chegou a conhecer.
Quando entramos no saveiro, recomeçaram os resmungos. Dessa vez, por causa do colete salva-vidas (que estava apertado e, não havia como discordar, aumentava o calor). Felizmente, o percurso era curto e logo alcançamos a Ilha Fiscal, onde uma guia nos esperava para uma interessante aula de história, em que o ponto alto é o último baile do Império.
Durante a visita, Alice fez seus comentários inusitados: observou, por exemplo, que a imagem da Princesa Isabel no vitral não parecia a de uma menina. Além disso, se impressionou com as toneladas de camarão servidas no baile e com as roupas pesadas que as moças vestiam na época. Também se divertiu muito com a subida pela escada caracol, o pouso dos aviões no Santos Dumont e o lanchinho que fizemos contra o vento.
No caminho de volta, enquanto reclamava mais uma vez do colete, sugeri que, em outra oportunidade, fôssemos de barca até Niterói. Ela perguntou se lá, do outro lado baía, haveria alguém nos esperando para explicar as coisas. Quando respondi sorrindo que não, ela também sorriu antes de desviar o olhar e sussurrar: ainda bem. Já em terra firme, Alice quis voltar ao Bauru e, em seguida, conhecer a réplica da nau do descobrimento.
Saímos da Marinha por volta das 16 horas em direção à Uruguaiana, onde pegamos o metrô. Quando chegamos à Praça Nelson Mandela em Botafogo, ela percebeu que enfrentaria nova caminhada e fez uma careta de desagrado. No entanto, logo entramos em acordo: Alice trocou seus resmungos por um beiju de tapioca sem manteiga, recheada apenas com coco ralado.
Depois de um almoço improvisado em casa, chegamos ao Espaço Cultural da Marinha às 13 horas, um pouco tarde para conseguir os ingressos do passeio do rebocador Laurindo Pitta pela baía de Guanabara. Como esta primeira opção não deu certo, acabamos decidindo pela visita à Ilha Fiscal.
Enquanto esperávamos a hora de partida do saveiro, Alice aproveitou para matar a curiosidade de conhecer um helicóptero por dentro, coisa que disse só ter visto nos filmes. Depois, fomos até o navio-museu Bauru, que foi explorado por ela com muita animação, sempre me puxando pelo braço. Embora estivesse cansada das fotos, intercalando rabugices com sorrisos, consegui registrar o que, de certa forma, era um encontro dela com o vovô Edmundo, que era oficial da Marinha e nenhum de nós dois chegou a conhecer.
Quando entramos no saveiro, recomeçaram os resmungos. Dessa vez, por causa do colete salva-vidas (que estava apertado e, não havia como discordar, aumentava o calor). Felizmente, o percurso era curto e logo alcançamos a Ilha Fiscal, onde uma guia nos esperava para uma interessante aula de história, em que o ponto alto é o último baile do Império.
Durante a visita, Alice fez seus comentários inusitados: observou, por exemplo, que a imagem da Princesa Isabel no vitral não parecia a de uma menina. Além disso, se impressionou com as toneladas de camarão servidas no baile e com as roupas pesadas que as moças vestiam na época. Também se divertiu muito com a subida pela escada caracol, o pouso dos aviões no Santos Dumont e o lanchinho que fizemos contra o vento.
No caminho de volta, enquanto reclamava mais uma vez do colete, sugeri que, em outra oportunidade, fôssemos de barca até Niterói. Ela perguntou se lá, do outro lado baía, haveria alguém nos esperando para explicar as coisas. Quando respondi sorrindo que não, ela também sorriu antes de desviar o olhar e sussurrar: ainda bem. Já em terra firme, Alice quis voltar ao Bauru e, em seguida, conhecer a réplica da nau do descobrimento.
Saímos da Marinha por volta das 16 horas em direção à Uruguaiana, onde pegamos o metrô. Quando chegamos à Praça Nelson Mandela em Botafogo, ela percebeu que enfrentaria nova caminhada e fez uma careta de desagrado. No entanto, logo entramos em acordo: Alice trocou seus resmungos por um beiju de tapioca sem manteiga, recheada apenas com coco ralado.
domingo, 12 de janeiro de 2014
O Malvado Favorito
A ansiedade me surpreende no ócio das férias obrigatórias e me faz brigar com o tempo que, afinal, tenho livre. É, porém, uma liberdade que não parece minha.
Antes que eu perca mais tempo e me distancie de fato dessa liberdade, pego minha filha pela mão e, acariciando seus dedos, proponho um programa diferente. Vamos para o Centro, aproveitar o que a nossa cidade tem a oferecer, apesar do calor. Deixo a ansiedade no ponto de ônibus que se esconde no Mergulhão da Praça XV para afastar qualquer possibilidade de contágio, e empresto a minha liberdade à vontade dela. Eu indico, e Alice me conduz.
O Paço Imperial é, para ela, história recente. Faz pouco tempo que aprendeu sobre D. João VI, os Pedros e seus impérios. Durante o ano que passou, eu mesmo me aproveitei das provas de história da Alice para revisitar essas figuras nos livros de Laurentino Gomes. Entre agosto e setembro, emendei 1808 com 1822, e me senti revigorado assim.
Dentro do prédio colonial, Alice pede para abrir as portas e me puxa (por aqui, pai). Confessa que quer aprender mais, para ser uma aluna ainda melhor. Tento mostrar o mapa que está na parede com a indicação das colônias portuguesas, mas ela se recusa (já sei, é o mapa do mundo). Logo que saímos, mostro o Palácio Tiradentes e a estátua do próprio, mas ela prefere entrar nas igrejas: São José e Nossa Senhora do Carmo. São cinco minutos em cada uma, até a missa começar na primeira e os turistas invadirem a segunda.
Já passa do meio-dia. É natural que Alice esteja com fome. Quer o celular para conversar com a mamãe enquanto dá umas poucas garfadas. Deve ser o calor – porque eu também deixo metade do prato.
Saímos do restaurante para ir ao CCBB. A exposição de Yayoi Kusama pega a menina de jeito. Quer ver tudo, experimentar, tirar fotos e voltar com uma amiga – de preferência, amanhã.
Depois de passar na Cavé para eu comer um pastel de Belém e ela, uma fatia de pudim, voltamos de metrô. Paramos no Largo do Machado para caminhar até o Fluminense. Não é perto. Ela reclama, mas resmunga feliz. E eu ganho o apelido que dá nome à crônica: Você é o meu malvado favorito, pai.
O Paço Imperial é, para ela, história recente. Faz pouco tempo que aprendeu sobre D. João VI, os Pedros e seus impérios. Durante o ano que passou, eu mesmo me aproveitei das provas de história da Alice para revisitar essas figuras nos livros de Laurentino Gomes. Entre agosto e setembro, emendei 1808 com 1822, e me senti revigorado assim.
Dentro do prédio colonial, Alice pede para abrir as portas e me puxa (por aqui, pai). Confessa que quer aprender mais, para ser uma aluna ainda melhor. Tento mostrar o mapa que está na parede com a indicação das colônias portuguesas, mas ela se recusa (já sei, é o mapa do mundo). Logo que saímos, mostro o Palácio Tiradentes e a estátua do próprio, mas ela prefere entrar nas igrejas: São José e Nossa Senhora do Carmo. São cinco minutos em cada uma, até a missa começar na primeira e os turistas invadirem a segunda.
Já passa do meio-dia. É natural que Alice esteja com fome. Quer o celular para conversar com a mamãe enquanto dá umas poucas garfadas. Deve ser o calor – porque eu também deixo metade do prato.
Saímos do restaurante para ir ao CCBB. A exposição de Yayoi Kusama pega a menina de jeito. Quer ver tudo, experimentar, tirar fotos e voltar com uma amiga – de preferência, amanhã.
Depois de passar na Cavé para eu comer um pastel de Belém e ela, uma fatia de pudim, voltamos de metrô. Paramos no Largo do Machado para caminhar até o Fluminense. Não é perto. Ela reclama, mas resmunga feliz. E eu ganho o apelido que dá nome à crônica: Você é o meu malvado favorito, pai.
domingo, 17 de novembro de 2013
Loreena
Foram cinco meses de espera, desde aquele dia de maio na cama do hotel em Amsterdã. A notícia chegou pelo Facebook, e a confirmação veio no e-mail enviado por Quinlan Road, site da Loreena McKennitt.
Não era somente o anúncio de seus primeiros shows no Brasil – era um convite. Junto com a mensagem vinha uma senha para os fãs comprarem seus ingressos, antes mesmo dos clientes do cartão de crédito que patrocinam as casas de espetáculos no Rio e em São Paulo. Compramos ali mesmo os quatro ingressos a que tínhamos direito. Ter o privilégio de ficar na segunda fila foi o resultado do respeito da artista pelos seus fãs.
Para Nane, o sonho já durava uns vinte anos, tempo superior a nossa história. E parecia mesmo improvável que Loreena viesse ao Brasil. Por isso, de alguns anos para cá, eu procurava acompanhar a sua agenda, tentava coincidir o roteiro de uma de nossas viagens de férias com os shows dela na Europa ou Estados Unidos.
A noite de terça-feira, 29 de outubro, foi ainda de espera, no trânsito quase insuportável de Botafogo até a Barra. Mesmo assim, chegamos mais de uma hora antes, pudemos fazer um lanche sem muita pressa e chegar aos nossos lugares com tempo para curtir o resto de expectativa, com a harpa da Loreena bem à nossa frente.
O segurança, que estava sentado de costas para o palco, não acreditou quando ela começou a cantar. Tirou os olhos da plateia e esticou o pescoço para checar de onde vinha, de quem era aquela voz. E o show que ali começou só não foi perfeito por causa da falta de educação de uma parte menor do público.
Nem todos ouviram, ou levaram a sério, o pedido feito pela cantora e anunciado pela produção do show, minutos antes do início, de que não fossem utilizadas câmeras durante a apresentação. Não bastou também dizer que haveria uma música na segunda parte em que seriam permitidas as fotos e as filmagens. Não foi suficiente ela explicar, entre uma música e outra, por que os flashes atrapalhavam os músicos, nem fazer um breve discurso sobre as desvantagens de estar tecnologicamente conectado e acabar perdendo a conexão com a essência, naquele caso, da música que era tocada. Contrariada mais uma vez, Loreena interrompeu sua apresentação, o que acabou gerando certa tensão dali até o final.
Apesar disso, porém, nada me fará esquecer a experiência de ouvir ao vivo a mesma voz das gravações e acompanhar os músicos de tão perto, de escutar o som das gaitas de fole e do hurdi gurdi, de ter a chance de perceber a relação serena de Brian Hughes com a guitarra ou o alaúde, a concentração de Hugh Marsh antes de atacar seu fantástico violino, e o envolvimento quase sexual de Caroline Lavelle com o cello, numa dança ritmada sem fim. Convencido de que Loreena tem toda razão, acabei me entregando ao momento e à música. E a lembrança é o único registro que tenho.
Nada me fará esquecer também o olhar de êxtase da Nane, felicidade que não parecia tão óbvia desde o dia em que ela me contou que estava grávida. No longo caminho de volta para casa, por causa do elevado fechado e de uma blitz da Lei Seca, decidimos que haverá uma segunda vez, no Canadá, terra natal da cantora, ou onde quer que os nossos caminhos se cruzem.
Não era somente o anúncio de seus primeiros shows no Brasil – era um convite. Junto com a mensagem vinha uma senha para os fãs comprarem seus ingressos, antes mesmo dos clientes do cartão de crédito que patrocinam as casas de espetáculos no Rio e em São Paulo. Compramos ali mesmo os quatro ingressos a que tínhamos direito. Ter o privilégio de ficar na segunda fila foi o resultado do respeito da artista pelos seus fãs.
Para Nane, o sonho já durava uns vinte anos, tempo superior a nossa história. E parecia mesmo improvável que Loreena viesse ao Brasil. Por isso, de alguns anos para cá, eu procurava acompanhar a sua agenda, tentava coincidir o roteiro de uma de nossas viagens de férias com os shows dela na Europa ou Estados Unidos.
A noite de terça-feira, 29 de outubro, foi ainda de espera, no trânsito quase insuportável de Botafogo até a Barra. Mesmo assim, chegamos mais de uma hora antes, pudemos fazer um lanche sem muita pressa e chegar aos nossos lugares com tempo para curtir o resto de expectativa, com a harpa da Loreena bem à nossa frente.
O segurança, que estava sentado de costas para o palco, não acreditou quando ela começou a cantar. Tirou os olhos da plateia e esticou o pescoço para checar de onde vinha, de quem era aquela voz. E o show que ali começou só não foi perfeito por causa da falta de educação de uma parte menor do público.
Nem todos ouviram, ou levaram a sério, o pedido feito pela cantora e anunciado pela produção do show, minutos antes do início, de que não fossem utilizadas câmeras durante a apresentação. Não bastou também dizer que haveria uma música na segunda parte em que seriam permitidas as fotos e as filmagens. Não foi suficiente ela explicar, entre uma música e outra, por que os flashes atrapalhavam os músicos, nem fazer um breve discurso sobre as desvantagens de estar tecnologicamente conectado e acabar perdendo a conexão com a essência, naquele caso, da música que era tocada. Contrariada mais uma vez, Loreena interrompeu sua apresentação, o que acabou gerando certa tensão dali até o final.
Apesar disso, porém, nada me fará esquecer a experiência de ouvir ao vivo a mesma voz das gravações e acompanhar os músicos de tão perto, de escutar o som das gaitas de fole e do hurdi gurdi, de ter a chance de perceber a relação serena de Brian Hughes com a guitarra ou o alaúde, a concentração de Hugh Marsh antes de atacar seu fantástico violino, e o envolvimento quase sexual de Caroline Lavelle com o cello, numa dança ritmada sem fim. Convencido de que Loreena tem toda razão, acabei me entregando ao momento e à música. E a lembrança é o único registro que tenho.
Nada me fará esquecer também o olhar de êxtase da Nane, felicidade que não parecia tão óbvia desde o dia em que ela me contou que estava grávida. No longo caminho de volta para casa, por causa do elevado fechado e de uma blitz da Lei Seca, decidimos que haverá uma segunda vez, no Canadá, terra natal da cantora, ou onde quer que os nossos caminhos se cruzem.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Aos Dezoito
– Tudo o que eu queria era estar longe dali – disse para mim, deitado na rede que servia de divã. Esparramado, com uma das pernas pendentes para o lado de dentro do apartamento, fez ali algumas confissões. Eu estava no sofá. Não era o analista. Anotei, portanto, só o que me interessava.
Aos dezoito, Amarante escrevia crônicas esportivas depois das resenhas de domingo. Porém, os pedaços de papel rasgado não davam crédito nem ao desejo. Ninguém lia aquelas bobagens. Ele jogava tudo no lixo. Naquela época, sonhava também com as Olimpíadas em Barcelona. O presente de aniversário, no entanto, foi muito mais útil: um carro para ir à faculdade.
– Meu pai dizia que eu merecia o presente, que a faculdade não era paga. Embora preferisse os jogos, fiquei com o Gol. – E com um suspiro, completou – Bom para sair à noite com os amigos. Quer saber, bom mesmo para ir embora do Fundão.
Amarante rabiscava outras bobagens nas aulas de filosofia da natureza. Antes de se inscrever na disciplina, achava que poderia ser divertido, uma distração para o cálculo e a física. Porém, as aulas de filosofia eram repetitivas, quase um feitiço do tempo, mas o professor sequer se parecia com o Bill Murray. Por isso, escrevia, sem rimas, alguma poesia. A maioria delas está guardada numa pasta de couro.
– São impublicáveis – respondeu quando insisti que me mostrasse. – Servem agora para eu reconhecer aquele eu de dezoito anos. Um cara esquisito.
Gostava mesmo de escrever contos, a qualquer hora, no escritório do apartamento da avó, onde ficava o computador. Na escrivaninha, usava lápis e borracha para o primeiro rascunho; depois, um editor de textos chamado Pangloss. A tela ainda era preta, e as letrinhas verdes faziam doer os olhos. Era ali que, durante horas, as histórias ganhavam corpo. Enquanto bolava os programas em Pascal para a faculdade, as horas também passavam, mas pareciam perdidas.
– Um dia eu bati com o carro, indo pro Fundão bem cedo e morrendo de sono. Fiquei revoltado. Resolvi matar todas as aulas do dia. Passei a manhã no escritório, escrevendo. – Amarante levantou a cabeça, apoiou o pé no chão e perguntou, olhando fundo nos meus olhos – Eu era, ou não era, um sujeito estranho?
Lia muito. E de tudo. Com Holden Caufield, eram duas agulhas no palheiro – caso típico de quem leu o livro de Salinger na hora certa. O estudante de engenharia leu também As Veias Abertas da América Latina, A História da Riqueza do Homem, O Homem e seus Símbolos, dentre outras, neste caso, divagações. E passava horas na biblioteca da avó pinçando qualquer coisa, folheando inclusive os livros didáticos de latim do colégio de seu pai, antes de voltar aos livros de guerra e espionagem.
Perto de casa, tinha aulas de francês. Embora se identificasse mais com o idioma da avó, preferia as de inglês, porque o curso de treinamento para professores oferecia dois módulos imperdíveis: Drama e Literatura. Sófocles e Poe. Shakespeare e Joyce.
– Aliás, não sei por que estou fazendo drama. Graças à engenharia, posso pagar os seus serviços – concluiu, antes de me dispensar. – Agora quero ler um pouquinho.
Aos dezoito, Amarante escrevia crônicas esportivas depois das resenhas de domingo. Porém, os pedaços de papel rasgado não davam crédito nem ao desejo. Ninguém lia aquelas bobagens. Ele jogava tudo no lixo. Naquela época, sonhava também com as Olimpíadas em Barcelona. O presente de aniversário, no entanto, foi muito mais útil: um carro para ir à faculdade.
– Meu pai dizia que eu merecia o presente, que a faculdade não era paga. Embora preferisse os jogos, fiquei com o Gol. – E com um suspiro, completou – Bom para sair à noite com os amigos. Quer saber, bom mesmo para ir embora do Fundão.
Amarante rabiscava outras bobagens nas aulas de filosofia da natureza. Antes de se inscrever na disciplina, achava que poderia ser divertido, uma distração para o cálculo e a física. Porém, as aulas de filosofia eram repetitivas, quase um feitiço do tempo, mas o professor sequer se parecia com o Bill Murray. Por isso, escrevia, sem rimas, alguma poesia. A maioria delas está guardada numa pasta de couro.
– São impublicáveis – respondeu quando insisti que me mostrasse. – Servem agora para eu reconhecer aquele eu de dezoito anos. Um cara esquisito.
Gostava mesmo de escrever contos, a qualquer hora, no escritório do apartamento da avó, onde ficava o computador. Na escrivaninha, usava lápis e borracha para o primeiro rascunho; depois, um editor de textos chamado Pangloss. A tela ainda era preta, e as letrinhas verdes faziam doer os olhos. Era ali que, durante horas, as histórias ganhavam corpo. Enquanto bolava os programas em Pascal para a faculdade, as horas também passavam, mas pareciam perdidas.
– Um dia eu bati com o carro, indo pro Fundão bem cedo e morrendo de sono. Fiquei revoltado. Resolvi matar todas as aulas do dia. Passei a manhã no escritório, escrevendo. – Amarante levantou a cabeça, apoiou o pé no chão e perguntou, olhando fundo nos meus olhos – Eu era, ou não era, um sujeito estranho?
Lia muito. E de tudo. Com Holden Caufield, eram duas agulhas no palheiro – caso típico de quem leu o livro de Salinger na hora certa. O estudante de engenharia leu também As Veias Abertas da América Latina, A História da Riqueza do Homem, O Homem e seus Símbolos, dentre outras, neste caso, divagações. E passava horas na biblioteca da avó pinçando qualquer coisa, folheando inclusive os livros didáticos de latim do colégio de seu pai, antes de voltar aos livros de guerra e espionagem.
Perto de casa, tinha aulas de francês. Embora se identificasse mais com o idioma da avó, preferia as de inglês, porque o curso de treinamento para professores oferecia dois módulos imperdíveis: Drama e Literatura. Sófocles e Poe. Shakespeare e Joyce.
– Aliás, não sei por que estou fazendo drama. Graças à engenharia, posso pagar os seus serviços – concluiu, antes de me dispensar. – Agora quero ler um pouquinho.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Manhã de Rádio e Circo
O pequeno atraso daquela manhã teve um motivo bem diferente. Eu já estava vestido para o trabalho, calça social e camisa de botão de manga curta, e Nane pronta para começar a traduzir. Alice, por sua vez, já tinha cumprido sua rotina – com o uniforme de Hogwarts, dentes escovados e cabelo arrumado. Antes de levá-la para a escola, reunimos a família na sala para ouvir o rádio, quase à moda antiga. Na verdade, era um improviso. No volume máximo, o aparelho de mp3 estava jogado no braço do sofá. Os fones de ouvido serviam de antena e caixinhas de som.
Sintonizados na estação Roquete Pinto, esperávamos começar um novo programa chamado Entrelinhas. Para falar de literatura, estreava a nossa amiga Frini. Alice sorriu quando ouviu a voz dela. Perguntou o que aconteceria se ela ligasse outro aparelho, se a tia Frini também estaria lá. E eu me dei conta que o rádio é ainda um mistério para minha filha.
Sintonizados na estação Roquete Pinto, esperávamos começar um novo programa chamado Entrelinhas. Para falar de literatura, estreava a nossa amiga Frini. Alice sorriu quando ouviu a voz dela. Perguntou o que aconteceria se ela ligasse outro aparelho, se a tia Frini também estaria lá. E eu me dei conta que o rádio é ainda um mistério para minha filha.
Saímos de casa para a nossa caminhada diária até a escola. Em geral, ela vai cantando e quem puxa assunto sou eu. A criança é sincera, se não quer papo, diz que não quer falar disso ou daquilo. Porém, falar sobre circo, sobre o trabalho que tinham feito em sala de aula naquela mesma semana, parecia interessante. Deu corda, contou uma história terrível de um menino que morrera no zoológico atacado por um leão, emendou com o fato de que não havia mais números com animais no circo. Disse:
– Eles eram muito maltratados, pai. Então alguém assinou uma lei, igual a dos escravos, sabe?... Não sei se foi o prefeito.
Perguntei se ela lembrava que a gente tinha ido ao circo juntos, contei que na minha época ainda havia bichos. Talvez influenciado pela experiência de ouvir rádio em família, acabei sugerindo que víssemos um filme antigo no fim de semana – tinha pensado nos irmãos Marx. Ela gostou da ideia, mas estava se lembrando do trailer que tinha visto no cinema, da menina que andava na corda bamba – filme baseado no livro da Lygia Bojunga, que estreia em outubro.
Naquela manhã, felizmente pra mim, a conversa rendeu. Depois que nos despedimos, com o abraço e o beijo de sempre, coloquei os fones no ouvido, os mesmos que, mais cedo, tinham servidos de caixinhas de som. O aparelho escolheu Cindy Lauper e a música dos Goonies. Lembrei-me ali do show do Bruce no Rock in Rio, da minha amiga Aninha, das fitas cassete daqueles anos 80. E me veio à cabeça, do nada, que a lei Áurea era de um século diferente, mas também dos anos 80.
– Eles eram muito maltratados, pai. Então alguém assinou uma lei, igual a dos escravos, sabe?... Não sei se foi o prefeito.
Perguntei se ela lembrava que a gente tinha ido ao circo juntos, contei que na minha época ainda havia bichos. Talvez influenciado pela experiência de ouvir rádio em família, acabei sugerindo que víssemos um filme antigo no fim de semana – tinha pensado nos irmãos Marx. Ela gostou da ideia, mas estava se lembrando do trailer que tinha visto no cinema, da menina que andava na corda bamba – filme baseado no livro da Lygia Bojunga, que estreia em outubro.
Naquela manhã, felizmente pra mim, a conversa rendeu. Depois que nos despedimos, com o abraço e o beijo de sempre, coloquei os fones no ouvido, os mesmos que, mais cedo, tinham servidos de caixinhas de som. O aparelho escolheu Cindy Lauper e a música dos Goonies. Lembrei-me ali do show do Bruce no Rock in Rio, da minha amiga Aninha, das fitas cassete daqueles anos 80. E me veio à cabeça, do nada, que a lei Áurea era de um século diferente, mas também dos anos 80.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Jesus e Tito
Prometi a mim mesmo que não compraria livros durante a viagem que fizemos à California em 2011. O Kindle tinha sido encomendado pela Internet junto com outros dois antigos objetos de desejo. Todos foram entregues na casa de primos, onde ficamos hospedados, ao norte de San Francisco. Parecia suficiente. Contudo, não entrar em livrarias para resistir à promessa foi um grande equívoco: na última semana, quando encontramos uma loja da Borders em liquidação perto de Anaheim, a abstinência literária já era insuportável. Ali, não houve jeito, a oportunidade devorou a promessa. Saímos da loja com seis novas companhias, incluindo McEwan e Oates, e alguma preocupação a mais com o peso das malas.
É sempre assim: se o país fala uma das línguas que consigo ler, tenho que arrumar tempo para as livrarias e guardar espaço para os livros. Aliás, já que, de maneira geral, falo muito pouco, é graças aos livros que não esqueço os idiomas que aprendi.
Em outra ocasião, na primeira visita que fiz a Paris, as prioridades eram outras, mas incapazes de excluir as livrarias da programação. Na tarde que deixamos para as compras, passeando pelos Champs Elisées, resolvemos escolher uma livraria para descansar os pés. Perdi algum tempo nas mesas e prateleiras porque não tinha pensado antes em algum autor especial. Procurando a esmo, sem me dar ao trabalho de pedir alguma referência, meus olhos escolheram um título, Jésus et Tito, de um livro escrito por um bósnio radicado na França chamado Velibor Colic. O nome do meu pai, Tito, serviu como chamariz, e o texto da quarta capa me deu motivo para comprá-lo: quando criança, antes de sonhar em ser poeta, Velibor queria ser jogador de futebol, de preferência, negro e brasileiro.
Tempos depois, quando enfim coloquei o livro na minha cabeceira, acabei descobrindo uma leitura das mais prazerosas. Em capítulos curtos, o livro traz um painel de memórias da infância e da adolescência do autor, onde os dois personagens do título estão diretamente identificados com seus pais. Jesus representa a religião da família de sua mãe; e Tito, o Marechal iugoslavo, as convicções de seu pai.
Neste caso, ou acaso, meu instinto foi certeiro. Ele encontrou no título daquele livro referências da minha avó: no idioma, na crença e no filho.
É sempre assim: se o país fala uma das línguas que consigo ler, tenho que arrumar tempo para as livrarias e guardar espaço para os livros. Aliás, já que, de maneira geral, falo muito pouco, é graças aos livros que não esqueço os idiomas que aprendi.
Em outra ocasião, na primeira visita que fiz a Paris, as prioridades eram outras, mas incapazes de excluir as livrarias da programação. Na tarde que deixamos para as compras, passeando pelos Champs Elisées, resolvemos escolher uma livraria para descansar os pés. Perdi algum tempo nas mesas e prateleiras porque não tinha pensado antes em algum autor especial. Procurando a esmo, sem me dar ao trabalho de pedir alguma referência, meus olhos escolheram um título, Jésus et Tito, de um livro escrito por um bósnio radicado na França chamado Velibor Colic. O nome do meu pai, Tito, serviu como chamariz, e o texto da quarta capa me deu motivo para comprá-lo: quando criança, antes de sonhar em ser poeta, Velibor queria ser jogador de futebol, de preferência, negro e brasileiro.
Tempos depois, quando enfim coloquei o livro na minha cabeceira, acabei descobrindo uma leitura das mais prazerosas. Em capítulos curtos, o livro traz um painel de memórias da infância e da adolescência do autor, onde os dois personagens do título estão diretamente identificados com seus pais. Jesus representa a religião da família de sua mãe; e Tito, o Marechal iugoslavo, as convicções de seu pai.
Neste caso, ou acaso, meu instinto foi certeiro. Ele encontrou no título daquele livro referências da minha avó: no idioma, na crença e no filho.
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