Há alguns anos virei as minhas costas para tudo o que diz respeito à política. A minha leitura sobre o assunto nos jornais se restringe às manchetes. Em época de eleições, não assisto ao horário político obrigatório nem a debates. Sair de casa para votar é uma tortura e votar em branco, minha opção preferida. Antes de tratar da minha aversão, que já não é tão recente assim, é interessante contextualizar a minha formação política.
Nasci em 1974. Vivi meus primeiros anos de estudo na década de 80 – anos de anistia e redemocratização, de mobilização pelo voto direto, da formação de uma nova assembleia constituinte. No ambiente escolar, política e futebol me traziam o mesmo sentimento: solidão. Era o único tricolor da turma e o único com influências políticas à direita e contra o fluxo da opinião comum da época. As influências eram paternas, de formação conservadora, de militância intensa na juventude, de experiências de censura e perseguição quando fazia oposição aos governos de Getúlio e JK.
Na escola fiz o meu melhor amigo. E a amizade de duas crianças fez o impossível: reuniu numa mesma mesa o Clube da Lanterna e o PTB. A relação de respeito logo se transformou em amizade: Paiva foi um dos poucos convidados no jantar de aniversário de 50 anos do meu pai. De repente, a política começava a fazer sentido para mim e, na sala de aula, eu aprendia uma palavra que também fazia sentido: bem-comum.
Naqueles tempos, o sangue de meu pai fervia quando a nossa professora de história passava trabalhos que provocassem o debate político. Mesmo que tivesse razão ao criticar, por exemplo, um trabalho sobre os CIEPs às vésperas de uma eleição, ele exagerava na crença da conspiração. Antes de tudo, os trabalhos despertavam o senso crítico, formavam cidadãos e eu não me sentia tão sozinho assim.
Os anos foram passando e também a sensação de que eu (ou meu pai, num primeiro momento) estivesse errado em minhas (suas) convicções políticas. Aos poucos, fui colocando cores diferentes nos meus votos e prestando atenção em outros discursos. Contudo, a sopa insossa de letras partidárias aqui no Brasil fez com que eu buscasse referências políticas nos indivíduos e não em causas traduzidas por siglas, que perderam força com o tempo. Indivíduos que, no fim das contas, se revelavam muito parecidos entre si.
Houve ainda outro episódio de alento envolvendo Amaral Netto, que era amigo de meu pai, e uma figura intocável na mídia, com posição política absolutamente adversa. Depois de uma aproximação difícil, com grosserias de parte a parte, houve consenso que o projeto social proposto merecia alguma atenção. Ainda assim, foi pouco e o distanciamento se tornou aversão.
Em Verão, de J. M. Coetzee, na resposta de uma entrevistada ao suposto biógrafo do escritor sul-africano, encontrei uma boa definição para minha relação com a política. Sobre Coetzee, ela diz: “Não, não apolítico; melhor dizer antipolítico. Ele pensava que a política despertava o que havia de pior nas pessoas. Despertava o que havia de pior nas pessoas e também trazia à tona as piores figuras da sociedade. Ele preferia não ter nada a ver com isso.”
Em outro momento, ela diz também que “Na visão de Coetzee, nós seres humanos nunca abandonaremos a política porque a política é tão conveniente e tão atraente quanto um teatro em que damos vez às nossas emoções mais vis. Emoções mais vis significando ódio, rancor, despeito, inveja, sede de sangue e assim por diante.” Eu complemento dizendo que ainda estamos longe do dia em que os homens entenderão política como serviço absolutamente desinteressado, baseado em sentimentos de amor, respeito e tolerância.
sábado, 30 de abril de 2011
terça-feira, 26 de abril de 2011
Horas de Estrada
Rob Halford e Troy Bolton batem boca. A disputa acontece entre a música que toca no painel do carro e o filme que distrai a criança no banco de trás. Embora a distração não a impeça de perguntar se estamos perto de casa e de ensaiar um drama quando a resposta é negativa, devo reconhecer a sorte que temos. Meus pais tinham que reinventar passatempos. Com o DVD, nós podemos nos concentrar na água que bate forte no vidro, na frequência do limpador de para-brisa, nos carros que vão e vêm. E quando estes levantam água do chão e obstruem a visibilidade... Que legal! Sharpay acha um barato.
Obras a 27 quilômetros: a chuva dá uma trégua na violência, mas a lentidão do trânsito aumenta pouco antes da serra. O carro hesita, a embreagem trabalha como nunca e nós precisamos fazer xixi.
Nos intervalos de tensão, penso nos pardais. Parece poesia, mas é a indústria da multa que me irrita. Conto os carros que trafegam impunes pelo acostamento e não vejo vantagem na fiscalização pontual de velocidade. Pardal podia ser qualquer um assobiando, com capa de chuva e bloquinho na mão, anotando as placas dos malandros que pegam o atalho proibido ou costuram sem se preocupar com a vida. Não precisaria de mais de uma hora para o fiscal atingir a meta do dia.
Penso de novo na sorte. Quando criança, era uma Brasília bege que nos levava por aí sem ar condicionado. Nela, conheci as capitais do mundo, de Tóquio a Tegucigalpa, em viagens longas até Porto Alegre ou Salvador. Aprendi outras coisas também com os passatempos do meu pai, quase sempre um jogo sem tabuleiro, que preparava meu futuro nas gincanas do Sebastian Bar. De repente, acho que Alice pode estar perdendo uma boa oportunidade de jogar adedanha. Mas se Grease dá lugar aos Wildcats que dá lugar a Tim Burton, tenho certeza de que ela está se divertindo. Enquanto Alice, a outra, toma chá com o chapeleiro e se esconde no bule, a minha Alice inventa uma história.
Lea se junta ao Luke Rapidinho para enfrentar o inimigo Ráuli Devagar (ou Hauly, não sei). Ela diz que foi George Lucas que inventou o novo conto estelar e Chewbacca é o coelho. Lembra então que ele escondeu os ovinhos em casa, que está anoitecendo e não vai dar tempo de procurá-los. Não vai dar tempo também de lavar os cabelos. Drama, de novo.
Nane aumenta o volume: Bono discute com a Rainha de Copas.
Obras a 27 quilômetros: a chuva dá uma trégua na violência, mas a lentidão do trânsito aumenta pouco antes da serra. O carro hesita, a embreagem trabalha como nunca e nós precisamos fazer xixi.
Nos intervalos de tensão, penso nos pardais. Parece poesia, mas é a indústria da multa que me irrita. Conto os carros que trafegam impunes pelo acostamento e não vejo vantagem na fiscalização pontual de velocidade. Pardal podia ser qualquer um assobiando, com capa de chuva e bloquinho na mão, anotando as placas dos malandros que pegam o atalho proibido ou costuram sem se preocupar com a vida. Não precisaria de mais de uma hora para o fiscal atingir a meta do dia.
Penso de novo na sorte. Quando criança, era uma Brasília bege que nos levava por aí sem ar condicionado. Nela, conheci as capitais do mundo, de Tóquio a Tegucigalpa, em viagens longas até Porto Alegre ou Salvador. Aprendi outras coisas também com os passatempos do meu pai, quase sempre um jogo sem tabuleiro, que preparava meu futuro nas gincanas do Sebastian Bar. De repente, acho que Alice pode estar perdendo uma boa oportunidade de jogar adedanha. Mas se Grease dá lugar aos Wildcats que dá lugar a Tim Burton, tenho certeza de que ela está se divertindo. Enquanto Alice, a outra, toma chá com o chapeleiro e se esconde no bule, a minha Alice inventa uma história.
Lea se junta ao Luke Rapidinho para enfrentar o inimigo Ráuli Devagar (ou Hauly, não sei). Ela diz que foi George Lucas que inventou o novo conto estelar e Chewbacca é o coelho. Lembra então que ele escondeu os ovinhos em casa, que está anoitecendo e não vai dar tempo de procurá-los. Não vai dar tempo também de lavar os cabelos. Drama, de novo.
Nane aumenta o volume: Bono discute com a Rainha de Copas.
domingo, 10 de abril de 2011
A Presidente
Era uma vez uma formiguinha. Nasceu de um poema que escrevi há mais de quinze anos. Era assim diminuta e trabalhadeira. Não parava quieta. Era mãe dos nossos tempos de criança, um tanto dona-de-casa, outro tanto professora; casada com um homem dezessete anos mais velho, de tempos ainda mais remotos. Parou de trabalhar no Banco quando eu nasci, o mesmo em que ela conheceu meu pai (ela caixa, ele cliente). Voltou mais tarde, nas salas de aula. Além dos três que tinha em casa, era assim mãe de outros filhos também. Faltava o diploma, contudo. O sonho tinha sido adiado muitas vezes. Porque ser mãe é abdicar de sonhos íntimos para compartilhar realizações. E ser gente é perder para ganhar. Mas perder não é necessariamente para sempre.
O poema que escrevi foi lido em um dos discursos de sua posse. Poderia ter sido relido no discurso de formatura, se fosse um evento de uma só pessoa. A presidente veio antes da pedagoga, porque a formiguinha trabalhou muito antes de voltar a sonhar. Ela e meu pai sempre tiveram vida social intensa. Começaram com Encontro de Casais e continuaram como leões. Agora repito: minha mãe é dos nossos tempos de criança. Quando ajudaram a fundar o Lions Clube Glória, só os homens participavam das reuniões. Eles eram companheiros leões e as mulheres, gentilmente chamadas de domadoras. Transição completa, elas se tornaram companheiras leão. Mamãe foi a primeira mulher presidente do seu clube.
Alice estava na barriga quando a futura vovó pegou o canudo. Os anos de estudo não foram fáceis. Muito curiosa foi a inversão de papéis: Neidinha ligava pra mim depois das dez (ela nunca dormiu tão tarde como nos tempos de faculdade), reclamava da rigidez de um certo professor ou da prova ruim que tinha feito (da mesma prova ruim em que ela tinha tirado oito e meio). Cabia a nós, filhos, ouvirmos e incentivarmos. E a dissertação de final de curso foi então uma novela mexicana, em que o meu pai era o galã à moda antiga... eu ajudo, eu reviso, eu resolvo.
Neida é a formiga que já foi presidente, estilo doce e dedicada, e é pedagoga, estilo mãe de muitos filhos, do tipo preciso respirar. Os meus versos diziam, e se repetem hoje, assim:
FORMIGA-MÃE
Sabe a formiguinha?
Que nasceu faz pouco tempo
Que andou em pouco tempo,
Continua andando...
Muito brava e corajosa,
Continua buscando...
E tanto andou
Tanto buscou
Que acabou crescendo:
Virou formigona.
Sabe a formigona?
Que nasceu ainda agora
Que perdeu-se há dois minutos,
Continua perdida...
Hesitante e cheia de dúvidas,
Continua buscando...
E tanto tentou
Tanto aceitou
Que acabou recompensada:
Hoje é rainha.
Sabe a rainha?
Que tanto compreende
Que tanto sofretorce,
Ela é mãe!
(De tanto sobreviver,
Por tanto lutar)
E cria várias formiguinhas,
Que nascem felizes
Mas vivem tristes
Iguaizinhas àquela
Que começou esta história.
O poema que escrevi foi lido em um dos discursos de sua posse. Poderia ter sido relido no discurso de formatura, se fosse um evento de uma só pessoa. A presidente veio antes da pedagoga, porque a formiguinha trabalhou muito antes de voltar a sonhar. Ela e meu pai sempre tiveram vida social intensa. Começaram com Encontro de Casais e continuaram como leões. Agora repito: minha mãe é dos nossos tempos de criança. Quando ajudaram a fundar o Lions Clube Glória, só os homens participavam das reuniões. Eles eram companheiros leões e as mulheres, gentilmente chamadas de domadoras. Transição completa, elas se tornaram companheiras leão. Mamãe foi a primeira mulher presidente do seu clube.
Alice estava na barriga quando a futura vovó pegou o canudo. Os anos de estudo não foram fáceis. Muito curiosa foi a inversão de papéis: Neidinha ligava pra mim depois das dez (ela nunca dormiu tão tarde como nos tempos de faculdade), reclamava da rigidez de um certo professor ou da prova ruim que tinha feito (da mesma prova ruim em que ela tinha tirado oito e meio). Cabia a nós, filhos, ouvirmos e incentivarmos. E a dissertação de final de curso foi então uma novela mexicana, em que o meu pai era o galã à moda antiga... eu ajudo, eu reviso, eu resolvo.
Neida é a formiga que já foi presidente, estilo doce e dedicada, e é pedagoga, estilo mãe de muitos filhos, do tipo preciso respirar. Os meus versos diziam, e se repetem hoje, assim:
FORMIGA-MÃE
Sabe a formiguinha?
Que nasceu faz pouco tempo
Que andou em pouco tempo,
Continua andando...
Muito brava e corajosa,
Continua buscando...
E tanto andou
Tanto buscou
Que acabou crescendo:
Virou formigona.
Sabe a formigona?
Que nasceu ainda agora
Que perdeu-se há dois minutos,
Continua perdida...
Hesitante e cheia de dúvidas,
Continua buscando...
E tanto tentou
Tanto aceitou
Que acabou recompensada:
Hoje é rainha.
Sabe a rainha?
Que tanto compreende
Que tanto sofretorce,
Ela é mãe!
(De tanto sobreviver,
Por tanto lutar)
E cria várias formiguinhas,
Que nascem felizes
Mas vivem tristes
Iguaizinhas àquela
Que começou esta história.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Maratona e Treinamento Jedi
Ao ver o pórtico de entrada do estacionamento, caiu a ficha. Vibraram os gritinhos e as palmas da Alice. O parque estava muito cheio. Não chegava a estar calor, mas o sol queimava o cocuruto. Os minutos de espera ficavam próximos ou além da hora. Enfrentamos as filas daquele dia para tirar fotos. Jasmine e o abraço apertado do Tigrão foram um belo começo. Encontrar o titio Pooh (meu irmão camarada), melhor ainda. Se Rapunzel tinha um cantinho só para ela, as outras princesas ficaram para o fim da tarde, na maior das esperas daquele dia e quando a bateria da câmera já tinha acabado. Fotos no celular, então; ou, no site da Disney, onde o download custa exatos... esquece! Felizmente lá estava Ariel, a preferida. Mas a nossa Alice queria mesmo encontrar a outra Alice – essa foi a solitária frustração da menina em toda a viagem.
Chegamos perto das 10h e saímos 12h depois. Desafio para profissional, para Jedi maratonista. Nossos pés latejavam, a batata da perna reclamava, o cangote nem se fala. Eram 20h30 e, sempre de pé, estávamos em frente ao castelo da Aurora assistindo ao show de fogos, num dos momentos preferidos da Alice: Sininho voando nos céus de Anaheim. Sobre os meus ombros ela continuou na apresentação seguinte, perto da ilha de Tom Sawyer. Revezamos. Pra cá, pra lá, e a doce filhota compensava o nosso esforço narrando o que não conseguíamos ver: chegou o Mickey; a bruxa; agora o barco, com aqueles dois do filme da Alice... aliás, uma das diversões do dia foi remar, dar a volta na ilha dentro de uma canoa. Haja braço também!
O treinamento Jedi aconteceu no início da tarde. Nane e Alice se sentaram no chão junto com as outras crianças. Depois de muito alvoroço, algumas foram selecionadas para aprender a lutar com o sabre de luz. A aula só foi interrompida com a aparição da turma do lado negro da força: Darth Vader (Alice adora) e Darth Mau (assim mesmo, como o lobo). O primeiro desafiou os aprendizes e o segundo optou por distribuir caretas para os espectadores. O olhar compenetrado daqueles que enfrentavam o homem de preto só não era mais impressionante que a diferença de altura entre ele e os pequeninos. Fiquei procurando, mas o Yoda apareceu apenas disfarçado de mochila nas costas de algumas pessoas.
Intervalo para descanso no sábado de comprinhas e reencontro. Alice parecia um zumbi até ganhar um tênis rosa reluzente e, no Farmer’s Market, elegeu Fernanda sua nova melhor amiga.
Mas a maratona continuou no domingo. Em Buena Park, para nós, e em Los Angeles, para os que têm fôlego.
Chegamos perto das 10h e saímos 12h depois. Desafio para profissional, para Jedi maratonista. Nossos pés latejavam, a batata da perna reclamava, o cangote nem se fala. Eram 20h30 e, sempre de pé, estávamos em frente ao castelo da Aurora assistindo ao show de fogos, num dos momentos preferidos da Alice: Sininho voando nos céus de Anaheim. Sobre os meus ombros ela continuou na apresentação seguinte, perto da ilha de Tom Sawyer. Revezamos. Pra cá, pra lá, e a doce filhota compensava o nosso esforço narrando o que não conseguíamos ver: chegou o Mickey; a bruxa; agora o barco, com aqueles dois do filme da Alice... aliás, uma das diversões do dia foi remar, dar a volta na ilha dentro de uma canoa. Haja braço também!
O treinamento Jedi aconteceu no início da tarde. Nane e Alice se sentaram no chão junto com as outras crianças. Depois de muito alvoroço, algumas foram selecionadas para aprender a lutar com o sabre de luz. A aula só foi interrompida com a aparição da turma do lado negro da força: Darth Vader (Alice adora) e Darth Mau (assim mesmo, como o lobo). O primeiro desafiou os aprendizes e o segundo optou por distribuir caretas para os espectadores. O olhar compenetrado daqueles que enfrentavam o homem de preto só não era mais impressionante que a diferença de altura entre ele e os pequeninos. Fiquei procurando, mas o Yoda apareceu apenas disfarçado de mochila nas costas de algumas pessoas.
Intervalo para descanso no sábado de comprinhas e reencontro. Alice parecia um zumbi até ganhar um tênis rosa reluzente e, no Farmer’s Market, elegeu Fernanda sua nova melhor amiga.
Mas a maratona continuou no domingo. Em Buena Park, para nós, e em Los Angeles, para os que têm fôlego.
quinta-feira, 31 de março de 2011
A Vendedora de Queijos
Fazia parte dos meus sonhos refazer a viagem pelo litoral da California com um pouco mais de calma. Com as melhores companhias do mundo, realizei em três noites: a primeira, em Carmel, em seguida à visita ao Aquário de Monterey; a segunda, em Solvang, depois de muitas horas de inesquecíveis paisagens abençoadas pelo sol, intercaladas por momentos de alguma neblina; a terceira em Santa Barbara, após uma indisposição que acabou prejudicando o dia.
Em Monterey, repetimos a visita feita sete anos antes, agora com Alice, que se apaixonou pelas lontras e, com alguma hesitação, colocou o dedinho em pepinos e estrelas-do-mar. Chegamos anoitecendo a Carmel para conhecê-la na manhã seguinte. Começamos pela loja de queijos, muito bem recomendada. Provamos de tudo um pouco, compramos alguma coisa para comer no resto da viagem ou trazer para casa. Alice se deliciava com as lâminas que a atendente oferecia. Tanto que o dono, muito simpático, convidou-a para voltar de avental quando completasse dezesseis anos. Na loja ao lado, escolhemos alguns apetrechos de cozinha. Seguimos pela praia, parando para fotos, até a Missão de Carmel.
Já enfrentávamos as curvas da estrada de Big Sur, quando a fome nos obrigou a improvisar. Paramos o carro, abrimos o Brillat Savarin (dentre os queijos comprados, o mais parecido com o preferido da Alice: aquele branquinho...), um pacote de biscoitos e estreamos a faca nova. Mais tarde, a pequena dormiu e, quando acordou, passou a reclamar da demora e do balanço. Riu um pouco com a cidade Gorda e, depois de uma parada estratégica em Ragged Point, aceitou a troca do sonhado DS, comprado em San Luis Obispo, por mais uma hora de viagem até Solvang – um simpático cantinho dinamarquês, que acabou conhecido como a cidade fofinha.
No dia seguinte, a caminho de Santa Barbara, as curvas combinadas com mais alguma coisa me fizeram mal. Do píer fomos para o hotel, onde fiquei sozinho assistindo a episódios de um reality show de maquiadores, que criavam monstros e alienígenas, enquanto as meninas passeavam.
Melhorei durante a noite e acordamos, de novo, com o pé na estrada. Dali para Anaheim era um passo, mais algumas horas de trânsito em torno de Los Angeles. O país das maravilhas se aproximava. E, no caminho, Alice nos confessava que gostaria de ser cantora ou vendedora de queijos! Planos para 2021...
Em Monterey, repetimos a visita feita sete anos antes, agora com Alice, que se apaixonou pelas lontras e, com alguma hesitação, colocou o dedinho em pepinos e estrelas-do-mar. Chegamos anoitecendo a Carmel para conhecê-la na manhã seguinte. Começamos pela loja de queijos, muito bem recomendada. Provamos de tudo um pouco, compramos alguma coisa para comer no resto da viagem ou trazer para casa. Alice se deliciava com as lâminas que a atendente oferecia. Tanto que o dono, muito simpático, convidou-a para voltar de avental quando completasse dezesseis anos. Na loja ao lado, escolhemos alguns apetrechos de cozinha. Seguimos pela praia, parando para fotos, até a Missão de Carmel.
Já enfrentávamos as curvas da estrada de Big Sur, quando a fome nos obrigou a improvisar. Paramos o carro, abrimos o Brillat Savarin (dentre os queijos comprados, o mais parecido com o preferido da Alice: aquele branquinho...), um pacote de biscoitos e estreamos a faca nova. Mais tarde, a pequena dormiu e, quando acordou, passou a reclamar da demora e do balanço. Riu um pouco com a cidade Gorda e, depois de uma parada estratégica em Ragged Point, aceitou a troca do sonhado DS, comprado em San Luis Obispo, por mais uma hora de viagem até Solvang – um simpático cantinho dinamarquês, que acabou conhecido como a cidade fofinha.
No dia seguinte, a caminho de Santa Barbara, as curvas combinadas com mais alguma coisa me fizeram mal. Do píer fomos para o hotel, onde fiquei sozinho assistindo a episódios de um reality show de maquiadores, que criavam monstros e alienígenas, enquanto as meninas passeavam.
Melhorei durante a noite e acordamos, de novo, com o pé na estrada. Dali para Anaheim era um passo, mais algumas horas de trânsito em torno de Los Angeles. O país das maravilhas se aproximava. E, no caminho, Alice nos confessava que gostaria de ser cantora ou vendedora de queijos! Planos para 2021...
terça-feira, 29 de março de 2011
Ease on down the Road
A semana deles foi muito atribulada: Bruno trabalhando muito, inclusive no domingo; Marina ensaiando para a peça que aconteceria no sábado; Laurie se desdobrando para dar conta de tudo, inclusive nós. Tivemos menos tempo com eles do que gostaríamos, mas procuramos aproveitar todo o minuto possível. A volta de nossos passeios em San Francisco tinha que coincidir com a chegada das crianças.
Foi assim desde o primeiro dia: do aeroporto para a Best Buy, comprar a câmera, e para a Target, atrás do booster. Quarta-feira ótima, no Academy of Sciences; quinta, com chuva, no Fisherman’s Wharf; e sexta, também com chuva, mas de mensagens nervosas do Brasil por causa da ameaça de tsunami, no Exploratorium, em Chinatown e no passeio muito turista de Cable Car.
Ao contrário deles, para nós, os dias foram tranquilos, de um jeito ótimo para começar as férias que teriam ainda as maratonas intermináveis de estradas e parques de diversão.
E o idioma não foi barreira alguma. Os beads e as artes com colas coloridas eram as brincadeiras que uniam as três crianças. Marina entendia o que Alice dizia e nos brindava com uma leitura à noite, em português com um sotaque maravilhoso. Passava horas fazendo tererê (ou tededê) no cabelo da Alice. Diego não fazia questão de mostrar que entendia o português até perceber o quanto Alice gosta do Darth Vader (e ceder os lençóis do Star Wars) ou lembrar que para quer dizer stop. Esperou o domingo, nosso último dia em Fairfax, para desfilar seus conhecimentos, mostrando que sabia falar papai, momõe e, claro, bumbunzinho!
O programa de sábado era uma das apresentações do Mágico de Oz – uma superprodução da comunidade local. Perto da hora do almoço, um piquenique no gramado ao lado da Playhouse foi a melhor e mais divertida alternativa. Comemos enquanto Marina se preparava e Bruno chegava do trabalho. Por trás da síndrome de Hollywood, havia muitos aspectos interessantes na peça. As crianças não atuavam apenas; trabalhavam em tudo: da iluminação à montagem dos cenários. Eram muitas, mais de cinquenta, o que gerava certa ansiedade pela busca do rostinho da Marina e muita expectativa pela sua participação. Os protagonistas cantavam (mal) sem medo. E isso nos ajudou a entender um pouco a cara de decepção e as reações de alguns aspirantes a American Idol. Mas, que importa, se o Espantalho fazia valer o dia?
Foram quase duas horas de show. No intervalo, Alice e Diego desceram as escadas sozinhos, de mãos dadas, para comprar cookies. Lindo! Na volta, Nane perguntou se alguém tinha falado com ela. Alice não hesitou: sim, aquela moça ali, apontou. E o que ela falou? Não sei, ela falou em inglês. Óbvio... De lá, Marina teve seu esforço recompensado: fomos tomar sorvete de iogurte.
A parte família da viagem terminou com um jantar thai, em casa, no domingo, que teve passeio a Sausalito e mais sorvete (de amêndoas e limão... hummmm). Dali, seguimos viagem na segunda, rumo a Monterey e às bruxas do sul, com a música que ainda toca em nossas cabeças: ease on down... ease on down the roaaaad.
Foi assim desde o primeiro dia: do aeroporto para a Best Buy, comprar a câmera, e para a Target, atrás do booster. Quarta-feira ótima, no Academy of Sciences; quinta, com chuva, no Fisherman’s Wharf; e sexta, também com chuva, mas de mensagens nervosas do Brasil por causa da ameaça de tsunami, no Exploratorium, em Chinatown e no passeio muito turista de Cable Car.
Ao contrário deles, para nós, os dias foram tranquilos, de um jeito ótimo para começar as férias que teriam ainda as maratonas intermináveis de estradas e parques de diversão.
E o idioma não foi barreira alguma. Os beads e as artes com colas coloridas eram as brincadeiras que uniam as três crianças. Marina entendia o que Alice dizia e nos brindava com uma leitura à noite, em português com um sotaque maravilhoso. Passava horas fazendo tererê (ou tededê) no cabelo da Alice. Diego não fazia questão de mostrar que entendia o português até perceber o quanto Alice gosta do Darth Vader (e ceder os lençóis do Star Wars) ou lembrar que para quer dizer stop. Esperou o domingo, nosso último dia em Fairfax, para desfilar seus conhecimentos, mostrando que sabia falar papai, momõe e, claro, bumbunzinho!
O programa de sábado era uma das apresentações do Mágico de Oz – uma superprodução da comunidade local. Perto da hora do almoço, um piquenique no gramado ao lado da Playhouse foi a melhor e mais divertida alternativa. Comemos enquanto Marina se preparava e Bruno chegava do trabalho. Por trás da síndrome de Hollywood, havia muitos aspectos interessantes na peça. As crianças não atuavam apenas; trabalhavam em tudo: da iluminação à montagem dos cenários. Eram muitas, mais de cinquenta, o que gerava certa ansiedade pela busca do rostinho da Marina e muita expectativa pela sua participação. Os protagonistas cantavam (mal) sem medo. E isso nos ajudou a entender um pouco a cara de decepção e as reações de alguns aspirantes a American Idol. Mas, que importa, se o Espantalho fazia valer o dia?
Foram quase duas horas de show. No intervalo, Alice e Diego desceram as escadas sozinhos, de mãos dadas, para comprar cookies. Lindo! Na volta, Nane perguntou se alguém tinha falado com ela. Alice não hesitou: sim, aquela moça ali, apontou. E o que ela falou? Não sei, ela falou em inglês. Óbvio... De lá, Marina teve seu esforço recompensado: fomos tomar sorvete de iogurte.
A parte família da viagem terminou com um jantar thai, em casa, no domingo, que teve passeio a Sausalito e mais sorvete (de amêndoas e limão... hummmm). Dali, seguimos viagem na segunda, rumo a Monterey e às bruxas do sul, com a música que ainda toca em nossas cabeças: ease on down... ease on down the roaaaad.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
A Cicatriz de Mione
Ocorreu em janeiro de 2007. O famigerado V, de quem não ousamos escrever o nome, utilizou-se de cruéis artimanhas para atacar uma pequena feiticeira, filha de trouxas, que mora no bairro de Botafogo em terras cariocas. A fim de protegê-la, não a chamaremos aqui pelo seu nome de batismo cristão. Na época, Mione tinha apenas um ano e sete meses e mal havia iniciado sua educação em creche muito especial, simpática à cúpula de Hogwarts. Caminhava ainda sem firmeza, balançando lateralmente, os pés cegos tateando o chão. Não se sabe exatamente se tropeçou, foi empurrada ou enfeitiçada. Sabe-se apenas que chorou muito quando o lado direto da testa encontrou a parede áspera com violência.
O galo que o pai encontrou quando chegou em casa era enorme. A testa arroxeada brilhava. Cercada de carinho, ela dormiu bem, mas no dia seguinte telefonaram da creche para avisar que ela tinha febre. A mãe foi buscá-la mais cedo; e, como o pediatra só estaria disponível no dia seguinte, levou-a ao pronto socorro, onde a menina foi medicada com analgésico. A noite foi longa, a febre não passou. Na manhã seguinte, no consultório, os dedos do médico não encontraram a esperada resistência na área machucada. Mione tinha um abscesso. As bactérias haviam se instalado ali através de uma pequena ferida causada pela aspereza da superfície da parede. Acredita-se que o aparente acaso tenha sido obra do famigerado.
Para evitar uma internação, doses cavalares de antibiótico foram ministradas. O roxo dava lugar ao vermelho na testa da criança e a vermelhidão se espalhava em direção aos olhos. Com o passar dos dias, o efeito do antibiótico era perceptível, porém lento. No fim de semana, um novo susto. Irritadiça, Mione se contorcia no carrinho durante um passeio ao shopping. Não se sabe se por descuido, por acúmulo de energia proveniente da irritação ou por intervenção maligna, o cinto que a prendia se soltou e ela caiu com a cara no chão. A preocupação era com a região molenga da testa, mas foram os lábios que incharam e os dentes que se coloriram de vermelho. Depois de alguma dificuldade para conseguir gelo numa lanchonete, o desespero levou os três ao hospital. Felizmente, o local crítico não tinha sido atingido, mas tudo indicava que uma drenagem seria mesmo necessária.
Ela aconteceu na segunda-feira à tarde, após nova visita ao pediatra. O pai, trouxa em mais de um sentido, não presenciou o sofrido procedimento por que Mione passou; ficou sabendo mais tarde, por telefone. À noite encontrou a pequena com a cabeça enfaixada. Solidários, pai e mãe também enfaixaram as cabeças. Uma foto com o pai é o único registro do fato, além da cicatriz quase imperceptível que os longos cabelos ajudam a esconder. Diferentemente da que foi desenhada na testa de Harry, ela sorri em forma de lua, como se estivesse desafiando o impronunciável, tirando onda mesmo.
O galo que o pai encontrou quando chegou em casa era enorme. A testa arroxeada brilhava. Cercada de carinho, ela dormiu bem, mas no dia seguinte telefonaram da creche para avisar que ela tinha febre. A mãe foi buscá-la mais cedo; e, como o pediatra só estaria disponível no dia seguinte, levou-a ao pronto socorro, onde a menina foi medicada com analgésico. A noite foi longa, a febre não passou. Na manhã seguinte, no consultório, os dedos do médico não encontraram a esperada resistência na área machucada. Mione tinha um abscesso. As bactérias haviam se instalado ali através de uma pequena ferida causada pela aspereza da superfície da parede. Acredita-se que o aparente acaso tenha sido obra do famigerado.
Para evitar uma internação, doses cavalares de antibiótico foram ministradas. O roxo dava lugar ao vermelho na testa da criança e a vermelhidão se espalhava em direção aos olhos. Com o passar dos dias, o efeito do antibiótico era perceptível, porém lento. No fim de semana, um novo susto. Irritadiça, Mione se contorcia no carrinho durante um passeio ao shopping. Não se sabe se por descuido, por acúmulo de energia proveniente da irritação ou por intervenção maligna, o cinto que a prendia se soltou e ela caiu com a cara no chão. A preocupação era com a região molenga da testa, mas foram os lábios que incharam e os dentes que se coloriram de vermelho. Depois de alguma dificuldade para conseguir gelo numa lanchonete, o desespero levou os três ao hospital. Felizmente, o local crítico não tinha sido atingido, mas tudo indicava que uma drenagem seria mesmo necessária.
Ela aconteceu na segunda-feira à tarde, após nova visita ao pediatra. O pai, trouxa em mais de um sentido, não presenciou o sofrido procedimento por que Mione passou; ficou sabendo mais tarde, por telefone. À noite encontrou a pequena com a cabeça enfaixada. Solidários, pai e mãe também enfaixaram as cabeças. Uma foto com o pai é o único registro do fato, além da cicatriz quase imperceptível que os longos cabelos ajudam a esconder. Diferentemente da que foi desenhada na testa de Harry, ela sorri em forma de lua, como se estivesse desafiando o impronunciável, tirando onda mesmo.
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