Fazia parte dos meus sonhos refazer a viagem pelo litoral da California com um pouco mais de calma. Com as melhores companhias do mundo, realizei em três noites: a primeira, em Carmel, em seguida à visita ao Aquário de Monterey; a segunda, em Solvang, depois de muitas horas de inesquecíveis paisagens abençoadas pelo sol, intercaladas por momentos de alguma neblina; a terceira em Santa Barbara, após uma indisposição que acabou prejudicando o dia.
Em Monterey, repetimos a visita feita sete anos antes, agora com Alice, que se apaixonou pelas lontras e, com alguma hesitação, colocou o dedinho em pepinos e estrelas-do-mar. Chegamos anoitecendo a Carmel para conhecê-la na manhã seguinte. Começamos pela loja de queijos, muito bem recomendada. Provamos de tudo um pouco, compramos alguma coisa para comer no resto da viagem ou trazer para casa. Alice se deliciava com as lâminas que a atendente oferecia. Tanto que o dono, muito simpático, convidou-a para voltar de avental quando completasse dezesseis anos. Na loja ao lado, escolhemos alguns apetrechos de cozinha. Seguimos pela praia, parando para fotos, até a Missão de Carmel.
Já enfrentávamos as curvas da estrada de Big Sur, quando a fome nos obrigou a improvisar. Paramos o carro, abrimos o Brillat Savarin (dentre os queijos comprados, o mais parecido com o preferido da Alice: aquele branquinho...), um pacote de biscoitos e estreamos a faca nova. Mais tarde, a pequena dormiu e, quando acordou, passou a reclamar da demora e do balanço. Riu um pouco com a cidade Gorda e, depois de uma parada estratégica em Ragged Point, aceitou a troca do sonhado DS, comprado em San Luis Obispo, por mais uma hora de viagem até Solvang – um simpático cantinho dinamarquês, que acabou conhecido como a cidade fofinha.
No dia seguinte, a caminho de Santa Barbara, as curvas combinadas com mais alguma coisa me fizeram mal. Do píer fomos para o hotel, onde fiquei sozinho assistindo a episódios de um reality show de maquiadores, que criavam monstros e alienígenas, enquanto as meninas passeavam.
Melhorei durante a noite e acordamos, de novo, com o pé na estrada. Dali para Anaheim era um passo, mais algumas horas de trânsito em torno de Los Angeles. O país das maravilhas se aproximava. E, no caminho, Alice nos confessava que gostaria de ser cantora ou vendedora de queijos! Planos para 2021...
quinta-feira, 31 de março de 2011
terça-feira, 29 de março de 2011
Ease on down the Road
A semana deles foi muito atribulada: Bruno trabalhando muito, inclusive no domingo; Marina ensaiando para a peça que aconteceria no sábado; Laurie se desdobrando para dar conta de tudo, inclusive nós. Tivemos menos tempo com eles do que gostaríamos, mas procuramos aproveitar todo o minuto possível. A volta de nossos passeios em San Francisco tinha que coincidir com a chegada das crianças.
Foi assim desde o primeiro dia: do aeroporto para a Best Buy, comprar a câmera, e para a Target, atrás do booster. Quarta-feira ótima, no Academy of Sciences; quinta, com chuva, no Fisherman’s Wharf; e sexta, também com chuva, mas de mensagens nervosas do Brasil por causa da ameaça de tsunami, no Exploratorium, em Chinatown e no passeio muito turista de Cable Car.
Ao contrário deles, para nós, os dias foram tranquilos, de um jeito ótimo para começar as férias que teriam ainda as maratonas intermináveis de estradas e parques de diversão.
E o idioma não foi barreira alguma. Os beads e as artes com colas coloridas eram as brincadeiras que uniam as três crianças. Marina entendia o que Alice dizia e nos brindava com uma leitura à noite, em português com um sotaque maravilhoso. Passava horas fazendo tererê (ou tededê) no cabelo da Alice. Diego não fazia questão de mostrar que entendia o português até perceber o quanto Alice gosta do Darth Vader (e ceder os lençóis do Star Wars) ou lembrar que para quer dizer stop. Esperou o domingo, nosso último dia em Fairfax, para desfilar seus conhecimentos, mostrando que sabia falar papai, momõe e, claro, bumbunzinho!
O programa de sábado era uma das apresentações do Mágico de Oz – uma superprodução da comunidade local. Perto da hora do almoço, um piquenique no gramado ao lado da Playhouse foi a melhor e mais divertida alternativa. Comemos enquanto Marina se preparava e Bruno chegava do trabalho. Por trás da síndrome de Hollywood, havia muitos aspectos interessantes na peça. As crianças não atuavam apenas; trabalhavam em tudo: da iluminação à montagem dos cenários. Eram muitas, mais de cinquenta, o que gerava certa ansiedade pela busca do rostinho da Marina e muita expectativa pela sua participação. Os protagonistas cantavam (mal) sem medo. E isso nos ajudou a entender um pouco a cara de decepção e as reações de alguns aspirantes a American Idol. Mas, que importa, se o Espantalho fazia valer o dia?
Foram quase duas horas de show. No intervalo, Alice e Diego desceram as escadas sozinhos, de mãos dadas, para comprar cookies. Lindo! Na volta, Nane perguntou se alguém tinha falado com ela. Alice não hesitou: sim, aquela moça ali, apontou. E o que ela falou? Não sei, ela falou em inglês. Óbvio... De lá, Marina teve seu esforço recompensado: fomos tomar sorvete de iogurte.
A parte família da viagem terminou com um jantar thai, em casa, no domingo, que teve passeio a Sausalito e mais sorvete (de amêndoas e limão... hummmm). Dali, seguimos viagem na segunda, rumo a Monterey e às bruxas do sul, com a música que ainda toca em nossas cabeças: ease on down... ease on down the roaaaad.
Foi assim desde o primeiro dia: do aeroporto para a Best Buy, comprar a câmera, e para a Target, atrás do booster. Quarta-feira ótima, no Academy of Sciences; quinta, com chuva, no Fisherman’s Wharf; e sexta, também com chuva, mas de mensagens nervosas do Brasil por causa da ameaça de tsunami, no Exploratorium, em Chinatown e no passeio muito turista de Cable Car.
Ao contrário deles, para nós, os dias foram tranquilos, de um jeito ótimo para começar as férias que teriam ainda as maratonas intermináveis de estradas e parques de diversão.
E o idioma não foi barreira alguma. Os beads e as artes com colas coloridas eram as brincadeiras que uniam as três crianças. Marina entendia o que Alice dizia e nos brindava com uma leitura à noite, em português com um sotaque maravilhoso. Passava horas fazendo tererê (ou tededê) no cabelo da Alice. Diego não fazia questão de mostrar que entendia o português até perceber o quanto Alice gosta do Darth Vader (e ceder os lençóis do Star Wars) ou lembrar que para quer dizer stop. Esperou o domingo, nosso último dia em Fairfax, para desfilar seus conhecimentos, mostrando que sabia falar papai, momõe e, claro, bumbunzinho!
O programa de sábado era uma das apresentações do Mágico de Oz – uma superprodução da comunidade local. Perto da hora do almoço, um piquenique no gramado ao lado da Playhouse foi a melhor e mais divertida alternativa. Comemos enquanto Marina se preparava e Bruno chegava do trabalho. Por trás da síndrome de Hollywood, havia muitos aspectos interessantes na peça. As crianças não atuavam apenas; trabalhavam em tudo: da iluminação à montagem dos cenários. Eram muitas, mais de cinquenta, o que gerava certa ansiedade pela busca do rostinho da Marina e muita expectativa pela sua participação. Os protagonistas cantavam (mal) sem medo. E isso nos ajudou a entender um pouco a cara de decepção e as reações de alguns aspirantes a American Idol. Mas, que importa, se o Espantalho fazia valer o dia?
Foram quase duas horas de show. No intervalo, Alice e Diego desceram as escadas sozinhos, de mãos dadas, para comprar cookies. Lindo! Na volta, Nane perguntou se alguém tinha falado com ela. Alice não hesitou: sim, aquela moça ali, apontou. E o que ela falou? Não sei, ela falou em inglês. Óbvio... De lá, Marina teve seu esforço recompensado: fomos tomar sorvete de iogurte.
A parte família da viagem terminou com um jantar thai, em casa, no domingo, que teve passeio a Sausalito e mais sorvete (de amêndoas e limão... hummmm). Dali, seguimos viagem na segunda, rumo a Monterey e às bruxas do sul, com a música que ainda toca em nossas cabeças: ease on down... ease on down the roaaaad.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
A Cicatriz de Mione
Ocorreu em janeiro de 2007. O famigerado V, de quem não ousamos escrever o nome, utilizou-se de cruéis artimanhas para atacar uma pequena feiticeira, filha de trouxas, que mora no bairro de Botafogo em terras cariocas. A fim de protegê-la, não a chamaremos aqui pelo seu nome de batismo cristão. Na época, Mione tinha apenas um ano e sete meses e mal havia iniciado sua educação em creche muito especial, simpática à cúpula de Hogwarts. Caminhava ainda sem firmeza, balançando lateralmente, os pés cegos tateando o chão. Não se sabe exatamente se tropeçou, foi empurrada ou enfeitiçada. Sabe-se apenas que chorou muito quando o lado direto da testa encontrou a parede áspera com violência.
O galo que o pai encontrou quando chegou em casa era enorme. A testa arroxeada brilhava. Cercada de carinho, ela dormiu bem, mas no dia seguinte telefonaram da creche para avisar que ela tinha febre. A mãe foi buscá-la mais cedo; e, como o pediatra só estaria disponível no dia seguinte, levou-a ao pronto socorro, onde a menina foi medicada com analgésico. A noite foi longa, a febre não passou. Na manhã seguinte, no consultório, os dedos do médico não encontraram a esperada resistência na área machucada. Mione tinha um abscesso. As bactérias haviam se instalado ali através de uma pequena ferida causada pela aspereza da superfície da parede. Acredita-se que o aparente acaso tenha sido obra do famigerado.
Para evitar uma internação, doses cavalares de antibiótico foram ministradas. O roxo dava lugar ao vermelho na testa da criança e a vermelhidão se espalhava em direção aos olhos. Com o passar dos dias, o efeito do antibiótico era perceptível, porém lento. No fim de semana, um novo susto. Irritadiça, Mione se contorcia no carrinho durante um passeio ao shopping. Não se sabe se por descuido, por acúmulo de energia proveniente da irritação ou por intervenção maligna, o cinto que a prendia se soltou e ela caiu com a cara no chão. A preocupação era com a região molenga da testa, mas foram os lábios que incharam e os dentes que se coloriram de vermelho. Depois de alguma dificuldade para conseguir gelo numa lanchonete, o desespero levou os três ao hospital. Felizmente, o local crítico não tinha sido atingido, mas tudo indicava que uma drenagem seria mesmo necessária.
Ela aconteceu na segunda-feira à tarde, após nova visita ao pediatra. O pai, trouxa em mais de um sentido, não presenciou o sofrido procedimento por que Mione passou; ficou sabendo mais tarde, por telefone. À noite encontrou a pequena com a cabeça enfaixada. Solidários, pai e mãe também enfaixaram as cabeças. Uma foto com o pai é o único registro do fato, além da cicatriz quase imperceptível que os longos cabelos ajudam a esconder. Diferentemente da que foi desenhada na testa de Harry, ela sorri em forma de lua, como se estivesse desafiando o impronunciável, tirando onda mesmo.
O galo que o pai encontrou quando chegou em casa era enorme. A testa arroxeada brilhava. Cercada de carinho, ela dormiu bem, mas no dia seguinte telefonaram da creche para avisar que ela tinha febre. A mãe foi buscá-la mais cedo; e, como o pediatra só estaria disponível no dia seguinte, levou-a ao pronto socorro, onde a menina foi medicada com analgésico. A noite foi longa, a febre não passou. Na manhã seguinte, no consultório, os dedos do médico não encontraram a esperada resistência na área machucada. Mione tinha um abscesso. As bactérias haviam se instalado ali através de uma pequena ferida causada pela aspereza da superfície da parede. Acredita-se que o aparente acaso tenha sido obra do famigerado.
Para evitar uma internação, doses cavalares de antibiótico foram ministradas. O roxo dava lugar ao vermelho na testa da criança e a vermelhidão se espalhava em direção aos olhos. Com o passar dos dias, o efeito do antibiótico era perceptível, porém lento. No fim de semana, um novo susto. Irritadiça, Mione se contorcia no carrinho durante um passeio ao shopping. Não se sabe se por descuido, por acúmulo de energia proveniente da irritação ou por intervenção maligna, o cinto que a prendia se soltou e ela caiu com a cara no chão. A preocupação era com a região molenga da testa, mas foram os lábios que incharam e os dentes que se coloriram de vermelho. Depois de alguma dificuldade para conseguir gelo numa lanchonete, o desespero levou os três ao hospital. Felizmente, o local crítico não tinha sido atingido, mas tudo indicava que uma drenagem seria mesmo necessária.
Ela aconteceu na segunda-feira à tarde, após nova visita ao pediatra. O pai, trouxa em mais de um sentido, não presenciou o sofrido procedimento por que Mione passou; ficou sabendo mais tarde, por telefone. À noite encontrou a pequena com a cabeça enfaixada. Solidários, pai e mãe também enfaixaram as cabeças. Uma foto com o pai é o único registro do fato, além da cicatriz quase imperceptível que os longos cabelos ajudam a esconder. Diferentemente da que foi desenhada na testa de Harry, ela sorri em forma de lua, como se estivesse desafiando o impronunciável, tirando onda mesmo.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Intervalos de Verão
Toda serelepe, ela volta do quarto com a caneta e o caderninho. Quer ver o desenho que passa na tela. Deixa o caderno de lado, aberto, o nome dela escrito umas tantas vezes em meio aos rabiscos, inclusive tentativas corajosas com letra cursiva. Perde logo interesse pela TV e quer folhas de papel. Desenha. Com a tesoura, recorta, faz buraquinhos para os olhos e a boca. Depois pede aquela fita. O barbante? A mamãe dá os nós e o papai ganha a máscara. Faz muito calor e ela está só de calcinha. Sua tanto pelo bigodinho que pede para ligar o ar. Pai e mãe comemoram junto com ela. As portas vão se fechando e o friozinho vai tomando conta do ambiente. O verão é enquadrado pelo vidro da porta que dá para a varanda. Ela põe uma roupa, senta no sofá para ver um filme e papai vai para cozinha fazer o almoço. Lá não tem moleza, é quente e continua esquentando. Mamãe também não tem descanso: coloca as roupas no varal. O pai volta com os pratos feitos: peito de frango cortadinho, preparado com limão siciliano, e macarrão de arroz. A mãe desliga a televisão porque não é hora. Vejam só, quanta surpresa: a menina reclama; mas aceita a proposta do pai: música, que ela escolhe pela capa, em tons de rosa, e pelo som. O barulho das Chicas toca enquanto se come. O franguinho fica meio de lado, o macarrão some do prato e a pequena quer a licença. Fica mais um pouco, com o rosto virado para trás, desafiando. Vence quando a sobremesa vai ao sofá para ser dividida. É manga cortada em cubos, devorada em segundos. Barriga cheia, frio bom demais, e a borralheira quer ser princesa. A mãe traz o vestido de gala da Cinderela, faltando apenas o sapatinho de cristal. Descalça, ela dança a faixa que toca. São movimentos suaves para um rap. A saia gira e ela pede bis, mais uma e outra vez. Depois que entende de quem é o rap, ela passa a pedir pela música do amigo da creche, que é Silva também. Mas continua achando que o pai de família é porteiro, e não funkeiro. Quando as músicas acabam, ela desliga o som. Na tela, felizmente, não há nada melhor que a tesoura e os papéis, que se transformam desta vez em pezinhos com unhas pintadas de vermelho. Depois, mais barbante para amarrá-los sobre os pés verdadeiros. Do lado de fora, o céu azul é irresistível, até que as portas se abrem. O bafo implacável do verão coloca o vestido no cabide e expulsa os três de casa. Hora de sair, ver os amigos no fim de tarde. O trajeto é curto. A Lagoa é linda, e o ar do carro a deixa ainda mais linda. No banco de trás, com o caderninho no colo, ela registra tudo em letras sem fim – são palavras em forma de mola. Ela escreve o que ouviu dizer: domingo é dia de juntar as crianças, expor pequenas obras de arte, lambuzar-se de batom e lanchar com o dindão.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Sebastian Bar
Eram dois os bares com esse nome. A gincana cultural que frequentei por mais de um ano acontecia no bar da rua Teresa Guimarães, em Botafogo, todas as quintas à noite. Tudo começou com um convite de um grande amigo logo depois do Carnaval. Era um ano complicado, que trazia todas as atribulações do fim de uma faculdade: a falta de tempo com o estágio, a correria do projeto final e a ansiedade relativa ao futuro profissional. Missão Impossível era o nome do jogo, embora tudo mais também merecesse esse nome. A música da série, depois atualizada com a estreia do filme, anunciava o início dos trabalhos: quatro rodadas das mais diversas perguntas, caipirinhas para mesa vencedora a cada rodada e (bons) prêmios no final para as três equipes com a maior pontuação. Momento de relaxar, passar horas brincado de sabe-tudo, desafiar o pouco tempo que sobrava e chegar em casa depois de uma hora da manhã, para acordar dali a cinco outras horas.
A minha equipe teve vários nomes – Mandrake e, sobretudo, LOUCA foram os que mais duraram. O último dos nomes era uma sigla, que revelava Lunáticos Observando Urubus Comendo Alface. Coisa louca mesmo, porém, era o tanto que tinha para acontecer naquele ano. Na mesa ao lado, pouco tempo depois da minha estreia, amigos da faculdade formaram outro time. Se para mim, Copacabana era uma vantagem; para eles, importava pouco se morassem em Laranjeiras ou Vista Alegre. Às vezes, imaginava que pudéssemos dividir a mesma mesa, mas isso já era o que fazíamos todos os dias nos trailers do Fundão, onde jogávamos também... muita conversa fora, com os mesmos objetivos desestressantes. Outra que carreguei para as noitadas de jogatina foi minha irmã blogueira, personagem frequente dos meus devaneios nostálgicos e quase vizinha de porta do bar.
Na primeira noite, a mesa estava cheia, com rostos bem conhecidos. Foi divertido, resolvi repetir. Na segunda noite, éramos apenas cinco pessoas defendendo a equipe Mandrake: eu, meu amigo e a namorada, a vizinha dele e sua amiga. Numa rápida pesquisa no calendário de 1996, é fácil descobrir a data: 7 de março. É interessante perceber que momentos importantes passam assim despercebidos. Talvez, porque eu estivesse ao lado dos amigos de sempre, que formavam o único casal da equipe naquela noite. E o que torna aquele dia tão relevante é que, há quase quinze anos, pela primeira vez, eu estava também ao lado do meu futuro: minha esposa e a madrinha da minha filha.
A minha equipe teve vários nomes – Mandrake e, sobretudo, LOUCA foram os que mais duraram. O último dos nomes era uma sigla, que revelava Lunáticos Observando Urubus Comendo Alface. Coisa louca mesmo, porém, era o tanto que tinha para acontecer naquele ano. Na mesa ao lado, pouco tempo depois da minha estreia, amigos da faculdade formaram outro time. Se para mim, Copacabana era uma vantagem; para eles, importava pouco se morassem em Laranjeiras ou Vista Alegre. Às vezes, imaginava que pudéssemos dividir a mesma mesa, mas isso já era o que fazíamos todos os dias nos trailers do Fundão, onde jogávamos também... muita conversa fora, com os mesmos objetivos desestressantes. Outra que carreguei para as noitadas de jogatina foi minha irmã blogueira, personagem frequente dos meus devaneios nostálgicos e quase vizinha de porta do bar.
Na primeira noite, a mesa estava cheia, com rostos bem conhecidos. Foi divertido, resolvi repetir. Na segunda noite, éramos apenas cinco pessoas defendendo a equipe Mandrake: eu, meu amigo e a namorada, a vizinha dele e sua amiga. Numa rápida pesquisa no calendário de 1996, é fácil descobrir a data: 7 de março. É interessante perceber que momentos importantes passam assim despercebidos. Talvez, porque eu estivesse ao lado dos amigos de sempre, que formavam o único casal da equipe naquela noite. E o que torna aquele dia tão relevante é que, há quase quinze anos, pela primeira vez, eu estava também ao lado do meu futuro: minha esposa e a madrinha da minha filha.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
O Último Degrau
Para refazer o caminho da escola, fui para a casa de meus pais bem cedo. Optei pelo transporte menos frequente e mais marcante. Às 6h30, eu e meu irmão – pequeno ainda, menor do que minha filha é hoje – entramos no ônibus. A rádio tocava Eduardo e Mônica, e seu Zé, o motorista, estava visivelmente irritado por causa de alguma balbúrdia na parte de trás. Mas logo abriu um sorriso pra nos desejar um bom dia. Quando chegamos à escola, respirei fundo e, diante do muro amarelo, disse a mim mesmo que saudade tem cura – devemos apenas ter coragem para cometer um crime: matá-la. Subimos a rampa de mãos dadas, até ele encontrar todas as outras crianças vestidas com jardineiras azuis, deles, ou amarelas, delas.
Sozinho, entrei pela porta da frente da casa, olhei de soslaio para a secretaria, e também assim, como quem não quer nada, Dona Dulce apenas levantou os olhos para me cumprimentar. Ali eu me reencontrei com o jardim de infância, que tinha o carinhoso nome de Nenequita. O piso cor de telha dos degraus da escada me levou ao andar de cima da casa, onde ficavam as salas de aula das crianças. Passando pelos banheiros e pelo pátio coberto, alcancei as salas dos fundos, onde aprendemos a ler e escrever, onde nasceram amizades que ainda permanecem.
A casa virou prédio com a gente. Subimos juntos e fizemos parte da segunda turma a levar o Nenequita à Escola Degrau. Passamos da tarde para manhã ocupando, a cada novo ano, uma das quatro salas do andar de cima, onde às 7h começavam as aulas e, ver por outra, o mesmo sermão. Olhei o relógio e, sem dar bola para o inspetor MacGyver, subi as escadas correndo para ver se chegava a tempo. O colégio não era religioso, mas ensinava o catolicismo para quem não se recusasse. Quem professava os discursos era Dona Célia. Por um breve instante, vi minhas pernas encolherem, os círculos se encontrarem no meu peito e uma cruz vestir a interseção. E lá estava ela, dando a bronca da manhã para acordar os alunos e contar todas aquelas histórias de seu tempo de juventude.
Na hora do recreio, quando cheguei ao pátio que ficava no último andar, dei de cara com a minha mãe. Qual é? Você aqui também? Estávamos quase nos formando na 8ª série e deixando a escola. Ela foi convidada a trabalhar lá para nos vigiar, eu e minha irmã (a brincadeira é irresistível). Ficamos apenas seis meses juntos – a minha segunda casa passou a ser a da minha mãe. E, de lá, eu e meus amigos fomos para o mundo, com a companhia do Santo Agostinho, da Princesa Isabel, do sagrado coração de Maria...
Bem mais novo, anos depois, o meu irmão viveu a aventura do 2º grau, apertado num espaço físico que não podia mais crescer. Nessa época, ainda sem rumo depois da faculdade, deram-me a chance de ser professor de trigonometria e, durante um ano, respirei aquele ar de saudades agudas e tangentes suaves.
O tempo passou.
Tia Célia se foi. O Coronel também.
Há algum tempo, Mariinha, a filha deles, cuja imagem também se confunde com a da escola, não comanda mais a casa. Vinte e dois anos depois de nossa formatura, os passos de minha mãe e outros professores antigos seguem novos caminhos. Assim parece que chegamos ao último degrau. Sentado no pátio com a lancheira aberta, comendo um sanduíche de queijo e tomando suco de caju com lágrimas, ouvi pela última vez as nossas risadas em meio à gritaria.
Seguidas por um severo pedido de silêncio.
Sozinho, entrei pela porta da frente da casa, olhei de soslaio para a secretaria, e também assim, como quem não quer nada, Dona Dulce apenas levantou os olhos para me cumprimentar. Ali eu me reencontrei com o jardim de infância, que tinha o carinhoso nome de Nenequita. O piso cor de telha dos degraus da escada me levou ao andar de cima da casa, onde ficavam as salas de aula das crianças. Passando pelos banheiros e pelo pátio coberto, alcancei as salas dos fundos, onde aprendemos a ler e escrever, onde nasceram amizades que ainda permanecem.
A casa virou prédio com a gente. Subimos juntos e fizemos parte da segunda turma a levar o Nenequita à Escola Degrau. Passamos da tarde para manhã ocupando, a cada novo ano, uma das quatro salas do andar de cima, onde às 7h começavam as aulas e, ver por outra, o mesmo sermão. Olhei o relógio e, sem dar bola para o inspetor MacGyver, subi as escadas correndo para ver se chegava a tempo. O colégio não era religioso, mas ensinava o catolicismo para quem não se recusasse. Quem professava os discursos era Dona Célia. Por um breve instante, vi minhas pernas encolherem, os círculos se encontrarem no meu peito e uma cruz vestir a interseção. E lá estava ela, dando a bronca da manhã para acordar os alunos e contar todas aquelas histórias de seu tempo de juventude.
Na hora do recreio, quando cheguei ao pátio que ficava no último andar, dei de cara com a minha mãe. Qual é? Você aqui também? Estávamos quase nos formando na 8ª série e deixando a escola. Ela foi convidada a trabalhar lá para nos vigiar, eu e minha irmã (a brincadeira é irresistível). Ficamos apenas seis meses juntos – a minha segunda casa passou a ser a da minha mãe. E, de lá, eu e meus amigos fomos para o mundo, com a companhia do Santo Agostinho, da Princesa Isabel, do sagrado coração de Maria...
Bem mais novo, anos depois, o meu irmão viveu a aventura do 2º grau, apertado num espaço físico que não podia mais crescer. Nessa época, ainda sem rumo depois da faculdade, deram-me a chance de ser professor de trigonometria e, durante um ano, respirei aquele ar de saudades agudas e tangentes suaves.
O tempo passou.
Tia Célia se foi. O Coronel também.
Há algum tempo, Mariinha, a filha deles, cuja imagem também se confunde com a da escola, não comanda mais a casa. Vinte e dois anos depois de nossa formatura, os passos de minha mãe e outros professores antigos seguem novos caminhos. Assim parece que chegamos ao último degrau. Sentado no pátio com a lancheira aberta, comendo um sanduíche de queijo e tomando suco de caju com lágrimas, ouvi pela última vez as nossas risadas em meio à gritaria.
Seguidas por um severo pedido de silêncio.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Círculos
Caminhamos por túneis estreitos há horas. Deixamos o último ônibus no Nível 7, quando Fausto já havia assumido a direção. Os passageiros, aquelas pessoas de olheiras profundas, não sobreviveram, tenho certeza. Ela tem um passo rápido, difícil de acompanhar. Eu a estou seguindo desde o Nível 4, quando nossos olhos se cruzaram no espelho do estojo de maquiagem que ela ainda guarda no bolso. Se é uma obsessão minha, ela parece não se importar. Passamos por diversos níveis sem trocar uma palavra. No máximo, novos olhares espelhados e alguns sorrisos. É tentação, ainda acho. Para mim, ela é Kátia Flávia, escondida aqui por motivos que desconheço, por ora. Pergunto pela primeira vez aonde vamos. Ela olha paro o lado e sorri. É sempre o mesmo meio sorriso, e eu ignoro o que acontece com a segunda metade dos lábios.
Chegamos a uma praça, ainda dentro de uma caverna, onde as luzes são débeis e o ar rarefeito. Ali vários túneis desembocam. Eu conto nove. Há um caminho de brita que a contorna e, no centro, bancos espalhados a esmo. Do lado oposto ao que chegam os túneis há uma porta. Ela se abre, um anão aparece, estica o braço para fazer o sinal que nos contém. Escolhemos um banco para sentar: virado para porta, junto ao caminho de brita. O anão ganha a companhia de uma mulher barbada. Eu estou no circo... Não seguro a gargalhada que Kátia reprova com o olhar. Enquanto tento me desculpar com a mulher, pessoas chegam pelos túneis; em sua maioria, crianças. A mulher pede que eu me afaste. Ela organiza uma fila. As crianças estão todas enlameadas, com as vestes rasgadas, com os olhares tristes. Assim que volto a me sentar, ouço latidos. Os cães chegam pelos mesmos túneis, também sujos de lama, cabisbaixos. Cada criança ganha um companheiro. Os adultos ficam no fim da fila e fazem companhia uns aos outros.
Kátia volta a sorrir e me dá o prazer de sua voz: Eles são todos inocentes. E daí? Vamos para o céu. Desta vez, nossos olhares se encontram sem desvios. Eu vejo o sorriso inteiro e acabo sorrindo também. Enquanto a fila caminha em direção à porta, eu desenho com o dedo na brita. Apago com o pé quando o anão nos chama.
A porta dá para um corredor comprido que tem luzes no chão. Há assentos de um lado e de outro. Demoro a entender que entramos em um avião onde se aceita que os cães se misturem às pessoas. Ali eles recebem coleiras e nomes. Sentamos lado a lado nos lugares que restam. Kátia me pergunta o que levo comigo. Eu ainda guardo uma das canetas que comprei no Nível 1. O que você quer fazer agora? Dormir. E depois? Tudo o que ainda não fiz. Kátia insiste, quer saber o que eu deixei de fazer. Eu quero escrever uma história. Nossa conversa é interrompida quando a decolagem é autorizada. O comandante dá boas vindas, e eu reconheço a voz do anão. Em seguida, é a mulher barbada que traz o serviço de bordo, inclusive para os cães. Lá fora, é sempre noite. Estamos no céu, mas eu tenho a nítida sensação de que voamos em círculos.
Para retomar a conversa, é minha vez de perguntar o que ela quer fazer. Ela diz que também quer dormir. Depois, pretende chegar a algum lugar. Eu pergunto se posso ir com ela. Ela sorri. Leve sua caneta, encontraremos papel. Qual o seu nome, afinal? É Esperança, Amarante.
Chegamos a uma praça, ainda dentro de uma caverna, onde as luzes são débeis e o ar rarefeito. Ali vários túneis desembocam. Eu conto nove. Há um caminho de brita que a contorna e, no centro, bancos espalhados a esmo. Do lado oposto ao que chegam os túneis há uma porta. Ela se abre, um anão aparece, estica o braço para fazer o sinal que nos contém. Escolhemos um banco para sentar: virado para porta, junto ao caminho de brita. O anão ganha a companhia de uma mulher barbada. Eu estou no circo... Não seguro a gargalhada que Kátia reprova com o olhar. Enquanto tento me desculpar com a mulher, pessoas chegam pelos túneis; em sua maioria, crianças. A mulher pede que eu me afaste. Ela organiza uma fila. As crianças estão todas enlameadas, com as vestes rasgadas, com os olhares tristes. Assim que volto a me sentar, ouço latidos. Os cães chegam pelos mesmos túneis, também sujos de lama, cabisbaixos. Cada criança ganha um companheiro. Os adultos ficam no fim da fila e fazem companhia uns aos outros.
Kátia volta a sorrir e me dá o prazer de sua voz: Eles são todos inocentes. E daí? Vamos para o céu. Desta vez, nossos olhares se encontram sem desvios. Eu vejo o sorriso inteiro e acabo sorrindo também. Enquanto a fila caminha em direção à porta, eu desenho com o dedo na brita. Apago com o pé quando o anão nos chama.
A porta dá para um corredor comprido que tem luzes no chão. Há assentos de um lado e de outro. Demoro a entender que entramos em um avião onde se aceita que os cães se misturem às pessoas. Ali eles recebem coleiras e nomes. Sentamos lado a lado nos lugares que restam. Kátia me pergunta o que levo comigo. Eu ainda guardo uma das canetas que comprei no Nível 1. O que você quer fazer agora? Dormir. E depois? Tudo o que ainda não fiz. Kátia insiste, quer saber o que eu deixei de fazer. Eu quero escrever uma história. Nossa conversa é interrompida quando a decolagem é autorizada. O comandante dá boas vindas, e eu reconheço a voz do anão. Em seguida, é a mulher barbada que traz o serviço de bordo, inclusive para os cães. Lá fora, é sempre noite. Estamos no céu, mas eu tenho a nítida sensação de que voamos em círculos.
Para retomar a conversa, é minha vez de perguntar o que ela quer fazer. Ela diz que também quer dormir. Depois, pretende chegar a algum lugar. Eu pergunto se posso ir com ela. Ela sorri. Leve sua caneta, encontraremos papel. Qual o seu nome, afinal? É Esperança, Amarante.
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