Ficamos ali, sentados, cerca de vinte minutos. Um banco qualquer nos jardins da Villa Borghese, uma dor de cabeça que era enxaqueca. Fazia o tempo de sempre – céu nublado, um sol tímido se alternando com alguma garoa. Enquanto eu me distraía com a habilidade dos motoristas de ônibus, que estacionavam de ré na ladeira, ela desistia. Aquele passeio ficaria para outras férias, ou nenhuma.
Ela insistiu, e nós nos despedimos na estação Ré di Roma, de onde voltaria sozinha para o hotel. A partir dali, segui em minha primeira aventura solitária em terras estrangeiras. Experiência começou depois que deixei o metrô algumas estações adiante, em Piramide, subi as escadas e esbarrei com a habitual falta de informações. Como só havia um trem na estação San Paolo, resolvi me aproximar. Ostia Antica? O condutor acenou com a cabeça, e eu entrei.
Para passar o tempo, observava as pessoas, buscava personagens. Só me chamou a atenção o grupo de adolescentes que se amontoavam nos bancos, as meninas sentadas no colo de seus namorados, muitos sorrisos e pouco falatório. Era sábado, deduzi assim que iam para as praias e que eu saltaria antes deles. Reflexo da ansiedade, da falta de ter com quem conversar, eu contava as estações restantes a cada parada, queria mesmo chegar logo ao meu destino.
O sol só apareceu quando cheguei ao parque arqueológico. Mas ventava muito, e era difícil manter aberto o folheto que comprei na bilheteria. Aquele mapa era suficiente – não queria uma aula de história. Aliás, quando viajo por aí, costumo dispensar explicações em demasia. Para mim, naquela cidade fantasma, bastava caminhar labirintos adentro, identificar as principais atrações numeradas no papel, tentar visualizar as imagens de uma época desconhecida, ou chegar ao porto e descobrir que o mar não passa mais ali.
Precisava registrar meus passos: tirei fotos de mim mesmo, até acertar, entre as ruínas e no teatro (contra o céu azul, para a lembrança ficar mais bonita).
Mais tarde, voltaram as nuvens e também a garoa. Em busca de abrigo, encontrei o museu e, depois, a lanchonete. Preferi comer apenas uma salada de frutas, para chegar com fome a Roma e caprichar no jantar. Mais de duas horas depois, voltei à estação de trem com um punhado de fotos para dividir e uma história a mais para escrever.
domingo, 14 de julho de 2013
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Ciúmes
Eram duas bolas tricolores. Era assim para evitar o ciúme entre irmãos. E o palco era a Lagoa Rodrigo de Freitas, de um memorável Fla x Flu. Ali, jogamos nossa primeira partida de futebol. Segundo as contas do meu afilhado, ele venceu por tantos gols quantas bolas foram parar na água naquele jogo de mais de setenta anos. Pedro vestia outro presente: uma camisa grená com o escudo branco e os dizeres óbvios – Eu sou tricolor. Meu pai diria que a partida tinha sido um jogo de titulares contra aspirantes do mesmo Fluminense.
Enquanto isso, Alice se divertia com as mães.
Pedro acabou deixando o irmão menor e as bolas tricolores, veio conosco para casa, e naquele dia brinquei de ser pai de menino. Na TV escolhemos desenhos de super-heróis. Sem largar o boneco do Hulk que havia trazido, me apresentou a versão troncudinha e diminuta de alguns vingadores em programas de vinte minutos, passados um atrás do outro. Quando ele desistiu dos filmes para simular brigas entre seus bonecos, criamos um novo herói: o Hulk perdeu a cabeça, ficou só pescoço e se transformou no Cara de Galinha.
Enquanto isso, Alice se distraía sozinha.
Depois, voltamos ao futebol e chamamos Alice para brincar. A mesa de botão saiu de trás do armário e foi para o chão. Pedro quis os tricolores. Alice também. Ele não sabia ainda como pegar na palheta. Ela quis mostrar que sabia. Um jogo de infantis contra os dente-de-leite, diria papai. Outro jogo em que o resultado era o que menos importava. Contudo, a cada vez que o dadinho encontrava a rede, Pedro me dirigia um olhar inquisidor antes de perguntar: foi gol?
Quando ele perdeu o interesse, Alice resolveu falar:
– Pai, agora é a minha vez. – O cenho franzido e os dedos apertados entre as mãos diziam tudo, mas ela precisava esclarecer – Você passou o dia inteiro brincando com o Pedro. Eu sou sua filha. Agora você vai brincar comigo.
Se Pedro se lembrará desse dia, não sei. Eu não vou me esquecer e espero repetir muitas vezes. Será mais fácil agora que seus pais estão voltando para o Rio depois de mais de oito anos de vida paulista.
Alice já esqueceu.
No dia seguinte, quando a convidei para sair, para comprarmos juntos um lanche gostoso, ela não deu bola, respondeu que estava cansada. E com dor no pé.
Enquanto isso, Alice se divertia com as mães.
Pedro acabou deixando o irmão menor e as bolas tricolores, veio conosco para casa, e naquele dia brinquei de ser pai de menino. Na TV escolhemos desenhos de super-heróis. Sem largar o boneco do Hulk que havia trazido, me apresentou a versão troncudinha e diminuta de alguns vingadores em programas de vinte minutos, passados um atrás do outro. Quando ele desistiu dos filmes para simular brigas entre seus bonecos, criamos um novo herói: o Hulk perdeu a cabeça, ficou só pescoço e se transformou no Cara de Galinha.
Enquanto isso, Alice se distraía sozinha.
Depois, voltamos ao futebol e chamamos Alice para brincar. A mesa de botão saiu de trás do armário e foi para o chão. Pedro quis os tricolores. Alice também. Ele não sabia ainda como pegar na palheta. Ela quis mostrar que sabia. Um jogo de infantis contra os dente-de-leite, diria papai. Outro jogo em que o resultado era o que menos importava. Contudo, a cada vez que o dadinho encontrava a rede, Pedro me dirigia um olhar inquisidor antes de perguntar: foi gol?
Quando ele perdeu o interesse, Alice resolveu falar:
– Pai, agora é a minha vez. – O cenho franzido e os dedos apertados entre as mãos diziam tudo, mas ela precisava esclarecer – Você passou o dia inteiro brincando com o Pedro. Eu sou sua filha. Agora você vai brincar comigo.
Se Pedro se lembrará desse dia, não sei. Eu não vou me esquecer e espero repetir muitas vezes. Será mais fácil agora que seus pais estão voltando para o Rio depois de mais de oito anos de vida paulista.
Alice já esqueceu.
No dia seguinte, quando a convidei para sair, para comprarmos juntos um lanche gostoso, ela não deu bola, respondeu que estava cansada. E com dor no pé.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Pedras, Pratos e Outros Bichos
Fiquei muito surpreso quando me disseram pela segunda vez em menos de uma semana que o rim é o órgão do medo. Estava de novo num consultório, mas aquela não era uma sessão de terapia.
Eu vestia apenas uma cueca amarela e um avental azul que, aberto na frente, não cobria grande coisa. Estava deitado, de barriga para cima, enquanto a médica apertava o aparelho gelado contra a minha bexiga e me fazia perguntas. À primeira delas, respondi que estava apertado, mas dava para aguentar. Ela apontou então para o monitor para mostrar a bexiga cheia e o fluxo da urina, sem obstáculos, em direção à uretra. Confirmou o que a ausência de dores já indicava: a pedra tinha sido expelida.
Quando voltei do banheiro, ela se concentrou nos rins e acabou encontrando outra pedra, também pequena e que ainda permanece quietinha no lado esquerdo. Veio então com a tal história da medicina chinesa e dos órgãos relacionados às emoções. Parecia curiosa sobre os meus medos. Era simpática, e eu não me importei de contar como tinha sido a minha última sessão de terapia.
Naquela sessão, expliquei, a imagem que se formou na minha mente foi a do equilibrista que precisa manter os pratinhos rodando. E as reflexões em torno da imagem me levaram ao maior dos meus medos: o fracasso. Concluímos que a queda de qualquer um dos pratos seria suficiente para caracterizar o meu insucesso. Por isso, para manter os pratinhos rodando, estou sempre atento, não costumo relaxar e agora produzo pedras.
Mais tarde, tentando aprofundar a questão, fiquei imaginando quais seriam os pratos do equilibrista e como eles apareceriam em sonho: os mais delicados, de muitos sabores, frutos do meu amor por uma mulher e uma menina; o mais pesado, de arroz, feijão, da responsabilidade profissional e financeira; o menos previsível de todos, da sopa de letrinhas e da espuma criativa. Pensei ainda em pratos sobre o quais não tenho qualquer controle, mas não saem da minha vista e ficam na borda da mesa – pratos com cheiro de infância.
Procurando diversão, lembrei-me de Hogwarts, das aulas do Professor Lupin, dos alunos enfrentando seus medos. Revi a imagem do equilibrista, vi os pratos caindo, pensei num feitiço. Ridículo!
Não menos ridículo foi o que me aconteceu dias depois. Eu quase esqueci a dor extrema que enfrentei com o cálculo renal quando tive que passar pela tortura insuportável da coceira causada por um bicho folgado, que desenha caminhos através de pequenos túneis sob a pele. Um bicho geográfico, que não faço a menor ideia de como tenha parado aqui no meu polegar; ou ali, deixando a marca de um raio, igual ao do Harry, no lado esquerdo da minha barriga, naquela curva simpática que costumam chamar de pneu.
Sei que agora, buscando ajuda da medicina tradicional ou chinesa, da feitiçaria britânica que seja, tenho que cuidar do óbvio: se o equilibrista cair, ficam as pedras, os bichos, mas talvez não sobrem os pratos que contam a minha história.
Eu vestia apenas uma cueca amarela e um avental azul que, aberto na frente, não cobria grande coisa. Estava deitado, de barriga para cima, enquanto a médica apertava o aparelho gelado contra a minha bexiga e me fazia perguntas. À primeira delas, respondi que estava apertado, mas dava para aguentar. Ela apontou então para o monitor para mostrar a bexiga cheia e o fluxo da urina, sem obstáculos, em direção à uretra. Confirmou o que a ausência de dores já indicava: a pedra tinha sido expelida.
Quando voltei do banheiro, ela se concentrou nos rins e acabou encontrando outra pedra, também pequena e que ainda permanece quietinha no lado esquerdo. Veio então com a tal história da medicina chinesa e dos órgãos relacionados às emoções. Parecia curiosa sobre os meus medos. Era simpática, e eu não me importei de contar como tinha sido a minha última sessão de terapia.
Naquela sessão, expliquei, a imagem que se formou na minha mente foi a do equilibrista que precisa manter os pratinhos rodando. E as reflexões em torno da imagem me levaram ao maior dos meus medos: o fracasso. Concluímos que a queda de qualquer um dos pratos seria suficiente para caracterizar o meu insucesso. Por isso, para manter os pratinhos rodando, estou sempre atento, não costumo relaxar e agora produzo pedras.
Mais tarde, tentando aprofundar a questão, fiquei imaginando quais seriam os pratos do equilibrista e como eles apareceriam em sonho: os mais delicados, de muitos sabores, frutos do meu amor por uma mulher e uma menina; o mais pesado, de arroz, feijão, da responsabilidade profissional e financeira; o menos previsível de todos, da sopa de letrinhas e da espuma criativa. Pensei ainda em pratos sobre o quais não tenho qualquer controle, mas não saem da minha vista e ficam na borda da mesa – pratos com cheiro de infância.
Procurando diversão, lembrei-me de Hogwarts, das aulas do Professor Lupin, dos alunos enfrentando seus medos. Revi a imagem do equilibrista, vi os pratos caindo, pensei num feitiço. Ridículo!
Não menos ridículo foi o que me aconteceu dias depois. Eu quase esqueci a dor extrema que enfrentei com o cálculo renal quando tive que passar pela tortura insuportável da coceira causada por um bicho folgado, que desenha caminhos através de pequenos túneis sob a pele. Um bicho geográfico, que não faço a menor ideia de como tenha parado aqui no meu polegar; ou ali, deixando a marca de um raio, igual ao do Harry, no lado esquerdo da minha barriga, naquela curva simpática que costumam chamar de pneu.
Sei que agora, buscando ajuda da medicina tradicional ou chinesa, da feitiçaria britânica que seja, tenho que cuidar do óbvio: se o equilibrista cair, ficam as pedras, os bichos, mas talvez não sobrem os pratos que contam a minha história.
domingo, 31 de março de 2013
Bonitinha
– Fica um pouco aqui? – Alice já estava deitada quando fez o pedido. E a luz do abajur iluminava metade do rosto dela.
– Tá bom – concordei enquanto colocava o cobertor por cima das pernas magrinhas.
– Papai, conta aquela história de quando vocês se conheceram?
– Eu e sua mãe? – Sabia que sim, então emendei assim que encostei a cabeça no travesseiro – A gente se conheceu num bar. Você sabe o que é um bar?
– Não.
– É um tipo de restaurante, que tem muita bebida e umas comidinhas para beliscar. Às vezes, tem música também.
– Sei – ela respondia sem se mexer, acho que pensando na próxima pergunta.
– Nesse bar tinha um jogo de perguntas – continuei. – O Luiz Sérgio, aquele amigo do papai, me convidou um dia. Você sabe quem ele é, não sabe?
– Sim.
– Então, sua mãe era vizinha dele, gostava de ir ao barzinho também. E a gente jogava no mesmo time. Aliás, no dia em que conheci sua mãe, conheci sua dindinha também. – Eu queria continuar, porém, naquele momento, Alice preferiu mudar de assunto. Parecia saber aonde queria chegar.
– Pai, agora conta aquela de quando a mamãe te falou que estava grávida?
– Conto. – Só parei para respirar. – Ela dava aulas de inglês, trabalhava até tarde, só chegava em casa depois das nove da noite. Sempre muito cansada, com o rosto quase triste.
– Triste?
– De cansaço, filha. Mas ela entrou em casa sorrindo naquele dia. Disse que tinha um presente pra mim.
– Era eu.
– Era – confirmei. – E ela falou que o presente estava embrulhado, mas eu só poderia abrir dali a nove meses. Eu só entendi que ela estava grávida quando ela apontou para o umbigo, assim... – depois de me acomodar sobre o cobertor, levantei a camisa para repetir o gesto da Nane.
– Eu já sei o que você falou! – foi assim, de repente, que a agitação tomou conta dela – Você disse pra ela que estava feliz, muito feliz, que sempre quis ter uma filha. – Alice se virou para me abraçar.
– Fiquei muito feliz, mas eu não sabia ainda que era uma menina – afirmei, achando graça da frase que ela criou para a situação. Àquela altura, estávamos deitados de lado, olhos nos olhos.
– Como foi quando você soube que era eu?
– Sua a mãe foi fazer um exame que dá para ver as formas do bebê na televisão. A imagem é escura, e só os médicos sabem dizer quais as partes do corpo a gente está vendo. – Às vezes, é difícil explicar as coisas. No entanto, segui em frente – A médica mostrou sua cabeça, suas mãozinhas. Dava até para ver os dedinhos. Depois a gente ficou torcendo para você não fechar as pernas, para saber logo se era um menino levado ou uma mocinha sapeca.
– E você queria uma menina, né?
– Muito. Quando a médica falou, fiquei tão emocionado que até chorei.
– Ah! Que bonitinho. – Ganhei outro abraço e um carinho na cabeça.
– Tá bom – concordei enquanto colocava o cobertor por cima das pernas magrinhas.
– Papai, conta aquela história de quando vocês se conheceram?
– Eu e sua mãe? – Sabia que sim, então emendei assim que encostei a cabeça no travesseiro – A gente se conheceu num bar. Você sabe o que é um bar?
– Não.
– É um tipo de restaurante, que tem muita bebida e umas comidinhas para beliscar. Às vezes, tem música também.
– Sei – ela respondia sem se mexer, acho que pensando na próxima pergunta.
– Nesse bar tinha um jogo de perguntas – continuei. – O Luiz Sérgio, aquele amigo do papai, me convidou um dia. Você sabe quem ele é, não sabe?
– Sim.
– Então, sua mãe era vizinha dele, gostava de ir ao barzinho também. E a gente jogava no mesmo time. Aliás, no dia em que conheci sua mãe, conheci sua dindinha também. – Eu queria continuar, porém, naquele momento, Alice preferiu mudar de assunto. Parecia saber aonde queria chegar.
– Pai, agora conta aquela de quando a mamãe te falou que estava grávida?
– Conto. – Só parei para respirar. – Ela dava aulas de inglês, trabalhava até tarde, só chegava em casa depois das nove da noite. Sempre muito cansada, com o rosto quase triste.
– Triste?
– De cansaço, filha. Mas ela entrou em casa sorrindo naquele dia. Disse que tinha um presente pra mim.
– Era eu.
– Era – confirmei. – E ela falou que o presente estava embrulhado, mas eu só poderia abrir dali a nove meses. Eu só entendi que ela estava grávida quando ela apontou para o umbigo, assim... – depois de me acomodar sobre o cobertor, levantei a camisa para repetir o gesto da Nane.
– Eu já sei o que você falou! – foi assim, de repente, que a agitação tomou conta dela – Você disse pra ela que estava feliz, muito feliz, que sempre quis ter uma filha. – Alice se virou para me abraçar.
– Fiquei muito feliz, mas eu não sabia ainda que era uma menina – afirmei, achando graça da frase que ela criou para a situação. Àquela altura, estávamos deitados de lado, olhos nos olhos.
– Como foi quando você soube que era eu?
– Sua a mãe foi fazer um exame que dá para ver as formas do bebê na televisão. A imagem é escura, e só os médicos sabem dizer quais as partes do corpo a gente está vendo. – Às vezes, é difícil explicar as coisas. No entanto, segui em frente – A médica mostrou sua cabeça, suas mãozinhas. Dava até para ver os dedinhos. Depois a gente ficou torcendo para você não fechar as pernas, para saber logo se era um menino levado ou uma mocinha sapeca.
– E você queria uma menina, né?
– Muito. Quando a médica falou, fiquei tão emocionado que até chorei.
– Ah! Que bonitinho. – Ganhei outro abraço e um carinho na cabeça.
domingo, 17 de março de 2013
Um Perfil Curioso
Manoel de Barros diz que poesia não é para compreender, mas para incorporar. O conceito vale para arte de forma geral. É coisa íntima, às vezes inexplicável. Por isso, sou capaz de juntar na minha lista de preferências livros tão diferentes quanto Sagarana de Guimarães Rosa e A Peste de Camus. Ou filmes, como A Outra História Americana, de Tony Kaye, que tem uma fantástica atuação de Edward Norton, e Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera, de Ki-duk Kim.
Os livros citados foram lidos na adolescência, junto com os tantos de espionagem que eu adorava e aqueles da série Vagalume que marcaram a minha geração. Com Sagarana, descobri prazer numa leitura mais lenta, aprendi a valorizar a linguagem e a arte do texto. A Peste me fez pensar como nunca, e acabei envolvido pelas questões do Doutor Rieux e do Padre Paneloux. O livro de Camus, aliás, é um dos raros que li duas vezes, em tempos diferentes, mas com emoções parecidas.
Nos tempos de estudante de engenharia, e mesmo nos primeiros anos de formado, muito dedicado aos estudos e ao trabalho, foi mais fácil optar pelos filmes e também pelos contos. Naquela época, em que li toda a coleção Mar de Histórias e misturava Mia Couto com Raymond Carver (um dos poucos que me fez chorar), assisti ao filme de Tony Kaye. A violência que fazia algumas pessoas abandonar o cinema não tirou minha vontade de aplaudi-lo de pé. Mesma sensação de deslumbre que tive em casa com o filme coreano.
Em meio às coletâneas de contos, ainda antes de minha filha nascer, voltei a buscar leituras mais longas: Crônica de uma Morte Anunciada, de García Marquez, me trouxe de volta a vontade de escrever; Memorial do Convento, de Saramago, a leitura de romances; e O Senhor dos Anéis, as madrugadas insones.
Nenhuma das preferências relacionadas até aqui, porém, falam tanto de mim quanto os livros que gostaria de ter escrito e os filmes que gostaria de ter feito. Tentando fazer uma lista deles, deparo-me com um perfil curioso: sou judeu e argentino. Amós Oz, Jonathan Safran Foer e sua mulher Nicole Krauss provocam em mim a urgência de mergulhar na história da minha família, especialmente a que está ligada às raízes católica e francesa. Por outro lado, é à maneira argentina dos filmes estrelados por Ricardo Darín que gostaria de construir meus diálogos e caracterizar relacionamentos.
Os livros citados foram lidos na adolescência, junto com os tantos de espionagem que eu adorava e aqueles da série Vagalume que marcaram a minha geração. Com Sagarana, descobri prazer numa leitura mais lenta, aprendi a valorizar a linguagem e a arte do texto. A Peste me fez pensar como nunca, e acabei envolvido pelas questões do Doutor Rieux e do Padre Paneloux. O livro de Camus, aliás, é um dos raros que li duas vezes, em tempos diferentes, mas com emoções parecidas.
Nos tempos de estudante de engenharia, e mesmo nos primeiros anos de formado, muito dedicado aos estudos e ao trabalho, foi mais fácil optar pelos filmes e também pelos contos. Naquela época, em que li toda a coleção Mar de Histórias e misturava Mia Couto com Raymond Carver (um dos poucos que me fez chorar), assisti ao filme de Tony Kaye. A violência que fazia algumas pessoas abandonar o cinema não tirou minha vontade de aplaudi-lo de pé. Mesma sensação de deslumbre que tive em casa com o filme coreano.
Em meio às coletâneas de contos, ainda antes de minha filha nascer, voltei a buscar leituras mais longas: Crônica de uma Morte Anunciada, de García Marquez, me trouxe de volta a vontade de escrever; Memorial do Convento, de Saramago, a leitura de romances; e O Senhor dos Anéis, as madrugadas insones.
Nenhuma das preferências relacionadas até aqui, porém, falam tanto de mim quanto os livros que gostaria de ter escrito e os filmes que gostaria de ter feito. Tentando fazer uma lista deles, deparo-me com um perfil curioso: sou judeu e argentino. Amós Oz, Jonathan Safran Foer e sua mulher Nicole Krauss provocam em mim a urgência de mergulhar na história da minha família, especialmente a que está ligada às raízes católica e francesa. Por outro lado, é à maneira argentina dos filmes estrelados por Ricardo Darín que gostaria de construir meus diálogos e caracterizar relacionamentos.
Pantera no Porão, de Oz, Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de
Foer, A História do Amor, de Krauss, e o filme Kamchatka têm em
comum o ponto de vista da criança curiosa que ainda sou.
Ela é protagonista ou narradora de quase tudo o que escrevo.
domingo, 3 de março de 2013
Abobrinhas
Na noite de domingo liguei a televisão para assistir ao Oscar sem ter visto qualquer um de seus principais concorrentes. Confesso que sinto muita falta de ir ao cinema, ou de alugar três ou quatro filmes para ver no fim de semana. Tenho saudades também de me arriscar no Festival do Rio. Enquanto Alice esteve na rotina comer-chorar-dormir, eu ainda conseguia ver os filmes quando eram lançados em DVD, alguns sem a companhia da Nane. Quando começaram as festinhas infantis, nem isso. Agora só vamos ao cinema com ela, ou seja, dos indicados para o prêmio em 2013 vimos apenas os candidatos a melhor animação Valente e Detona Ralph, o curta Paperman, além dos nossos heróis da Terra Média e também os Vingadores. Isso porque felizmente Alice não tem medo de Orcs e cresceu tanto que já suspira pelo Thor.
Um dos raros momentos que temos para colocar alguns desejos em dia é o carnaval. Entrincheirados em casa por causa dos blocos e do calor, este ano acabamos descobrindo que só Netflix pode nos salvar ou, pelo menos, diminuir o enorme atraso. Dentre outros, vi com Nane o lindo filme japonês A Partida, vencedor do Oscar em 2009 e com Alice, A Felicidade não se Compra, de Frank Capra, indicado em... Vamos ao que importa: apesar da temática adulta, do preto e do branco, ela prestou atenção até o fim, entendeu o que bastava.
Voltando ao domingo passado, antes da cerimônia de premiação começar eu me perguntava para quem iria torcer. Afinal, tinha que encontrar alguma motivação para perder algumas horas de sono no início da semana. Apesar de não ligar muito para musicais, pensei em vestir a camisa azul por Jean Valjean e todos os miseráveis franceses. Outra opção eram os bastardos inglórios de Tarantino – vou sempre torcer por eles, mesmo que o nome do filme seja outro. Perdido entre miseráveis e bastardos, cogitei ainda vibrar com um Oscar para Haneke, mas que não fosse o de filme estrangeiro: presente de meu pai, Kon Tiki foi um livro inesquecível que devorei há muitos anos. Para melhor ator, não consegui escolher, embora ache que Denzel Washington precisa ganhar mais alguns para compensar os que perdeu com Hurricane e Malcom X.
Um dos raros momentos que temos para colocar alguns desejos em dia é o carnaval. Entrincheirados em casa por causa dos blocos e do calor, este ano acabamos descobrindo que só Netflix pode nos salvar ou, pelo menos, diminuir o enorme atraso. Dentre outros, vi com Nane o lindo filme japonês A Partida, vencedor do Oscar em 2009 e com Alice, A Felicidade não se Compra, de Frank Capra, indicado em... Vamos ao que importa: apesar da temática adulta, do preto e do branco, ela prestou atenção até o fim, entendeu o que bastava.
Voltando ao domingo passado, antes da cerimônia de premiação começar eu me perguntava para quem iria torcer. Afinal, tinha que encontrar alguma motivação para perder algumas horas de sono no início da semana. Apesar de não ligar muito para musicais, pensei em vestir a camisa azul por Jean Valjean e todos os miseráveis franceses. Outra opção eram os bastardos inglórios de Tarantino – vou sempre torcer por eles, mesmo que o nome do filme seja outro. Perdido entre miseráveis e bastardos, cogitei ainda vibrar com um Oscar para Haneke, mas que não fosse o de filme estrangeiro: presente de meu pai, Kon Tiki foi um livro inesquecível que devorei há muitos anos. Para melhor ator, não consegui escolher, embora ache que Denzel Washington precisa ganhar mais alguns para compensar os que perdeu com Hurricane e Malcom X.
No fim das contas, estava mesmo precisando fazer um pouco de coisa nenhuma. Enquanto Alice dormia e Nane trabalhava, eu escrevia abobrinhas na Oscar Conference da minha amiga Aninha no Facebook. Não fossem os amigos (neste caso, as amigas do Bradley, que foram bastante compreensivas com a falta que Scarlett me fez), teria dormido muito antes do fim. O ano precisava recomeçar assim, às duas horas da manhã, sem pretensões. E o blog precisava de um texto mais leve para deixar para trás os momentos tristes e tensos de janeiro.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Pontos de Vista
A experiência da recente cirurgia por que Alice passou pode ser contada sob dois pontos de vista: o da ansiedade dos pais e o da coragem da filha. Como pretendo escrever um texto informativo, optei por seguir a primeira linha. Eram as nossas dúvidas permanentes que explicavam tanta ansiedade. Afinal, já convivíamos com o problema havia sete anos e nunca tivemos certeza de que estávamos lidando com ele da melhor forma possível.
Foram médicos diferentes, por exemplo, que fizeram as sondagens no canal lacrimal do olho direito já que as massagens não faziam efeito. Na primeira, Alice tinha apenas sete meses. A segunda sondagem foi realizada seis meses depois, durou mais tempo que a primeira e exigiu uma sedação mais pesada. Como os procedimentos não tiveram sucesso, aprendemos a conviver com lenços de papel, chumaços de algodão molhados com soro e colírios para os momentos de infecção. Tobrex foi o primeiro deles.
Acontecia o seguinte... Como havia alguma obstrução no canal, as lágrimas não escoavam em direção ao nariz. O líquido acumulado perto do olho provocava um lacrimejar constante e tornava o local suscetível às infecções. Quando estas ocorriam, as lágrimas ficavam cada vez mais espessas até ganhar uma coloração amarelada. Às vezes, Alice acordava com os cílios grudados e o olho fechado. E, se a infecção se agravava, a olheira chegava a ficar avermelhada. No entanto, o uso de colírios sempre resolveu (já usávamos o Biamotil) e nunca tivemos que enfrentar algo pior.
Não deixamos, porém, de procurar oftalmologistas, especialistas ou não, dentro ou fora dos planos de saúde. Alguns deles, menos sensíveis, chegaram a nos assustar com as descrições da solução cirúrgica, que envolveria quebrar o osso do nariz, e associações entre o uso frequente de colírios e o risco de glaucoma. Outros nos indicaram um procedimento chamado dacriocistografia, que consiste basicamente de um exame feito com contraste para identificar o local e a extensão da obstrução. Como exigia sedação, foi difícil encontrar uma clínica que fizesse. Acabamos deixando essa ideia de lado.
Passamos ainda por uma inusitada entrevista em que o doutor, quase aposentado, muito desinteressado, sequer olhou para a criança que acabara de completar 5 anos. Felizmente, pouco tempo depois, o pediatra da Alice nos indicou o Dr. Carlos, que nos deu esperança de que ela pudesse escapar da cirurgia e nos reensinou a massagem. Voltamos também ao Tobrex. E, de fato, durante os 9 meses seguintes, a frequência das infecções diminuiu bastante, contudo, somente até o inverno chegar com os resfriados, o nariz entupido e as secreções.
Em dezembro passado, voltamos ao Dr. Carlos. Ele futucou o canal lacrimal com uma seringa enorme e, com outra, injetou uma quantidade considerável de soro, mas Alice não sentiu o líquido descer pela garganta. Levando em conta todo o histórico, acabou dando o braço a torcer. Para fazer a cirurgia, indicou um antigo professor que, por sua vez, nos fez chegar ao Dr. Leonardo. E todos acharam o exame com contraste dispensável.
A decisão foi tomada rapidamente porque precisávamos aproveitar o período de férias e dar tempo para Alice se recuperar antes do início das aulas na nova escola. Sofremos com os procedimentos burocráticos, principalmente do plano de saúde, que vimos agravados pelo fato de que a equipe médica não era cooperada. Chegamos inclusive a assinar um absurdo termo de ciência, onde nos responsabilizávamos pelos honorários e por quaisquer problemas resultantes da cirurgia. Era condição para a autorização.
Alice foi operada às 19 horas do dia 22 de janeiro na Clínica Pediátrica do Centro Médico da Barra. A nossa espera angustiante no quarto durou cerca de 2 horas e a dacriocistorrinostomia, cerca de 50 minutos. Quando retornou, Alice chorava e tremia muito. Era efeito da sedação. Recebeu alta na mesma noite e, assim, às 23h30 já estávamos em casa. Só reclamou de alguma dor na mesma noite e na manhã seguinte. Com três pontos no contorno da olheira arroxeada, foi inevitável a identificação com a Frankie Stein, boneca da coleção Monster High. Isso resolveu em parte o problema da vaidade e da vergonha de sair de casa.
Ela tirou os pontos uma semana depois. Permanece com um tubinho de silicone quase imperceptível dentro do novo canal lacrimal e que deve ser retirado dentro de um mês. O tubo dá forma ao canal e evita que ele se feche com a cicatrização. Não há garantia que a solução funcione para sempre. No entanto, se tiver que repetir o procedimento, o caminho através do osso do nariz já está feito.
Agora não há quem pergunte se ela chorou ou por que estava chorando. Não há remela para espantar ninguém. Alice não sofre mais com a nossa intromissão insistente para a limpeza do olho, nem usa colírios. Está muito feliz; e nós, pais, bastante aliviados.
Foram médicos diferentes, por exemplo, que fizeram as sondagens no canal lacrimal do olho direito já que as massagens não faziam efeito. Na primeira, Alice tinha apenas sete meses. A segunda sondagem foi realizada seis meses depois, durou mais tempo que a primeira e exigiu uma sedação mais pesada. Como os procedimentos não tiveram sucesso, aprendemos a conviver com lenços de papel, chumaços de algodão molhados com soro e colírios para os momentos de infecção. Tobrex foi o primeiro deles.
Acontecia o seguinte... Como havia alguma obstrução no canal, as lágrimas não escoavam em direção ao nariz. O líquido acumulado perto do olho provocava um lacrimejar constante e tornava o local suscetível às infecções. Quando estas ocorriam, as lágrimas ficavam cada vez mais espessas até ganhar uma coloração amarelada. Às vezes, Alice acordava com os cílios grudados e o olho fechado. E, se a infecção se agravava, a olheira chegava a ficar avermelhada. No entanto, o uso de colírios sempre resolveu (já usávamos o Biamotil) e nunca tivemos que enfrentar algo pior.
Não deixamos, porém, de procurar oftalmologistas, especialistas ou não, dentro ou fora dos planos de saúde. Alguns deles, menos sensíveis, chegaram a nos assustar com as descrições da solução cirúrgica, que envolveria quebrar o osso do nariz, e associações entre o uso frequente de colírios e o risco de glaucoma. Outros nos indicaram um procedimento chamado dacriocistografia, que consiste basicamente de um exame feito com contraste para identificar o local e a extensão da obstrução. Como exigia sedação, foi difícil encontrar uma clínica que fizesse. Acabamos deixando essa ideia de lado.
Passamos ainda por uma inusitada entrevista em que o doutor, quase aposentado, muito desinteressado, sequer olhou para a criança que acabara de completar 5 anos. Felizmente, pouco tempo depois, o pediatra da Alice nos indicou o Dr. Carlos, que nos deu esperança de que ela pudesse escapar da cirurgia e nos reensinou a massagem. Voltamos também ao Tobrex. E, de fato, durante os 9 meses seguintes, a frequência das infecções diminuiu bastante, contudo, somente até o inverno chegar com os resfriados, o nariz entupido e as secreções.
Em dezembro passado, voltamos ao Dr. Carlos. Ele futucou o canal lacrimal com uma seringa enorme e, com outra, injetou uma quantidade considerável de soro, mas Alice não sentiu o líquido descer pela garganta. Levando em conta todo o histórico, acabou dando o braço a torcer. Para fazer a cirurgia, indicou um antigo professor que, por sua vez, nos fez chegar ao Dr. Leonardo. E todos acharam o exame com contraste dispensável.
A decisão foi tomada rapidamente porque precisávamos aproveitar o período de férias e dar tempo para Alice se recuperar antes do início das aulas na nova escola. Sofremos com os procedimentos burocráticos, principalmente do plano de saúde, que vimos agravados pelo fato de que a equipe médica não era cooperada. Chegamos inclusive a assinar um absurdo termo de ciência, onde nos responsabilizávamos pelos honorários e por quaisquer problemas resultantes da cirurgia. Era condição para a autorização.
Alice foi operada às 19 horas do dia 22 de janeiro na Clínica Pediátrica do Centro Médico da Barra. A nossa espera angustiante no quarto durou cerca de 2 horas e a dacriocistorrinostomia, cerca de 50 minutos. Quando retornou, Alice chorava e tremia muito. Era efeito da sedação. Recebeu alta na mesma noite e, assim, às 23h30 já estávamos em casa. Só reclamou de alguma dor na mesma noite e na manhã seguinte. Com três pontos no contorno da olheira arroxeada, foi inevitável a identificação com a Frankie Stein, boneca da coleção Monster High. Isso resolveu em parte o problema da vaidade e da vergonha de sair de casa.
Ela tirou os pontos uma semana depois. Permanece com um tubinho de silicone quase imperceptível dentro do novo canal lacrimal e que deve ser retirado dentro de um mês. O tubo dá forma ao canal e evita que ele se feche com a cicatrização. Não há garantia que a solução funcione para sempre. No entanto, se tiver que repetir o procedimento, o caminho através do osso do nariz já está feito.
Agora não há quem pergunte se ela chorou ou por que estava chorando. Não há remela para espantar ninguém. Alice não sofre mais com a nossa intromissão insistente para a limpeza do olho, nem usa colírios. Está muito feliz; e nós, pais, bastante aliviados.
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