domingo, 28 de outubro de 2012
Oficinas e Confissões
Desde o início de agosto estou frequentando uma oficina de romance. Para quem acompanha meu blog, pode parecer estranho: minhas publicações costumam ser concisas, crônicas em sua maior parte. Porém, tenho um rascunho de um livro que poucos leram. O texto é autobiográfico, foi construído durante outra oficina que fiz no ano passado. Quero agora descobrir se o que então escrevi é só um exercício de autoficção, uma experiência de autoconhecimento. Pode ser, ou não. A oficina de romance me ajudou a pensar no projeto. Até então eu tinha deixado a coisa fluir e, de fato, não tenho muito problema com a escrita criativa. As ideias vêm e colam no papel. O blog me ajuda muito com isso. O blog é o meu laboratório; por isso, não penso em publicar o que está lá. Depois do fim da oficina de autoficção, revisei o meu rascunho umas três vezes, investindo mais na coerência da história e no cuidado com a linguagem. Agora tento dar corpo à história, trabalhar os personagens, falar mais deles ou fazê-los falar. O caminho é muito longo porque o tempo é curto. E não bastam as brechas que tenho durante o dia. Essas só servem para o blog, para os devaneios diminutos. O que eu guardo comigo é algo maior, que exige algum sacrifício, compreensão de quem está ao meu lado. Faço contas também (os números não me largam): talvez seja um romance do tamanho de um conto, uma novela, algo indefinido. Mas isso é o que menos importa. O que vale é tentar, ainda que o tempo seja limitado pela própria oficina, que propõe a leitura de clássicos. Li a metade do primeiro livro de Dom Quixote em agosto e me diverti muito; mergulhei no crime de Raskolnikov no mês seguinte e não consegui largar; e agora sigo os passos de Josef K. em seu processo. Logo no início do curso eu me dei conta que li poucos romances e muitos contos dos autores clássicos, inclusive Kafka. Durante o segundo mês, tive certeza de que Dostoievski é essencial, obrigatório. E acabei demorando dois meses para recomeçar a escrever. Assim, tudo o que a professora Carola Saavedra leu até agora foi o que Ana Letícia Leal tinha lido um ano atrás, com algumas revisões, mas um esboço ainda. E não é só o tempo que limita meus passos. Há outra grande questão envolvendo o meu livro – gosto de tratá-lo assim, embora não saiba ainda onde pode chegar: é mais fácil, em um primeiro momento, escrever sobre personagens conhecidos, usando seus nomes verdadeiros e boa parte de suas características, de seus trejeitos. Entretanto, depois vem a dúvida, a culpa. Embora poucos tenham lido até agora, eu já escolhi expor a minha família. Por isso, pode ser, ou não, que seja apenas um exercício. De tolerância, com certeza: é uma oportunidade de me colocar no lugar de cada uma das pessoas que me importam tanto. Decidi que por enquanto vou em frente, vou enfrentar meus próprios pudores antes de recorrer à ficção, antes de trocar os nomes e revisar motivos se me parecer necessário. Daqui a alguns anos, quando você comprar o meu livro, é possível que leia uma história bem diferente da que tenho hoje, e que seja resultado de outra experiência, de ideias adormecidas. Porque eu quero que você leia um livro meu, voltei a investir no meu rascunho nos dois últimos fins de semana, trabalhei muito os capítulos iniciais. Mesmo que os detetives selvagens de Roberto Bolaño me absorvam no último mês, não vou deixar a oportunidade passar. Tenho que aproveitar o final do curso. É um compromisso. E agora você pode ser meu cúmplice ou fiscal, como preferir.
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
A Escolha da Vez
Nós nos sentamos na segunda fileira do auditório lotado.
Como a maioria, éramos três: pais e filha. E tudo era novidade: aquele espaço
enorme, aquela gente, o protocolo. Ali ouvimos o improviso da coordenadora, as
perguntas dos outros pais e as respostas dadas em nome da escola. Nada muito
diferente do primeiro encontro, semanas antes, sem as crianças. Por isso, até
começarem a chamá-las, por nome e sobrenome, deixamo-nos levar pelo tempo com
certa parcimônia.
Na vez dela, sentimos um aperto no coração, e os meus olhos
chegaram a marejar. Ela estava nervosa, claro; apertava o estojo com a mão,
mantinha o seu olhar conectado ao nosso. Premiada pela ordem alfabética, foi a
primeira de seu grupo, um dos três que formavam a turma de candidatos ao
segundo ano do ensino fundamental. Por isso, ganhou a companhia da professora
que puxava a fila e lhe ofereceu a mão. E, parecendo mais calma, partiu sozinha,
carregando nome, sobrenome e algo mais.
Embora a nossa decisão já estivesse tomada e não fosse ela
por aquela escola, investimos na experiência: as provas duraram a manhã
inteira. Um pequeno vestibular: antes do lanche, português; depois, matemática.
Enquanto ela se virava com as questões postas no papel, nós esperávamos
ansiosos no pátio, lembrando as primeiras conquistas, fazendo conjecturas sobre
o futuro, querendo muito acertar de novo. Como daquela vez, seis anos atrás,
quando escolhemos a Creche Palmo e Meio; como há um ano, quando insistimos que
lá mesmo ela fosse alfabetizada.
Passados dez dias daquela aventura por um mundo muito maior
do que aquele que ela conhece, estamos suficientemente seguros. Depois de
descartar alternativas, levar duas quase até o fim, vimos a nossa pequena
menina tirar de letra as avaliações, enfrentar a sua primeira relação
candidato-vaga e, quanto orgulho, conquistar sua maior vitória: o direito de
escolher. Entre uma escola e outra, ela nos confirmou que a vontade dela é
também a nossa. Agora, resta comemorar com ela o fim de uma etapa, agradecer a
todos que nos ajudaram, e aguardar o que vem por aí no ritmo que tem que ser: um
degrau de cada vez, um palmo atrás do outro.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
O Mistério de Cosme e Damião
Estávamos apenas os dois em casa no domingo. Mamãe viajava. Pegamos o ônibus de manhã para irmos à Primavera dos Livros. E ela reconheceu o caminho que fizemos de outra vez, para o meu trabalho, nas férias de julho. Assim que chegamos, perguntou qual era o nome daquele lugar, o Museu da República. Durante todo o dia, repetimos algumas vezes a palavra república para que ela não caísse no esquecimento. Ali, no Museu da República, Alice se divertiu atravessando as pequenas pontes sobre o lago, indo até as pedras, para ver a tartaruga mais de perto. Brincou também no parquinho e andou pelos estandes procurando por amigos. Encontramos Marcelo autografando seu Palladinum; e eu encontrei os livros que queria.
Voltamos de metrô e almoçamos no shopping das escadas rolantes. A comida portuguesa me fez acreditar que ela fosse escolher bacalhau, mas Alice preferiu frango. Recusou os doces, e eu fiquei babando. Pediu sorvete de sobremesa, de iogurte rosa e branco, com granulados coloridos e marshmallows. Ela me ofereceu diversas colheradas quando sentamos em um banco nos corredores do primeiro piso: É, pai, esquecemos de pegar outra colher. Partimos antes de terminarmos o pote; desta vez, caminhando.
Resolvemos entrar na Casa de Rui Barbosa. E ela fez algumas perguntas enquanto passeávamos pelo jardim. Quem era? Eu mostrei o busto logo na entrada. Mas o que ele fazia? Tentei não explicar muito: era uma pessoa importante, que seu bisavô conhecia, o bisavô que tinha o nome igual ao meu. E ele nasceu muito antes de você? E do vovô? Continuou, e depois ela quis entrar na casa, para ver o banheiro e os sofás que havia na sala. Eu disse que achava melhor deixar para depois, quando aprendesse sobre ele na escola, nas aulas de história. Ela entendeu e, ainda no jardim, trouxe o assunto dos irmãos. Aqueles que morreram. Um deles se chamava... o nome dele se parecia com Daniel. Eram gêmeos. Era o Damião.
Depois de deixar a casa, passamos pela Igreja de Santo Inácio e pela vila onde mamãe tinha morado quando criança, antes de chegar ao Museu do Índio. Até lá, rendeu muito a história de Cosme e seu irmão. A professora não tinha dito como eles tinham morrido, e Alice estava curiosa. Eu respondi somente que eles tinham sido mortos por homens muito maus. Não bastou: disse que podíamos perguntar para a vovó, ou procurar na Internet. Só esqueceu o assunto quando avistou os painéis pendurados na grade do museu.
Sobre os índios, mais perguntas, todas orientadas pelas fotografias que contornavam a casa. Como eles tomam banho? No rio. Eles não usam xampu? Não. O que comem? Peixe, que pescam no rio. E de sobremesa? Ela mesma respondeu: Fruta, né, pai? Não terminou aí. Ficou muito intrigada com o nome da exposição: Presença Invisível. Por que invisível, se eu estou vendo? O que é invisível aqui? O ambiente escuro das salas e o segurança, que caminhava de um lado para outro, aparecia e desaparecia, só vieram a aumentar o mistério. Ele é da polícia, não vai deixar eu mexer nos carimbos, né? Foi difícil convencer, mas ela saiu com os braços tatuados com as pinturas indígenas. Chegou assim na loja, para conhecer um índio de verdade. Ele perguntou do que ela mais tinha gostado no museu, depois mostrou os anéis e os colares de açaí.
Saímos de lá um pouco antes das quatro da tarde, ela com um anel no dedo. Em casa, voltou a perguntar sobre a morte de Cosme e Damião. Procurei na Internet, li que existem algumas versões, talvez tenham sido afogados, queimados, não se sabe. Ela não se satisfez: Depois pergunta pra vovó, tá? Mais uma vez, insistiu: Estou muito curiosa, pai.
Voltamos de metrô e almoçamos no shopping das escadas rolantes. A comida portuguesa me fez acreditar que ela fosse escolher bacalhau, mas Alice preferiu frango. Recusou os doces, e eu fiquei babando. Pediu sorvete de sobremesa, de iogurte rosa e branco, com granulados coloridos e marshmallows. Ela me ofereceu diversas colheradas quando sentamos em um banco nos corredores do primeiro piso: É, pai, esquecemos de pegar outra colher. Partimos antes de terminarmos o pote; desta vez, caminhando.
Resolvemos entrar na Casa de Rui Barbosa. E ela fez algumas perguntas enquanto passeávamos pelo jardim. Quem era? Eu mostrei o busto logo na entrada. Mas o que ele fazia? Tentei não explicar muito: era uma pessoa importante, que seu bisavô conhecia, o bisavô que tinha o nome igual ao meu. E ele nasceu muito antes de você? E do vovô? Continuou, e depois ela quis entrar na casa, para ver o banheiro e os sofás que havia na sala. Eu disse que achava melhor deixar para depois, quando aprendesse sobre ele na escola, nas aulas de história. Ela entendeu e, ainda no jardim, trouxe o assunto dos irmãos. Aqueles que morreram. Um deles se chamava... o nome dele se parecia com Daniel. Eram gêmeos. Era o Damião.
Depois de deixar a casa, passamos pela Igreja de Santo Inácio e pela vila onde mamãe tinha morado quando criança, antes de chegar ao Museu do Índio. Até lá, rendeu muito a história de Cosme e seu irmão. A professora não tinha dito como eles tinham morrido, e Alice estava curiosa. Eu respondi somente que eles tinham sido mortos por homens muito maus. Não bastou: disse que podíamos perguntar para a vovó, ou procurar na Internet. Só esqueceu o assunto quando avistou os painéis pendurados na grade do museu.
Sobre os índios, mais perguntas, todas orientadas pelas fotografias que contornavam a casa. Como eles tomam banho? No rio. Eles não usam xampu? Não. O que comem? Peixe, que pescam no rio. E de sobremesa? Ela mesma respondeu: Fruta, né, pai? Não terminou aí. Ficou muito intrigada com o nome da exposição: Presença Invisível. Por que invisível, se eu estou vendo? O que é invisível aqui? O ambiente escuro das salas e o segurança, que caminhava de um lado para outro, aparecia e desaparecia, só vieram a aumentar o mistério. Ele é da polícia, não vai deixar eu mexer nos carimbos, né? Foi difícil convencer, mas ela saiu com os braços tatuados com as pinturas indígenas. Chegou assim na loja, para conhecer um índio de verdade. Ele perguntou do que ela mais tinha gostado no museu, depois mostrou os anéis e os colares de açaí.
Saímos de lá um pouco antes das quatro da tarde, ela com um anel no dedo. Em casa, voltou a perguntar sobre a morte de Cosme e Damião. Procurei na Internet, li que existem algumas versões, talvez tenham sido afogados, queimados, não se sabe. Ela não se satisfez: Depois pergunta pra vovó, tá? Mais uma vez, insistiu: Estou muito curiosa, pai.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Outras Questões Essenciais
Dias depois, eram quase seis horas da tarde quando ela retomou a onda de perguntas sem fim. Eu não tinha voltado do trabalho e coube à Nane lidar com questões ainda mais cabeludas, que tiveram origem na lembrança das falecidas cachorrinhas da família, que moravam em Iguaba e, na verdade, Alice pouco via.
– Estou muito triste. Eu amava a Tula e a Princesa, sabe?... Mamãe, e a Fibi? Ela também vai morrer? – choramingou.
Fibi cresceu junto com Alice, mora com a titia, ainda late bastante, mas agora tem as barbas bem branquinhas. Nane respondeu o que ela já sabe, que todos nós vamos morrer um dia.
– Mas eu não quero que você morra, mãe! – disse e desatou a chorar.
Depois que se recuperou dos soluços e conseguiu se acalmar, continuou disparando:
– Deus está aqui? Ele é invisível? Está ouvindo a nossa conversa?
A cada resposta afirmativa, ela se animava. Às vezes, repetia as perguntas para ter certeza; outras vezes, dava voltas, antes de encontrar uma pergunta mais interessante:
– E eu posso conversar com Ele?
Nane disse que sim, que era só falar baixinho. Alice contou então que ia pedir a Deus que deixasse a mãe viver até os 190 anos. Eu também teria esse privilégio duvidoso.
Pensar nos pais bem velhinhos trouxe o assunto da morte de volta:
– Tipo: o que acontece quando a gente morre?
A curiosidade de Alice com cemitérios já vem de algum tempo e pode ter a ver também com a turma do Penadinho. Já estamos devendo inclusive uma visita ao São João Batista, que fica bem perto de casa. Por isso, foi mais fácil para Nane falar sobre o destino da matéria e não entrar nos detalhes do espírito e da fé. Ela respondeu que somos enterrados.
– O vovô está no cemitério, né?
– Sim, mas ele não está aqui perto. O vovô Ed está em São Paulo.
– Hum... E o Michael Jackson, ele está aqui?
E foi assim que terminou a segunda série de questões essenciais da Alice.
– Estou muito triste. Eu amava a Tula e a Princesa, sabe?... Mamãe, e a Fibi? Ela também vai morrer? – choramingou.
Fibi cresceu junto com Alice, mora com a titia, ainda late bastante, mas agora tem as barbas bem branquinhas. Nane respondeu o que ela já sabe, que todos nós vamos morrer um dia.
– Mas eu não quero que você morra, mãe! – disse e desatou a chorar.
Depois que se recuperou dos soluços e conseguiu se acalmar, continuou disparando:
– Deus está aqui? Ele é invisível? Está ouvindo a nossa conversa?
A cada resposta afirmativa, ela se animava. Às vezes, repetia as perguntas para ter certeza; outras vezes, dava voltas, antes de encontrar uma pergunta mais interessante:
– E eu posso conversar com Ele?
Nane disse que sim, que era só falar baixinho. Alice contou então que ia pedir a Deus que deixasse a mãe viver até os 190 anos. Eu também teria esse privilégio duvidoso.
Pensar nos pais bem velhinhos trouxe o assunto da morte de volta:
– Tipo: o que acontece quando a gente morre?
A curiosidade de Alice com cemitérios já vem de algum tempo e pode ter a ver também com a turma do Penadinho. Já estamos devendo inclusive uma visita ao São João Batista, que fica bem perto de casa. Por isso, foi mais fácil para Nane falar sobre o destino da matéria e não entrar nos detalhes do espírito e da fé. Ela respondeu que somos enterrados.
– O vovô está no cemitério, né?
– Sim, mas ele não está aqui perto. O vovô Ed está em São Paulo.
– Hum... E o Michael Jackson, ele está aqui?
E foi assim que terminou a segunda série de questões essenciais da Alice.
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Questões Essenciais
Eram quase onze horas e Alice ainda estava acordada. Resolvi deitar ao seu lado para tentar ajudar, perguntei o que estava acontecendo, por que não conseguia dormir, e ela desandou a perguntar:
– Antes... bem antes, tinha planeta? Como eles começaram, pai?
Falei dos cientistas, de pesquisas e da explosão que deu origem a tudo. Também das estrelas. E disse que o sol era uma estrela.
– Mas ele é assim... – com o dedo, ela desenhou um círculo no escuro e continuou – pai, eu queria saber mais duas coisas.
Ela queria saber sobre a origem dos armários. Fácil: um homem, que precisava guardar suas coisas, teve uma grande ideia, fez um desenho, cortou madeira e mãos à obra! Assim que relacionei a madeira à árvore, ela foi ao xis da questão:
– Eu sei, pai. Mas, e a semente?
Escapei de mais explicações quando ela ensaiou o sinal da cruz. Já que havia um interesse óbvio sobre as origens das coisas, preferi falar da Santíssima Trindade. Quando cheguei ao Espírito Santo, os olhos de Hermione brilharam:
– Deus tem magia?!
– Antes... bem antes, tinha planeta? Como eles começaram, pai?
Falei dos cientistas, de pesquisas e da explosão que deu origem a tudo. Também das estrelas. E disse que o sol era uma estrela.
– Mas ele é assim... – com o dedo, ela desenhou um círculo no escuro e continuou – pai, eu queria saber mais duas coisas.
Ela queria saber sobre a origem dos armários. Fácil: um homem, que precisava guardar suas coisas, teve uma grande ideia, fez um desenho, cortou madeira e mãos à obra! Assim que relacionei a madeira à árvore, ela foi ao xis da questão:
– Eu sei, pai. Mas, e a semente?
Escapei de mais explicações quando ela ensaiou o sinal da cruz. Já que havia um interesse óbvio sobre as origens das coisas, preferi falar da Santíssima Trindade. Quando cheguei ao Espírito Santo, os olhos de Hermione brilharam:
– Deus tem magia?!
A curiosidade parecia interminável. Ela tinha dito que seriam mais duas perguntas, mas, naquele ritmo, poderiam chegar a vinte. Era por isso que não conseguia dormir: a cabecinha não parava de trabalhar.
– Teve guerra aqui?
Contei que tivemos poucas guerras no Brasil. E ainda que, quando o vovô era criança, aconteceu a maior delas, na França e em outros países que ficam bem longe.
– Teve gente que morreu por isso?
Não menti e aproveitei para tentar encerrar a conversa. Não era hora de pensar em tanta coisa. Insisti: ela tinha que descansar a cabecinha para conseguir dormir. Não adiantou, e o assunto mudou de novo.
– Antes eram índios que moravam aqui. Onde eles moram agora?
Alice respondeu antes de mim: os índios vivem em uma ilha. Em seguida, junto com a tribo, ela trouxe sérios questionamentos sobre os pés do curupira e a perna do saci. Não aguentei tanta imaginação e quase implorei pelo fim da história. Ela propôs o seguinte:
– Pai, a gente pode ver os planetas na Internet e visitar os índios na ilha deles.
– Teve guerra aqui?
Contei que tivemos poucas guerras no Brasil. E ainda que, quando o vovô era criança, aconteceu a maior delas, na França e em outros países que ficam bem longe.
– Teve gente que morreu por isso?
Não menti e aproveitei para tentar encerrar a conversa. Não era hora de pensar em tanta coisa. Insisti: ela tinha que descansar a cabecinha para conseguir dormir. Não adiantou, e o assunto mudou de novo.
– Antes eram índios que moravam aqui. Onde eles moram agora?
Alice respondeu antes de mim: os índios vivem em uma ilha. Em seguida, junto com a tribo, ela trouxe sérios questionamentos sobre os pés do curupira e a perna do saci. Não aguentei tanta imaginação e quase implorei pelo fim da história. Ela propôs o seguinte:
– Pai, a gente pode ver os planetas na Internet e visitar os índios na ilha deles.
Já decidi que o Planetário e o Museu do Índio vão entrar na agenda da Alice. Os temas de guerra e paz podem esperar.
domingo, 9 de setembro de 2012
Os Anos de Amarante
Passa da meia-noite. Amarante espera que todos estejam dormindo para entrar no banheiro. Minutos depois de receber os primeiros beijos pelo seu aniversário, acende a luz e fixa os olhos no espelho, como há muito tempo não fazia.
Os cabelos escassos já o incomodam, embora tenham volume suficiente para um disfarce que não pareça ridículo. Por outro lado, os fios brancos estão bem distribuídos, não alteram ainda a cor do conjunto. Entretanto, são bastante revoltados, resistem muito à escova. Amarante procura pela pinça e escolhe alguns para arrancar.
A barba é crise antiga – a pele é sensível demais às lâminas. Fica assim, por fazer, desde sempre, até que alguma dermatite se manifeste na pele oleosa. Adia o quanto pode, mas agora, além da vermelhidão e da coceira, há pelos brancos em quantidade. Eles se concentram à direita do queixo e marcam uma assimetria desagradável no rosto. Amarante decide se antecipar e raspá-los para as comemorações.
Para não perturbar o sono da mulher e da filha, Amarante deixa o barbeador elétrico na gaveta. Escolhe as lâminas, e a cada passagem delas, dá um passo para um reencontro inesperado com sua juventude. Quando restam pelos grudados na bochecha, alguma espuma nas orelhas e um pequeno ferimento no pescoço, a versão que surge no espelho puxa assunto:
– Quantos anos?
– Quase trinta e oito. Nasci às duas da manhã.
– São dezoito de diferença...
– O que você faz aqui?
– Queria saber aonde você chegou, depois de tanto tempo.
– Aonde a sua obediência me levou. Você, afinal, tem medo do quê?
– Não tenho medo, só não gosto de errar. Aliás, se esta fosse uma chance de interferir com o seu passado, o que você me diria?
– Perca o medo de errar! Mas não tente ir contra a sua natureza. Você daria um péssimo rebelde.
– O que mais?
Os cabelos escassos já o incomodam, embora tenham volume suficiente para um disfarce que não pareça ridículo. Por outro lado, os fios brancos estão bem distribuídos, não alteram ainda a cor do conjunto. Entretanto, são bastante revoltados, resistem muito à escova. Amarante procura pela pinça e escolhe alguns para arrancar.
A barba é crise antiga – a pele é sensível demais às lâminas. Fica assim, por fazer, desde sempre, até que alguma dermatite se manifeste na pele oleosa. Adia o quanto pode, mas agora, além da vermelhidão e da coceira, há pelos brancos em quantidade. Eles se concentram à direita do queixo e marcam uma assimetria desagradável no rosto. Amarante decide se antecipar e raspá-los para as comemorações.
Para não perturbar o sono da mulher e da filha, Amarante deixa o barbeador elétrico na gaveta. Escolhe as lâminas, e a cada passagem delas, dá um passo para um reencontro inesperado com sua juventude. Quando restam pelos grudados na bochecha, alguma espuma nas orelhas e um pequeno ferimento no pescoço, a versão que surge no espelho puxa assunto:
– Quantos anos?
– Quase trinta e oito. Nasci às duas da manhã.
– São dezoito de diferença...
– O que você faz aqui?
– Queria saber aonde você chegou, depois de tanto tempo.
– Aonde a sua obediência me levou. Você, afinal, tem medo do quê?
– Não tenho medo, só não gosto de errar. Aliás, se esta fosse uma chance de interferir com o seu passado, o que você me diria?
– Perca o medo de errar! Mas não tente ir contra a sua natureza. Você daria um péssimo rebelde.
– O que mais?
– Afinal, é uma chance de mudar ou não? E quem vai mudar, eu ou você?
– Você não vai me responder?
– Use melhor as suas horas. Faça as suas escolhas e preencha o seu tempo. Pare de se lamentar.
– Não entendi. Eu já faço tanta coisa...
– Você acha que faz. Na verdade, você faz muito da mesma coisa e não é feliz. Não tenha medo de sentir prazer. O que você faria com prazer?
– Ler um livro. Escrever uma história.
– Escreva, então! É importante produzir. Também tem medo de se expor? Aliás, de onde vem esse medo? Por que você não quer errar?
– As pessoas parecem tão tristes, tão insatisfeitas. Eu me sinto como um fio de esperança. É uma espécie de missão, entende? Por isso, não quero decepcionar ninguém.
– E acha mesmo que a sua insatisfação vai torná-las mais felizes?
– Chega! Cansei desse papo. E você, fez alguma coisa para mudar?
– Não fiz até correr o risco de perder o que conquistei de mais importante. Desde então, eu me esforço para fazer tudo ao mesmo tempo: o que eu quero e o que eu preciso fazer. Sofro de excessos, mas não por excessos. É melhor assim.
– O que é tão importante para você?
– Aquilo que escolhi conquistar.
– Algo que eu possa ver?
– Não, estão dormindo.
– Ah! Mas, afinal, vamos chegar a algum lugar?
– Não sei. Falta tempo para escrever tudo o que você deixou de escrever. Além disso, tenho hoje responsabilidades que você não tem. Daqui a dois anos, aos quarenta, quando eu tiver menos cabelos e a barba estiver totalmente branca, podemos reescrever esta conversa. Combinado?
As referências às marcas do tempo desviam a atenção de Amarante para um quisto sob o olho esquerdo, e o jovem no espelho não tem tempo de responder, desaparece deixando os registros do diálogo para trás.
– O médico disse que não era tersol, que vai ficar assim – ele fala sozinho agora.
E pouco importa que ninguém perceba – Amarante não consegue tirar os olhos da pequena saliência que se destaca ao lado do canal lacrimal. Por isso, decide apagar a luz antes mesmo de limpar o rosto. Carrega todos os excessos para cama. Está cansado, mas não dá chance à insônia: hoje vive ansioso, mas dorme sereno.
– Você não vai me responder?
– Use melhor as suas horas. Faça as suas escolhas e preencha o seu tempo. Pare de se lamentar.
– Não entendi. Eu já faço tanta coisa...
– Você acha que faz. Na verdade, você faz muito da mesma coisa e não é feliz. Não tenha medo de sentir prazer. O que você faria com prazer?
– Ler um livro. Escrever uma história.
– Escreva, então! É importante produzir. Também tem medo de se expor? Aliás, de onde vem esse medo? Por que você não quer errar?
– As pessoas parecem tão tristes, tão insatisfeitas. Eu me sinto como um fio de esperança. É uma espécie de missão, entende? Por isso, não quero decepcionar ninguém.
– E acha mesmo que a sua insatisfação vai torná-las mais felizes?
– Chega! Cansei desse papo. E você, fez alguma coisa para mudar?
– Não fiz até correr o risco de perder o que conquistei de mais importante. Desde então, eu me esforço para fazer tudo ao mesmo tempo: o que eu quero e o que eu preciso fazer. Sofro de excessos, mas não por excessos. É melhor assim.
– O que é tão importante para você?
– Aquilo que escolhi conquistar.
– Algo que eu possa ver?
– Não, estão dormindo.
– Ah! Mas, afinal, vamos chegar a algum lugar?
– Não sei. Falta tempo para escrever tudo o que você deixou de escrever. Além disso, tenho hoje responsabilidades que você não tem. Daqui a dois anos, aos quarenta, quando eu tiver menos cabelos e a barba estiver totalmente branca, podemos reescrever esta conversa. Combinado?
As referências às marcas do tempo desviam a atenção de Amarante para um quisto sob o olho esquerdo, e o jovem no espelho não tem tempo de responder, desaparece deixando os registros do diálogo para trás.
– O médico disse que não era tersol, que vai ficar assim – ele fala sozinho agora.
E pouco importa que ninguém perceba – Amarante não consegue tirar os olhos da pequena saliência que se destaca ao lado do canal lacrimal. Por isso, decide apagar a luz antes mesmo de limpar o rosto. Carrega todos os excessos para cama. Está cansado, mas não dá chance à insônia: hoje vive ansioso, mas dorme sereno.
domingo, 2 de setembro de 2012
Dalila em Meia Conversa
Quando o celular da mulher que estava sentada ao meu lado tocou, abri os olhos e parei para prestar atenção:
Filha, você não está me entendendo... isso que você fez foi burrice. Por que cortou o cabelo? O Johnny vai ficar irritado quando souber. Ele disse que precisava de uma menina loira com cabelo na cintura. Não era no pescoço; era na cintura! E só tirou as fotos porque eu insisti. Você não lembra? O prazo já tinha terminado. Era domingo, esqueceu? Agora, se você for chamada, podem até recusar o seu teste. Nunca mais você terá outra chance. E quando ele souber, vai me esculachar. Perdi a cartada. Que burrice, Dalila! Era a chance da sua vida. Pra trabalhar na TV, ganhar muito dinheiro. Não é isso que você quer? O quê? O que você está me dizendo? De preto?! Não bastava cortar, você tinha pintar também! É o fim. Pra mudar o visual, sei. Eu preciso repetir, Dalila? Ele precisava de uma menina loira com cabelo na cintura. Você não entendeu mesmo... Liga pra ele. É, diz pra ele que cortou o cabelo, que pintou o cabelo, que queria acabar comigo. Como eu posso ficar calma, Dalila? Não, você não vai falar com seu pai. Eu não quero que ele se meta na sua vida. Filha, aquela novela dá uma projeção enorme, é o caminho do sucesso! Era, né? Não, não estou dizendo que você já perdeu a chance, mas está se esforçando bastante pra isso. Mas se você perder o teste, vai se ver comigo. Já combinou com a Mabel? Ela sabe onde pega o ônibus. Então, tá esperando o quê? Liga logo pra ela, menina. Não tenho dinheiro pra táxi. Já disse, esquece o seu pai. O que você já falou com ele? Pra que fazer um curso de interpretação? Não precisa disso. Primeiro, põe uma peruca e faz o teste. Não, não estou brincando. Depois que for selecionada, e estiver ganhando muito dinheiro, pode fazer o que quiser. E eu não tenho dinheiro pra pagar! Não, já disse que quero o seu pai fora dessa conversa. Ele paga uma mixaria de pensão. Não vai pagar seu curso, não quero que ele pague. Por hoje chega, Dalila. Só falta você aparecer com uma tatuagem agora. Hein? Você tem uma tatuagem? Não acredito no que você está me dizendo! Você se superou agora. Eu devo estar sonhando. Que tatuagem, menina? Quando você fez? Atrás da orelha, Dalila? E você cortou o cabelo pra mostrar a tatuagem... Deve estar quase careca, então. Duas estrelas: uma verde e outra dourada... Não acredito mesmo, Dalila. Você pirou de vez. Pelo amor de Deus, chega! Se você não quer se dar bem, é problema seu. Mas não vem me pedir dinheiro, não, tá? Vou chegar tarde hoje. Amanhã a gente se fala. Isso, depois do teste. E se não tiver teste, é melhor você não aparecer. Tchau, Dalila.
A mulher desligou o celular e deu um suspiro. O meu suspiro veio em seguida, foi ainda maior que o dela. Acho que ela percebeu.
Depois que desci do ônibus, sentei no banco da praça, tirei o caderno da mochila e desandei a escrever. Pretendia que fosse um tratado contra aquela mãe. Desisti: arranquei a folha e amassei.
Mais tarde, em casa, voltei ao tema: preferi colorir a meia conversa com um pouco de imaginação, decidi dar personalidade à Dalila, acreditar que a filha tem salvação.
Filha, você não está me entendendo... isso que você fez foi burrice. Por que cortou o cabelo? O Johnny vai ficar irritado quando souber. Ele disse que precisava de uma menina loira com cabelo na cintura. Não era no pescoço; era na cintura! E só tirou as fotos porque eu insisti. Você não lembra? O prazo já tinha terminado. Era domingo, esqueceu? Agora, se você for chamada, podem até recusar o seu teste. Nunca mais você terá outra chance. E quando ele souber, vai me esculachar. Perdi a cartada. Que burrice, Dalila! Era a chance da sua vida. Pra trabalhar na TV, ganhar muito dinheiro. Não é isso que você quer? O quê? O que você está me dizendo? De preto?! Não bastava cortar, você tinha pintar também! É o fim. Pra mudar o visual, sei. Eu preciso repetir, Dalila? Ele precisava de uma menina loira com cabelo na cintura. Você não entendeu mesmo... Liga pra ele. É, diz pra ele que cortou o cabelo, que pintou o cabelo, que queria acabar comigo. Como eu posso ficar calma, Dalila? Não, você não vai falar com seu pai. Eu não quero que ele se meta na sua vida. Filha, aquela novela dá uma projeção enorme, é o caminho do sucesso! Era, né? Não, não estou dizendo que você já perdeu a chance, mas está se esforçando bastante pra isso. Mas se você perder o teste, vai se ver comigo. Já combinou com a Mabel? Ela sabe onde pega o ônibus. Então, tá esperando o quê? Liga logo pra ela, menina. Não tenho dinheiro pra táxi. Já disse, esquece o seu pai. O que você já falou com ele? Pra que fazer um curso de interpretação? Não precisa disso. Primeiro, põe uma peruca e faz o teste. Não, não estou brincando. Depois que for selecionada, e estiver ganhando muito dinheiro, pode fazer o que quiser. E eu não tenho dinheiro pra pagar! Não, já disse que quero o seu pai fora dessa conversa. Ele paga uma mixaria de pensão. Não vai pagar seu curso, não quero que ele pague. Por hoje chega, Dalila. Só falta você aparecer com uma tatuagem agora. Hein? Você tem uma tatuagem? Não acredito no que você está me dizendo! Você se superou agora. Eu devo estar sonhando. Que tatuagem, menina? Quando você fez? Atrás da orelha, Dalila? E você cortou o cabelo pra mostrar a tatuagem... Deve estar quase careca, então. Duas estrelas: uma verde e outra dourada... Não acredito mesmo, Dalila. Você pirou de vez. Pelo amor de Deus, chega! Se você não quer se dar bem, é problema seu. Mas não vem me pedir dinheiro, não, tá? Vou chegar tarde hoje. Amanhã a gente se fala. Isso, depois do teste. E se não tiver teste, é melhor você não aparecer. Tchau, Dalila.
A mulher desligou o celular e deu um suspiro. O meu suspiro veio em seguida, foi ainda maior que o dela. Acho que ela percebeu.
Depois que desci do ônibus, sentei no banco da praça, tirei o caderno da mochila e desandei a escrever. Pretendia que fosse um tratado contra aquela mãe. Desisti: arranquei a folha e amassei.
Mais tarde, em casa, voltei ao tema: preferi colorir a meia conversa com um pouco de imaginação, decidi dar personalidade à Dalila, acreditar que a filha tem salvação.
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