Dias depois, eram quase seis horas da tarde quando ela retomou a onda de perguntas sem fim. Eu não tinha voltado do trabalho e coube à Nane lidar com questões ainda mais cabeludas, que tiveram origem na lembrança das falecidas cachorrinhas da família, que moravam em Iguaba e, na verdade, Alice pouco via.
– Estou muito triste. Eu amava a Tula e a Princesa, sabe?... Mamãe, e a Fibi? Ela também vai morrer? – choramingou.
Fibi cresceu junto com Alice, mora com a titia, ainda late bastante, mas agora tem as barbas bem branquinhas. Nane respondeu o que ela já sabe, que todos nós vamos morrer um dia.
– Mas eu não quero que você morra, mãe! – disse e desatou a chorar.
Depois que se recuperou dos soluços e conseguiu se acalmar, continuou disparando:
– Deus está aqui? Ele é invisível? Está ouvindo a nossa conversa?
A cada resposta afirmativa, ela se animava. Às vezes, repetia as perguntas para ter certeza; outras vezes, dava voltas, antes de encontrar uma pergunta mais interessante:
– E eu posso conversar com Ele?
Nane disse que sim, que era só falar baixinho. Alice contou então que ia pedir a Deus que deixasse a mãe viver até os 190 anos. Eu também teria esse privilégio duvidoso.
Pensar nos pais bem velhinhos trouxe o assunto da morte de volta:
– Tipo: o que acontece quando a gente morre?
A curiosidade de Alice com cemitérios já vem de algum tempo e pode ter a ver também com a turma do Penadinho. Já estamos devendo inclusive uma visita ao São João Batista, que fica bem perto de casa. Por isso, foi mais fácil para Nane falar sobre o destino da matéria e não entrar nos detalhes do espírito e da fé. Ela respondeu que somos enterrados.
– O vovô está no cemitério, né?
– Sim, mas ele não está aqui perto. O vovô Ed está em São Paulo.
– Hum... E o Michael Jackson, ele está aqui?
E foi assim que terminou a segunda série de questões essenciais da Alice.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Questões Essenciais
Eram quase onze horas e Alice ainda estava acordada. Resolvi deitar ao seu lado para tentar ajudar, perguntei o que estava acontecendo, por que não conseguia dormir, e ela desandou a perguntar:
– Antes... bem antes, tinha planeta? Como eles começaram, pai?
Falei dos cientistas, de pesquisas e da explosão que deu origem a tudo. Também das estrelas. E disse que o sol era uma estrela.
– Mas ele é assim... – com o dedo, ela desenhou um círculo no escuro e continuou – pai, eu queria saber mais duas coisas.
Ela queria saber sobre a origem dos armários. Fácil: um homem, que precisava guardar suas coisas, teve uma grande ideia, fez um desenho, cortou madeira e mãos à obra! Assim que relacionei a madeira à árvore, ela foi ao xis da questão:
– Eu sei, pai. Mas, e a semente?
Escapei de mais explicações quando ela ensaiou o sinal da cruz. Já que havia um interesse óbvio sobre as origens das coisas, preferi falar da Santíssima Trindade. Quando cheguei ao Espírito Santo, os olhos de Hermione brilharam:
– Deus tem magia?!
– Antes... bem antes, tinha planeta? Como eles começaram, pai?
Falei dos cientistas, de pesquisas e da explosão que deu origem a tudo. Também das estrelas. E disse que o sol era uma estrela.
– Mas ele é assim... – com o dedo, ela desenhou um círculo no escuro e continuou – pai, eu queria saber mais duas coisas.
Ela queria saber sobre a origem dos armários. Fácil: um homem, que precisava guardar suas coisas, teve uma grande ideia, fez um desenho, cortou madeira e mãos à obra! Assim que relacionei a madeira à árvore, ela foi ao xis da questão:
– Eu sei, pai. Mas, e a semente?
Escapei de mais explicações quando ela ensaiou o sinal da cruz. Já que havia um interesse óbvio sobre as origens das coisas, preferi falar da Santíssima Trindade. Quando cheguei ao Espírito Santo, os olhos de Hermione brilharam:
– Deus tem magia?!
A curiosidade parecia interminável. Ela tinha dito que seriam mais duas perguntas, mas, naquele ritmo, poderiam chegar a vinte. Era por isso que não conseguia dormir: a cabecinha não parava de trabalhar.
– Teve guerra aqui?
Contei que tivemos poucas guerras no Brasil. E ainda que, quando o vovô era criança, aconteceu a maior delas, na França e em outros países que ficam bem longe.
– Teve gente que morreu por isso?
Não menti e aproveitei para tentar encerrar a conversa. Não era hora de pensar em tanta coisa. Insisti: ela tinha que descansar a cabecinha para conseguir dormir. Não adiantou, e o assunto mudou de novo.
– Antes eram índios que moravam aqui. Onde eles moram agora?
Alice respondeu antes de mim: os índios vivem em uma ilha. Em seguida, junto com a tribo, ela trouxe sérios questionamentos sobre os pés do curupira e a perna do saci. Não aguentei tanta imaginação e quase implorei pelo fim da história. Ela propôs o seguinte:
– Pai, a gente pode ver os planetas na Internet e visitar os índios na ilha deles.
– Teve guerra aqui?
Contei que tivemos poucas guerras no Brasil. E ainda que, quando o vovô era criança, aconteceu a maior delas, na França e em outros países que ficam bem longe.
– Teve gente que morreu por isso?
Não menti e aproveitei para tentar encerrar a conversa. Não era hora de pensar em tanta coisa. Insisti: ela tinha que descansar a cabecinha para conseguir dormir. Não adiantou, e o assunto mudou de novo.
– Antes eram índios que moravam aqui. Onde eles moram agora?
Alice respondeu antes de mim: os índios vivem em uma ilha. Em seguida, junto com a tribo, ela trouxe sérios questionamentos sobre os pés do curupira e a perna do saci. Não aguentei tanta imaginação e quase implorei pelo fim da história. Ela propôs o seguinte:
– Pai, a gente pode ver os planetas na Internet e visitar os índios na ilha deles.
Já decidi que o Planetário e o Museu do Índio vão entrar na agenda da Alice. Os temas de guerra e paz podem esperar.
domingo, 9 de setembro de 2012
Os Anos de Amarante
Passa da meia-noite. Amarante espera que todos estejam dormindo para entrar no banheiro. Minutos depois de receber os primeiros beijos pelo seu aniversário, acende a luz e fixa os olhos no espelho, como há muito tempo não fazia.
Os cabelos escassos já o incomodam, embora tenham volume suficiente para um disfarce que não pareça ridículo. Por outro lado, os fios brancos estão bem distribuídos, não alteram ainda a cor do conjunto. Entretanto, são bastante revoltados, resistem muito à escova. Amarante procura pela pinça e escolhe alguns para arrancar.
A barba é crise antiga – a pele é sensível demais às lâminas. Fica assim, por fazer, desde sempre, até que alguma dermatite se manifeste na pele oleosa. Adia o quanto pode, mas agora, além da vermelhidão e da coceira, há pelos brancos em quantidade. Eles se concentram à direita do queixo e marcam uma assimetria desagradável no rosto. Amarante decide se antecipar e raspá-los para as comemorações.
Para não perturbar o sono da mulher e da filha, Amarante deixa o barbeador elétrico na gaveta. Escolhe as lâminas, e a cada passagem delas, dá um passo para um reencontro inesperado com sua juventude. Quando restam pelos grudados na bochecha, alguma espuma nas orelhas e um pequeno ferimento no pescoço, a versão que surge no espelho puxa assunto:
– Quantos anos?
– Quase trinta e oito. Nasci às duas da manhã.
– São dezoito de diferença...
– O que você faz aqui?
– Queria saber aonde você chegou, depois de tanto tempo.
– Aonde a sua obediência me levou. Você, afinal, tem medo do quê?
– Não tenho medo, só não gosto de errar. Aliás, se esta fosse uma chance de interferir com o seu passado, o que você me diria?
– Perca o medo de errar! Mas não tente ir contra a sua natureza. Você daria um péssimo rebelde.
– O que mais?
Os cabelos escassos já o incomodam, embora tenham volume suficiente para um disfarce que não pareça ridículo. Por outro lado, os fios brancos estão bem distribuídos, não alteram ainda a cor do conjunto. Entretanto, são bastante revoltados, resistem muito à escova. Amarante procura pela pinça e escolhe alguns para arrancar.
A barba é crise antiga – a pele é sensível demais às lâminas. Fica assim, por fazer, desde sempre, até que alguma dermatite se manifeste na pele oleosa. Adia o quanto pode, mas agora, além da vermelhidão e da coceira, há pelos brancos em quantidade. Eles se concentram à direita do queixo e marcam uma assimetria desagradável no rosto. Amarante decide se antecipar e raspá-los para as comemorações.
Para não perturbar o sono da mulher e da filha, Amarante deixa o barbeador elétrico na gaveta. Escolhe as lâminas, e a cada passagem delas, dá um passo para um reencontro inesperado com sua juventude. Quando restam pelos grudados na bochecha, alguma espuma nas orelhas e um pequeno ferimento no pescoço, a versão que surge no espelho puxa assunto:
– Quantos anos?
– Quase trinta e oito. Nasci às duas da manhã.
– São dezoito de diferença...
– O que você faz aqui?
– Queria saber aonde você chegou, depois de tanto tempo.
– Aonde a sua obediência me levou. Você, afinal, tem medo do quê?
– Não tenho medo, só não gosto de errar. Aliás, se esta fosse uma chance de interferir com o seu passado, o que você me diria?
– Perca o medo de errar! Mas não tente ir contra a sua natureza. Você daria um péssimo rebelde.
– O que mais?
– Afinal, é uma chance de mudar ou não? E quem vai mudar, eu ou você?
– Você não vai me responder?
– Use melhor as suas horas. Faça as suas escolhas e preencha o seu tempo. Pare de se lamentar.
– Não entendi. Eu já faço tanta coisa...
– Você acha que faz. Na verdade, você faz muito da mesma coisa e não é feliz. Não tenha medo de sentir prazer. O que você faria com prazer?
– Ler um livro. Escrever uma história.
– Escreva, então! É importante produzir. Também tem medo de se expor? Aliás, de onde vem esse medo? Por que você não quer errar?
– As pessoas parecem tão tristes, tão insatisfeitas. Eu me sinto como um fio de esperança. É uma espécie de missão, entende? Por isso, não quero decepcionar ninguém.
– E acha mesmo que a sua insatisfação vai torná-las mais felizes?
– Chega! Cansei desse papo. E você, fez alguma coisa para mudar?
– Não fiz até correr o risco de perder o que conquistei de mais importante. Desde então, eu me esforço para fazer tudo ao mesmo tempo: o que eu quero e o que eu preciso fazer. Sofro de excessos, mas não por excessos. É melhor assim.
– O que é tão importante para você?
– Aquilo que escolhi conquistar.
– Algo que eu possa ver?
– Não, estão dormindo.
– Ah! Mas, afinal, vamos chegar a algum lugar?
– Não sei. Falta tempo para escrever tudo o que você deixou de escrever. Além disso, tenho hoje responsabilidades que você não tem. Daqui a dois anos, aos quarenta, quando eu tiver menos cabelos e a barba estiver totalmente branca, podemos reescrever esta conversa. Combinado?
As referências às marcas do tempo desviam a atenção de Amarante para um quisto sob o olho esquerdo, e o jovem no espelho não tem tempo de responder, desaparece deixando os registros do diálogo para trás.
– O médico disse que não era tersol, que vai ficar assim – ele fala sozinho agora.
E pouco importa que ninguém perceba – Amarante não consegue tirar os olhos da pequena saliência que se destaca ao lado do canal lacrimal. Por isso, decide apagar a luz antes mesmo de limpar o rosto. Carrega todos os excessos para cama. Está cansado, mas não dá chance à insônia: hoje vive ansioso, mas dorme sereno.
– Você não vai me responder?
– Use melhor as suas horas. Faça as suas escolhas e preencha o seu tempo. Pare de se lamentar.
– Não entendi. Eu já faço tanta coisa...
– Você acha que faz. Na verdade, você faz muito da mesma coisa e não é feliz. Não tenha medo de sentir prazer. O que você faria com prazer?
– Ler um livro. Escrever uma história.
– Escreva, então! É importante produzir. Também tem medo de se expor? Aliás, de onde vem esse medo? Por que você não quer errar?
– As pessoas parecem tão tristes, tão insatisfeitas. Eu me sinto como um fio de esperança. É uma espécie de missão, entende? Por isso, não quero decepcionar ninguém.
– E acha mesmo que a sua insatisfação vai torná-las mais felizes?
– Chega! Cansei desse papo. E você, fez alguma coisa para mudar?
– Não fiz até correr o risco de perder o que conquistei de mais importante. Desde então, eu me esforço para fazer tudo ao mesmo tempo: o que eu quero e o que eu preciso fazer. Sofro de excessos, mas não por excessos. É melhor assim.
– O que é tão importante para você?
– Aquilo que escolhi conquistar.
– Algo que eu possa ver?
– Não, estão dormindo.
– Ah! Mas, afinal, vamos chegar a algum lugar?
– Não sei. Falta tempo para escrever tudo o que você deixou de escrever. Além disso, tenho hoje responsabilidades que você não tem. Daqui a dois anos, aos quarenta, quando eu tiver menos cabelos e a barba estiver totalmente branca, podemos reescrever esta conversa. Combinado?
As referências às marcas do tempo desviam a atenção de Amarante para um quisto sob o olho esquerdo, e o jovem no espelho não tem tempo de responder, desaparece deixando os registros do diálogo para trás.
– O médico disse que não era tersol, que vai ficar assim – ele fala sozinho agora.
E pouco importa que ninguém perceba – Amarante não consegue tirar os olhos da pequena saliência que se destaca ao lado do canal lacrimal. Por isso, decide apagar a luz antes mesmo de limpar o rosto. Carrega todos os excessos para cama. Está cansado, mas não dá chance à insônia: hoje vive ansioso, mas dorme sereno.
domingo, 2 de setembro de 2012
Dalila em Meia Conversa
Quando o celular da mulher que estava sentada ao meu lado tocou, abri os olhos e parei para prestar atenção:
Filha, você não está me entendendo... isso que você fez foi burrice. Por que cortou o cabelo? O Johnny vai ficar irritado quando souber. Ele disse que precisava de uma menina loira com cabelo na cintura. Não era no pescoço; era na cintura! E só tirou as fotos porque eu insisti. Você não lembra? O prazo já tinha terminado. Era domingo, esqueceu? Agora, se você for chamada, podem até recusar o seu teste. Nunca mais você terá outra chance. E quando ele souber, vai me esculachar. Perdi a cartada. Que burrice, Dalila! Era a chance da sua vida. Pra trabalhar na TV, ganhar muito dinheiro. Não é isso que você quer? O quê? O que você está me dizendo? De preto?! Não bastava cortar, você tinha pintar também! É o fim. Pra mudar o visual, sei. Eu preciso repetir, Dalila? Ele precisava de uma menina loira com cabelo na cintura. Você não entendeu mesmo... Liga pra ele. É, diz pra ele que cortou o cabelo, que pintou o cabelo, que queria acabar comigo. Como eu posso ficar calma, Dalila? Não, você não vai falar com seu pai. Eu não quero que ele se meta na sua vida. Filha, aquela novela dá uma projeção enorme, é o caminho do sucesso! Era, né? Não, não estou dizendo que você já perdeu a chance, mas está se esforçando bastante pra isso. Mas se você perder o teste, vai se ver comigo. Já combinou com a Mabel? Ela sabe onde pega o ônibus. Então, tá esperando o quê? Liga logo pra ela, menina. Não tenho dinheiro pra táxi. Já disse, esquece o seu pai. O que você já falou com ele? Pra que fazer um curso de interpretação? Não precisa disso. Primeiro, põe uma peruca e faz o teste. Não, não estou brincando. Depois que for selecionada, e estiver ganhando muito dinheiro, pode fazer o que quiser. E eu não tenho dinheiro pra pagar! Não, já disse que quero o seu pai fora dessa conversa. Ele paga uma mixaria de pensão. Não vai pagar seu curso, não quero que ele pague. Por hoje chega, Dalila. Só falta você aparecer com uma tatuagem agora. Hein? Você tem uma tatuagem? Não acredito no que você está me dizendo! Você se superou agora. Eu devo estar sonhando. Que tatuagem, menina? Quando você fez? Atrás da orelha, Dalila? E você cortou o cabelo pra mostrar a tatuagem... Deve estar quase careca, então. Duas estrelas: uma verde e outra dourada... Não acredito mesmo, Dalila. Você pirou de vez. Pelo amor de Deus, chega! Se você não quer se dar bem, é problema seu. Mas não vem me pedir dinheiro, não, tá? Vou chegar tarde hoje. Amanhã a gente se fala. Isso, depois do teste. E se não tiver teste, é melhor você não aparecer. Tchau, Dalila.
A mulher desligou o celular e deu um suspiro. O meu suspiro veio em seguida, foi ainda maior que o dela. Acho que ela percebeu.
Depois que desci do ônibus, sentei no banco da praça, tirei o caderno da mochila e desandei a escrever. Pretendia que fosse um tratado contra aquela mãe. Desisti: arranquei a folha e amassei.
Mais tarde, em casa, voltei ao tema: preferi colorir a meia conversa com um pouco de imaginação, decidi dar personalidade à Dalila, acreditar que a filha tem salvação.
Filha, você não está me entendendo... isso que você fez foi burrice. Por que cortou o cabelo? O Johnny vai ficar irritado quando souber. Ele disse que precisava de uma menina loira com cabelo na cintura. Não era no pescoço; era na cintura! E só tirou as fotos porque eu insisti. Você não lembra? O prazo já tinha terminado. Era domingo, esqueceu? Agora, se você for chamada, podem até recusar o seu teste. Nunca mais você terá outra chance. E quando ele souber, vai me esculachar. Perdi a cartada. Que burrice, Dalila! Era a chance da sua vida. Pra trabalhar na TV, ganhar muito dinheiro. Não é isso que você quer? O quê? O que você está me dizendo? De preto?! Não bastava cortar, você tinha pintar também! É o fim. Pra mudar o visual, sei. Eu preciso repetir, Dalila? Ele precisava de uma menina loira com cabelo na cintura. Você não entendeu mesmo... Liga pra ele. É, diz pra ele que cortou o cabelo, que pintou o cabelo, que queria acabar comigo. Como eu posso ficar calma, Dalila? Não, você não vai falar com seu pai. Eu não quero que ele se meta na sua vida. Filha, aquela novela dá uma projeção enorme, é o caminho do sucesso! Era, né? Não, não estou dizendo que você já perdeu a chance, mas está se esforçando bastante pra isso. Mas se você perder o teste, vai se ver comigo. Já combinou com a Mabel? Ela sabe onde pega o ônibus. Então, tá esperando o quê? Liga logo pra ela, menina. Não tenho dinheiro pra táxi. Já disse, esquece o seu pai. O que você já falou com ele? Pra que fazer um curso de interpretação? Não precisa disso. Primeiro, põe uma peruca e faz o teste. Não, não estou brincando. Depois que for selecionada, e estiver ganhando muito dinheiro, pode fazer o que quiser. E eu não tenho dinheiro pra pagar! Não, já disse que quero o seu pai fora dessa conversa. Ele paga uma mixaria de pensão. Não vai pagar seu curso, não quero que ele pague. Por hoje chega, Dalila. Só falta você aparecer com uma tatuagem agora. Hein? Você tem uma tatuagem? Não acredito no que você está me dizendo! Você se superou agora. Eu devo estar sonhando. Que tatuagem, menina? Quando você fez? Atrás da orelha, Dalila? E você cortou o cabelo pra mostrar a tatuagem... Deve estar quase careca, então. Duas estrelas: uma verde e outra dourada... Não acredito mesmo, Dalila. Você pirou de vez. Pelo amor de Deus, chega! Se você não quer se dar bem, é problema seu. Mas não vem me pedir dinheiro, não, tá? Vou chegar tarde hoje. Amanhã a gente se fala. Isso, depois do teste. E se não tiver teste, é melhor você não aparecer. Tchau, Dalila.
A mulher desligou o celular e deu um suspiro. O meu suspiro veio em seguida, foi ainda maior que o dela. Acho que ela percebeu.
Depois que desci do ônibus, sentei no banco da praça, tirei o caderno da mochila e desandei a escrever. Pretendia que fosse um tratado contra aquela mãe. Desisti: arranquei a folha e amassei.
Mais tarde, em casa, voltei ao tema: preferi colorir a meia conversa com um pouco de imaginação, decidi dar personalidade à Dalila, acreditar que a filha tem salvação.
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Alice Vai ao Corcovado
Alice nasceu em Santa Tereza, no Hospital Silvestre, mais perto do Corcovado do que imagina. Conhece o Cristo da varanda aqui de casa. Sabe que às vezes ele se esconde atrás das nuvens que, quando estão escuras, trazem muita chuva. Sabe também que, em dias de muito calor, nós nos escondemos dele, atrás do toldo que bloqueia a luz do sol e entristece a sala. Desde muito pequena, participa com gosto desse jogo de gato e rato. E prefere encontrá-lo à noite, quando fica iluminado e, em ocasiões especiais, muda até de cor.
Nos tempos em que preferia os gestos às palavras, Alice juntava as pernas e abria os braços para mostrar o Cristo às visitas. Mais tarde, quando as palavras já saíam em profusão, a cidade se transformou em projeto na escola e ela passou a reconhecer os monumentos, a falar da Lapa como se frequentasse a boemia, a mostrar intimidade com a gafieira. Já conhecia então o Pão de Açúcar, por duas vezes tinha andado de bondinho, mas faltava ir ao Corcovado e dar fim àquela brincadeira de pique-esconde.
A oportunidade apareceu no domingo passado, de supetão. Primos paulistas muito queridos estavam no Rio e, de manhã, fizeram a proposta por telefone. Topamos sem hesitar: enfim Alice vai ao Corcovado!
Chegamos ao Cosme Velho em torno de uma hora da tarde e tivemos logo uma frustração: ingressos para o trenzinho só para dali a duas horas. Decidimos aceitar a única alternativa de transporte disponível, lamentando muito o fato de Alice perder o passeio de trem. Mas ela nem se importou, disse que não tinha problema, pois seria também sua primeira vez dentro de uma van.
Com o estômago felizmente vazio, suportou bem as curvas morro acima. Quando preferimos evitar a fila dos elevadores, encarou com coragem a escadaria e nos fez prometer voltar às lojinhas de bugigangas. Misturada aos turistas, Alice tirou fotos dos primos e do Cristo. No meu colo, avistou o clube à beira da Lagoa e o prédio onde moramos – e quando achou, telefonou para titia, que também mora ali, dois andares abaixo, para distribuir acenos com animação, quase aos gritos (que o titio garante ter escutado).
Acabou merecendo o pingente que compramos no caminho de volta, antes de enjoar na descida, reclamar de dor de cabeça, lembrar-se da fome, antes de perceber que a parte boa do passeio tinha terminado.
Nos tempos em que preferia os gestos às palavras, Alice juntava as pernas e abria os braços para mostrar o Cristo às visitas. Mais tarde, quando as palavras já saíam em profusão, a cidade se transformou em projeto na escola e ela passou a reconhecer os monumentos, a falar da Lapa como se frequentasse a boemia, a mostrar intimidade com a gafieira. Já conhecia então o Pão de Açúcar, por duas vezes tinha andado de bondinho, mas faltava ir ao Corcovado e dar fim àquela brincadeira de pique-esconde.
A oportunidade apareceu no domingo passado, de supetão. Primos paulistas muito queridos estavam no Rio e, de manhã, fizeram a proposta por telefone. Topamos sem hesitar: enfim Alice vai ao Corcovado!
Chegamos ao Cosme Velho em torno de uma hora da tarde e tivemos logo uma frustração: ingressos para o trenzinho só para dali a duas horas. Decidimos aceitar a única alternativa de transporte disponível, lamentando muito o fato de Alice perder o passeio de trem. Mas ela nem se importou, disse que não tinha problema, pois seria também sua primeira vez dentro de uma van.
Com o estômago felizmente vazio, suportou bem as curvas morro acima. Quando preferimos evitar a fila dos elevadores, encarou com coragem a escadaria e nos fez prometer voltar às lojinhas de bugigangas. Misturada aos turistas, Alice tirou fotos dos primos e do Cristo. No meu colo, avistou o clube à beira da Lagoa e o prédio onde moramos – e quando achou, telefonou para titia, que também mora ali, dois andares abaixo, para distribuir acenos com animação, quase aos gritos (que o titio garante ter escutado).
Acabou merecendo o pingente que compramos no caminho de volta, antes de enjoar na descida, reclamar de dor de cabeça, lembrar-se da fome, antes de perceber que a parte boa do passeio tinha terminado.
domingo, 12 de agosto de 2012
Dezenas
A caminho da escola, de mãos entrelaçadas, mal conversamos. Às
vezes, sinto muito pelo desperdício de tempo, por não aproveitarmos o momento
que temos sozinhos. Contudo, pela manhã, mais que em qualquer outra hora do dia,
eu prefiro o silêncio; e ela também não quer muito papo, prefere cantar alguma
música, já ensaia até assobiar, sempre arrastando a mochila com rodinhas.
Eu permaneço calado, tentando pensar em alguma coisa que
talvez nos aproxime em momento tão improvável. Parece sempre muito cedo para
raciocinar, mas encontro espaço para a obsessão da semana: as dezenas que teimam
em entrar na cabeça de Alice.
A ideia de aproveitar a numeração dos prédios só funciona
quando chegamos à esquina da rua onde fica a creche. Até ali, apenas os números
centenários das portarias da Voluntários. O número da casa que fica na calçada
oposta, um laboratório, é oitenta e oito. Ela diz que não vê, a árvore esconde;
um cachorro late e distrai a menina. Para seguir em frente, eu garanto que vamos
encontrar outros números.
Agora afobada, ela encontra a casa oitenta e nove. Eu confirmo
a dezena: muito bem, é oitenta! Mas o número que vem depois não é o nove... Ela
mesma se corrige: é oitenta e dois. Dali em diante, Alice interrompe o passeio diversas
vezes. E eu ignoro a pressa habitual e espero, com muita paciência, que ela
diga cada um dos números – quase todos certos. A hesitação aparece apenas quando
ela confunde o sessenta com o setenta, e vice-versa.
Depois do beijo de despedida, fico com o sorriso banguela e
as dezenas na cabeça. Não tenho certeza ainda de que o problema está resolvido.
Retorno pelo mesmo caminho revivendo os números, satisfeito com o interesse
dela e com o tempo que passamos juntos. Até chegar ao ponto de ônibus, curto
uma ingênua sensação de dever cumprido. Quando encontro o meu assento, coloco
os fones de ouvidos e tento adiar as lembranças dos compromissos que tenho pela
frente.
Volto tarde para casa. Alice já está deitada, mas levanta
assim que ouve a minha voz. Finge que não me vê, pergunta para Nane se vou
demorar, diz que precisa falar comigo. Quando
dá as costas, ganha o meu abraço surpresa e sorri com a gengiva. Vamos juntos até
a cama, onde deito com ela por alguns minutos. Ela pede algum carinho antes de
eu ir embora.
À mesa, Nane tem novidades. Conversamos enquanto eu preparo um
lanche e ela ainda trabalha. Diz que na agenda da escola veio um elogio para
Alice – parece que ela foi muito bem no dever de matemática. Desta vez, aquela
mesma ingênua sensação de dever cumprido toma conta de mim: será que foram as
dezenas que encontramos pelo caminho?
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Milagres Fotográficos
Texto de ficção baseado em trabalho premiado do fotógrafo Pedro Trindade,
que mantém o site www.ecoclics.com.br
Para ver a foto, CLIQUE AQUI
Manoel, o guia contratado por Pedro em Paraty, insistiu com a história do velho com o cajado na mão. Garantiu que era figura rabiscada pelos índios em uma gruta há muito mais tempo que qualquer um pudesse imaginar. Vendeu, assim, o passeio para o fotógrafo. Combinou que partiriam na manhã seguinte, bem cedo porque a caminhada era longa. Não contava, porém, com o imprevisto: a febre da filha começou depois do jantar e não cedeu de madrugada. No início da manhã, antes de ir ao pronto-socorro, chamou José, que saía de mochila para a escola.
que mantém o site www.ecoclics.com.br
Para ver a foto, CLIQUE AQUI
José, filho do vizinho, decidiu matar a aula para ganhar um trocado. Não contou a Manoel que conhecia a trilha mas nunca tinha entrado na gruta. Também não revelou que morria de medo das histórias que contavam sobre a antiga pintura. Diziam que era um profeta, e que ele transformava a vida dos visitantes. Ainda assim, sem tirar a mochila nas costas, saiu para encontrar o fotógrafo. Na recepção do hotel, explicou o motivo da ausência do guia e disse que era seu substituto. Quando chegaram à praia, na metade do caminho, pararam para lanchar. Ali viu Iracema pela primeira vez.
Iracema, a bela moça que molhava os pés sentada sobre uma pedra, estava sozinha. Viu os estranhos se aproximarem, mas fingiu desinteresse. Quando eles puxaram assunto, desandou a falar. Estava ali para descansar enquanto um casal de amigos procurava por uma gruta no fim da trilha. Disse que lá tinham um encontro com Deus. Gostou muito do sorriso de José, que permanecia calado. Entendeu a coincidência como destino e acabou aceitando o convite de caminharem juntos ao encontro de seus amigos. Assim que descobriu que Pedro era fotógrafo, parou de provocar o menino e ofereceu-se para posar.
Pedro, o turista que confiou na promessa de Manoel, não escondeu a frustração quando percebeu que José se afastou, confessando em silêncio que não sabia onde ficava o desenho. Aproveitou-se do desejo de Iracema para tirar muitas fotos e não dar a viagem como perdida. Escolheu primeiro uma moldura de pedras com algumas frestas de luz. Depois, enquadrou o vão de entrada da gruta à esquerda e chamou a modelo para posar. Clicou sua melhor foto depois de um passo que a moça deu, logo que ela virou o rosto, antes de ouvir o chamado de seus amigos que tinham acabado de encontrar José.
A surpresa aconteceu dias depois, quando Pedro revelou as fotografias tiradas em Paraty. O velho estava lá, sobre a moldura de pedras, pouco acima de onde Iracema fazia a pose, e com o tal cajado na mão. Sabe-se que aquela foto rendeu a Pedro um prêmio internacional. Dizem que deu a Iracema e José um primeiro amor. E há quem acredite até que curou a filha de Manoel.
Iracema, a bela moça que molhava os pés sentada sobre uma pedra, estava sozinha. Viu os estranhos se aproximarem, mas fingiu desinteresse. Quando eles puxaram assunto, desandou a falar. Estava ali para descansar enquanto um casal de amigos procurava por uma gruta no fim da trilha. Disse que lá tinham um encontro com Deus. Gostou muito do sorriso de José, que permanecia calado. Entendeu a coincidência como destino e acabou aceitando o convite de caminharem juntos ao encontro de seus amigos. Assim que descobriu que Pedro era fotógrafo, parou de provocar o menino e ofereceu-se para posar.
Pedro, o turista que confiou na promessa de Manoel, não escondeu a frustração quando percebeu que José se afastou, confessando em silêncio que não sabia onde ficava o desenho. Aproveitou-se do desejo de Iracema para tirar muitas fotos e não dar a viagem como perdida. Escolheu primeiro uma moldura de pedras com algumas frestas de luz. Depois, enquadrou o vão de entrada da gruta à esquerda e chamou a modelo para posar. Clicou sua melhor foto depois de um passo que a moça deu, logo que ela virou o rosto, antes de ouvir o chamado de seus amigos que tinham acabado de encontrar José.
A surpresa aconteceu dias depois, quando Pedro revelou as fotografias tiradas em Paraty. O velho estava lá, sobre a moldura de pedras, pouco acima de onde Iracema fazia a pose, e com o tal cajado na mão. Sabe-se que aquela foto rendeu a Pedro um prêmio internacional. Dizem que deu a Iracema e José um primeiro amor. E há quem acredite até que curou a filha de Manoel.
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