Alice nasceu em Santa Tereza, no Hospital Silvestre, mais perto do Corcovado do que imagina. Conhece o Cristo da varanda aqui de casa. Sabe que às vezes ele se esconde atrás das nuvens que, quando estão escuras, trazem muita chuva. Sabe também que, em dias de muito calor, nós nos escondemos dele, atrás do toldo que bloqueia a luz do sol e entristece a sala. Desde muito pequena, participa com gosto desse jogo de gato e rato. E prefere encontrá-lo à noite, quando fica iluminado e, em ocasiões especiais, muda até de cor.
Nos tempos em que preferia os gestos às palavras, Alice juntava as pernas e abria os braços para mostrar o Cristo às visitas. Mais tarde, quando as palavras já saíam em profusão, a cidade se transformou em projeto na escola e ela passou a reconhecer os monumentos, a falar da Lapa como se frequentasse a boemia, a mostrar intimidade com a gafieira. Já conhecia então o Pão de Açúcar, por duas vezes tinha andado de bondinho, mas faltava ir ao Corcovado e dar fim àquela brincadeira de pique-esconde.
A oportunidade apareceu no domingo passado, de supetão. Primos paulistas muito queridos estavam no Rio e, de manhã, fizeram a proposta por telefone. Topamos sem hesitar: enfim Alice vai ao Corcovado!
Chegamos ao Cosme Velho em torno de uma hora da tarde e tivemos logo uma frustração: ingressos para o trenzinho só para dali a duas horas. Decidimos aceitar a única alternativa de transporte disponível, lamentando muito o fato de Alice perder o passeio de trem. Mas ela nem se importou, disse que não tinha problema, pois seria também sua primeira vez dentro de uma van.
Com o estômago felizmente vazio, suportou bem as curvas morro acima. Quando preferimos evitar a fila dos elevadores, encarou com coragem a escadaria e nos fez prometer voltar às lojinhas de bugigangas. Misturada aos turistas, Alice tirou fotos dos primos e do Cristo. No meu colo, avistou o clube à beira da Lagoa e o prédio onde moramos – e quando achou, telefonou para titia, que também mora ali, dois andares abaixo, para distribuir acenos com animação, quase aos gritos (que o titio garante ter escutado).
Acabou merecendo o pingente que compramos no caminho de volta, antes de enjoar na descida, reclamar de dor de cabeça, lembrar-se da fome, antes de perceber que a parte boa do passeio tinha terminado.
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
domingo, 12 de agosto de 2012
Dezenas
A caminho da escola, de mãos entrelaçadas, mal conversamos. Às
vezes, sinto muito pelo desperdício de tempo, por não aproveitarmos o momento
que temos sozinhos. Contudo, pela manhã, mais que em qualquer outra hora do dia,
eu prefiro o silêncio; e ela também não quer muito papo, prefere cantar alguma
música, já ensaia até assobiar, sempre arrastando a mochila com rodinhas.
Eu permaneço calado, tentando pensar em alguma coisa que
talvez nos aproxime em momento tão improvável. Parece sempre muito cedo para
raciocinar, mas encontro espaço para a obsessão da semana: as dezenas que teimam
em entrar na cabeça de Alice.
A ideia de aproveitar a numeração dos prédios só funciona
quando chegamos à esquina da rua onde fica a creche. Até ali, apenas os números
centenários das portarias da Voluntários. O número da casa que fica na calçada
oposta, um laboratório, é oitenta e oito. Ela diz que não vê, a árvore esconde;
um cachorro late e distrai a menina. Para seguir em frente, eu garanto que vamos
encontrar outros números.
Agora afobada, ela encontra a casa oitenta e nove. Eu confirmo
a dezena: muito bem, é oitenta! Mas o número que vem depois não é o nove... Ela
mesma se corrige: é oitenta e dois. Dali em diante, Alice interrompe o passeio diversas
vezes. E eu ignoro a pressa habitual e espero, com muita paciência, que ela
diga cada um dos números – quase todos certos. A hesitação aparece apenas quando
ela confunde o sessenta com o setenta, e vice-versa.
Depois do beijo de despedida, fico com o sorriso banguela e
as dezenas na cabeça. Não tenho certeza ainda de que o problema está resolvido.
Retorno pelo mesmo caminho revivendo os números, satisfeito com o interesse
dela e com o tempo que passamos juntos. Até chegar ao ponto de ônibus, curto
uma ingênua sensação de dever cumprido. Quando encontro o meu assento, coloco
os fones de ouvidos e tento adiar as lembranças dos compromissos que tenho pela
frente.
Volto tarde para casa. Alice já está deitada, mas levanta
assim que ouve a minha voz. Finge que não me vê, pergunta para Nane se vou
demorar, diz que precisa falar comigo. Quando
dá as costas, ganha o meu abraço surpresa e sorri com a gengiva. Vamos juntos até
a cama, onde deito com ela por alguns minutos. Ela pede algum carinho antes de
eu ir embora.
À mesa, Nane tem novidades. Conversamos enquanto eu preparo um
lanche e ela ainda trabalha. Diz que na agenda da escola veio um elogio para
Alice – parece que ela foi muito bem no dever de matemática. Desta vez, aquela
mesma ingênua sensação de dever cumprido toma conta de mim: será que foram as
dezenas que encontramos pelo caminho?
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Milagres Fotográficos
Texto de ficção baseado em trabalho premiado do fotógrafo Pedro Trindade,
que mantém o site www.ecoclics.com.br
Para ver a foto, CLIQUE AQUI
Manoel, o guia contratado por Pedro em Paraty, insistiu com a história do velho com o cajado na mão. Garantiu que era figura rabiscada pelos índios em uma gruta há muito mais tempo que qualquer um pudesse imaginar. Vendeu, assim, o passeio para o fotógrafo. Combinou que partiriam na manhã seguinte, bem cedo porque a caminhada era longa. Não contava, porém, com o imprevisto: a febre da filha começou depois do jantar e não cedeu de madrugada. No início da manhã, antes de ir ao pronto-socorro, chamou José, que saía de mochila para a escola.
que mantém o site www.ecoclics.com.br
Para ver a foto, CLIQUE AQUI
José, filho do vizinho, decidiu matar a aula para ganhar um trocado. Não contou a Manoel que conhecia a trilha mas nunca tinha entrado na gruta. Também não revelou que morria de medo das histórias que contavam sobre a antiga pintura. Diziam que era um profeta, e que ele transformava a vida dos visitantes. Ainda assim, sem tirar a mochila nas costas, saiu para encontrar o fotógrafo. Na recepção do hotel, explicou o motivo da ausência do guia e disse que era seu substituto. Quando chegaram à praia, na metade do caminho, pararam para lanchar. Ali viu Iracema pela primeira vez.
Iracema, a bela moça que molhava os pés sentada sobre uma pedra, estava sozinha. Viu os estranhos se aproximarem, mas fingiu desinteresse. Quando eles puxaram assunto, desandou a falar. Estava ali para descansar enquanto um casal de amigos procurava por uma gruta no fim da trilha. Disse que lá tinham um encontro com Deus. Gostou muito do sorriso de José, que permanecia calado. Entendeu a coincidência como destino e acabou aceitando o convite de caminharem juntos ao encontro de seus amigos. Assim que descobriu que Pedro era fotógrafo, parou de provocar o menino e ofereceu-se para posar.
Pedro, o turista que confiou na promessa de Manoel, não escondeu a frustração quando percebeu que José se afastou, confessando em silêncio que não sabia onde ficava o desenho. Aproveitou-se do desejo de Iracema para tirar muitas fotos e não dar a viagem como perdida. Escolheu primeiro uma moldura de pedras com algumas frestas de luz. Depois, enquadrou o vão de entrada da gruta à esquerda e chamou a modelo para posar. Clicou sua melhor foto depois de um passo que a moça deu, logo que ela virou o rosto, antes de ouvir o chamado de seus amigos que tinham acabado de encontrar José.
A surpresa aconteceu dias depois, quando Pedro revelou as fotografias tiradas em Paraty. O velho estava lá, sobre a moldura de pedras, pouco acima de onde Iracema fazia a pose, e com o tal cajado na mão. Sabe-se que aquela foto rendeu a Pedro um prêmio internacional. Dizem que deu a Iracema e José um primeiro amor. E há quem acredite até que curou a filha de Manoel.
Iracema, a bela moça que molhava os pés sentada sobre uma pedra, estava sozinha. Viu os estranhos se aproximarem, mas fingiu desinteresse. Quando eles puxaram assunto, desandou a falar. Estava ali para descansar enquanto um casal de amigos procurava por uma gruta no fim da trilha. Disse que lá tinham um encontro com Deus. Gostou muito do sorriso de José, que permanecia calado. Entendeu a coincidência como destino e acabou aceitando o convite de caminharem juntos ao encontro de seus amigos. Assim que descobriu que Pedro era fotógrafo, parou de provocar o menino e ofereceu-se para posar.
Pedro, o turista que confiou na promessa de Manoel, não escondeu a frustração quando percebeu que José se afastou, confessando em silêncio que não sabia onde ficava o desenho. Aproveitou-se do desejo de Iracema para tirar muitas fotos e não dar a viagem como perdida. Escolheu primeiro uma moldura de pedras com algumas frestas de luz. Depois, enquadrou o vão de entrada da gruta à esquerda e chamou a modelo para posar. Clicou sua melhor foto depois de um passo que a moça deu, logo que ela virou o rosto, antes de ouvir o chamado de seus amigos que tinham acabado de encontrar José.
A surpresa aconteceu dias depois, quando Pedro revelou as fotografias tiradas em Paraty. O velho estava lá, sobre a moldura de pedras, pouco acima de onde Iracema fazia a pose, e com o tal cajado na mão. Sabe-se que aquela foto rendeu a Pedro um prêmio internacional. Dizem que deu a Iracema e José um primeiro amor. E há quem acredite até que curou a filha de Manoel.
terça-feira, 24 de julho de 2012
Entrevista com Mami
A lucidez sai do nevoeiro à medida que o dia avança. Há dias melhores que outros. Aquele era um bom dia. Tão bom que valia a tentativa, ou a petulância. Fiz a entrevista com a câmera do celular à mesa do almoço.
Comecei pela pergunta óbvia: qual o seu nome? A audição já não funciona como antes, tive que repetir: qual o seu nome? É Mamiiiiii. Foi assim, com a vogal mais prolongada que o normal. E quantos anos você tem? A primeira resposta foi uma gargalhada, entre sarcástica e incrédula. Depois, veio a sentença: Que desaforo! Ele quer saber a minha idade, disse ainda inconformada. Mami continuou rindo até que eu perguntei do namorado. Ela fechou a cara: eu não tenho namorado.
Mudei o foco das perguntas: Qual o nome da sua bisneta? Ah! Deve ser a meninota. Qual o nome dela? Mimi. Ela chamava a minha irmã de Mimi. Eu corrigi: é Alice. E ela repetiu, separando as sílabas: A-li-ce.
Meu pai insistiu com assuntos aleatórios, gracejos que fazemos na intimidade da família. Mais uma vez, ela reagiu: Que horror! Você está me confundindo. Naquele momento, a sobremesa chegou à mesa e meu pai deixou as bobagens de lado. Entre os doces de coco e de manga, ela preferiu o segundo.
Comecei pela pergunta óbvia: qual o seu nome? A audição já não funciona como antes, tive que repetir: qual o seu nome? É Mamiiiiii. Foi assim, com a vogal mais prolongada que o normal. E quantos anos você tem? A primeira resposta foi uma gargalhada, entre sarcástica e incrédula. Depois, veio a sentença: Que desaforo! Ele quer saber a minha idade, disse ainda inconformada. Mami continuou rindo até que eu perguntei do namorado. Ela fechou a cara: eu não tenho namorado.
Mudei o foco das perguntas: Qual o nome da sua bisneta? Ah! Deve ser a meninota. Qual o nome dela? Mimi. Ela chamava a minha irmã de Mimi. Eu corrigi: é Alice. E ela repetiu, separando as sílabas: A-li-ce.
Meu pai insistiu com assuntos aleatórios, gracejos que fazemos na intimidade da família. Mais uma vez, ela reagiu: Que horror! Você está me confundindo. Naquele momento, a sobremesa chegou à mesa e meu pai deixou as bobagens de lado. Entre os doces de coco e de manga, ela preferiu o segundo.
A entrevista já durava mais de três minutos, parecia suficientemente extensa para a lucidez dela e para a memória do meu celular. Por isso, resolvi voltar ao desafio e às perguntas relevantes: O que estamos comemorando hoje? A resposta foi imediata e parecia óbvia: o aniversário de seu pai. E o que mais? E da França também. Vencido o 14 de julho, mais um, interrompi a gravação.
domingo, 15 de julho de 2012
Bigode e Barriga
11 de dezembro de 1983
Mais de quarenta minutos do segundo tempo de um jogo sem gols. Estávamos sentados nas cadeiras azuis, atrás da baliza que fica à direita das cabines de rádio. Era dali que assistíamos à maioria das partidas. Eu tinha nove anos, as aulas do terceiro ano primário já haviam terminado, e futebol era uma brincadeira quase solitária, de pai e filho – meus amigos não eram tricolores. Restava pouco tempo para que o placar se alterasse. Por isso, eu tinha certeza de que era hora de ir embora. Era sempre assim: em jogos de duas torcidas, clássicos cariocas, saíamos antes do fim porque meu pai temia cruzar com os adversários em torno do estádio. Mas naquele dia, foi diferente quando trocamos os olhares e perguntei: Vamos? Não sei se era a companhia do amigo rubro-negro, não sei se era a esperança ignorando o medo... Ele decidiu ficar.
Dali, daquelas cadeiras azuis que o Maracanã não tem mais, era impossível distinguir as linhas divisórias do campo. Dali, não tínhamos qualquer noção de profundidade. Vimos, entretanto, aos quarenta e tantos minutos, o mulato de uniforme branco correr em nossa direção. A bola subiu e desceu para encontrar seus pés. Não percebemos quando ele chutou porque o goleiro encobria nossa visão. Vimos apenas a rede estufar de leve. Não guardo outras imagens que as da televisão: um Assis incrédulo, com o bigode sorrindo, tão feliz quanto qualquer um de nós.
25 de junho de 1995
Estávamos de novo sentados nas cadeiras azuis, mais próximos à bandeirinha de escanteio; como sempre, à direita das cabines. O futebol não era mais uma brincadeira restrita ao pai e ao filho. No estádio, minha irmã e meu irmão nos faziam companhia. Na faculdade, o Fla x Flu dos churrascos era um grande barato. Mas o tempo cruel tinha deixado os tricolores quase dez anos sem título. E, naquele ano, o adversário comemorava o centenário, tinha técnico e elenco, mas não tinha ainda nos vencido. Abrimos dois gols de vantagem no primeiro tempo, eles empataram no segundo. Logo depois do segundo gol, uma expulsão me fez reviver a hora de partir. Daquela vez, eram três filhos para cuidar, não havia amigo rubro-negro ao lado, não havia esperança que ignorasse o medo. Ele concordou quando perguntei: Vamos? Saímos.
Andamos lentamente em direção ao carro, que estava estacionado a algumas quadras do Maracanã. Assim que atravessamos a rua Conde de Bonfim, ouvimos o burburinho de comemoração que vinha do estádio. Trocamos olhares até encontrar a certeza: um tricolor, com radinho de pilha na mão, pulava sozinho no meio da rua deserta. Sofremos os minutos finais tentando escutar outros radinhos pelo caminho, nas portarias e nos bares. Quando chegamos ao carro, o jogo tinha acabado. Meu irmão chorava. Colocamos as bandeiras nas janelas e ouvimos uma dezena de vezes o gol de barriga que não vimos. E a festa continuou assim, repetitiva, nas Laranjeiras.
14 de julho de 2012
Mais de quarenta minutos do segundo tempo de um jogo sem gols. Estávamos sentados nas cadeiras azuis, atrás da baliza que fica à direita das cabines de rádio. Era dali que assistíamos à maioria das partidas. Eu tinha nove anos, as aulas do terceiro ano primário já haviam terminado, e futebol era uma brincadeira quase solitária, de pai e filho – meus amigos não eram tricolores. Restava pouco tempo para que o placar se alterasse. Por isso, eu tinha certeza de que era hora de ir embora. Era sempre assim: em jogos de duas torcidas, clássicos cariocas, saíamos antes do fim porque meu pai temia cruzar com os adversários em torno do estádio. Mas naquele dia, foi diferente quando trocamos os olhares e perguntei: Vamos? Não sei se era a companhia do amigo rubro-negro, não sei se era a esperança ignorando o medo... Ele decidiu ficar.
Dali, daquelas cadeiras azuis que o Maracanã não tem mais, era impossível distinguir as linhas divisórias do campo. Dali, não tínhamos qualquer noção de profundidade. Vimos, entretanto, aos quarenta e tantos minutos, o mulato de uniforme branco correr em nossa direção. A bola subiu e desceu para encontrar seus pés. Não percebemos quando ele chutou porque o goleiro encobria nossa visão. Vimos apenas a rede estufar de leve. Não guardo outras imagens que as da televisão: um Assis incrédulo, com o bigode sorrindo, tão feliz quanto qualquer um de nós.
25 de junho de 1995
Estávamos de novo sentados nas cadeiras azuis, mais próximos à bandeirinha de escanteio; como sempre, à direita das cabines. O futebol não era mais uma brincadeira restrita ao pai e ao filho. No estádio, minha irmã e meu irmão nos faziam companhia. Na faculdade, o Fla x Flu dos churrascos era um grande barato. Mas o tempo cruel tinha deixado os tricolores quase dez anos sem título. E, naquele ano, o adversário comemorava o centenário, tinha técnico e elenco, mas não tinha ainda nos vencido. Abrimos dois gols de vantagem no primeiro tempo, eles empataram no segundo. Logo depois do segundo gol, uma expulsão me fez reviver a hora de partir. Daquela vez, eram três filhos para cuidar, não havia amigo rubro-negro ao lado, não havia esperança que ignorasse o medo. Ele concordou quando perguntei: Vamos? Saímos.
Andamos lentamente em direção ao carro, que estava estacionado a algumas quadras do Maracanã. Assim que atravessamos a rua Conde de Bonfim, ouvimos o burburinho de comemoração que vinha do estádio. Trocamos olhares até encontrar a certeza: um tricolor, com radinho de pilha na mão, pulava sozinho no meio da rua deserta. Sofremos os minutos finais tentando escutar outros radinhos pelo caminho, nas portarias e nos bares. Quando chegamos ao carro, o jogo tinha acabado. Meu irmão chorava. Colocamos as bandeiras nas janelas e ouvimos uma dezena de vezes o gol de barriga que não vimos. E a festa continuou assim, repetitiva, nas Laranjeiras.
14 de julho de 2012
Recordar é viver. Saudações tricolores e um feliz aniversário, pai.
domingo, 8 de julho de 2012
Champignons Não Falam Inglês
Em meio à peregrinação pelos maravilhosos castelos do Vale do Loire, arrumamos tempo para um passeio gastronômico bem diferente. Eram quase quatro horas da tarde quando chegamos a Bourré. Vínhamos de um encontro com Tintim e Milou em Moulinsart, ou melhor, no Castelo de Chéverny. Embora estivesse nos planos, a visita àquelas cavernas geladas, onde ainda se cultiva cogumelos manualmente, dependia muito dos tempos gastos nos castelos e nos deslocamentos.
Os casais de ingleses chegaram depois, em quatro bicicletas, e estacionaram na sombra, entre as árvores e o carro que alugamos para toda a viagem. Sentaram-se nas cadeiras de plástico do restaurante que funcionava apenas para o almoço e, como nós, ficaram esperando pela guia. Quando ela apareceu, eles perguntaram em inglês onde ficava a bilheteria. Nane rompeu o silêncio para responder e mostrar onde havíamos comprado os ingressos. Eles agradeceram, pagaram pelos seus e logo retornaram para acompanhar a pequena expedição.
Os casais de ingleses chegaram depois, em quatro bicicletas, e estacionaram na sombra, entre as árvores e o carro que alugamos para toda a viagem. Sentaram-se nas cadeiras de plástico do restaurante que funcionava apenas para o almoço e, como nós, ficaram esperando pela guia. Quando ela apareceu, eles perguntaram em inglês onde ficava a bilheteria. Nane rompeu o silêncio para responder e mostrar onde havíamos comprado os ingressos. Eles agradeceram, pagaram pelos seus e logo retornaram para acompanhar a pequena expedição.
Quando tiveram certeza de que a guia só falava francês, os
ingleses ficaram bastante decepcionados. Acabamos nos oferecendo para tentar ajudar,
o que não foi tarefa das mais fáceis. A cada espécie de cogumelo, a guia discursava
sem interrupção, trazendo informações que não conseguíamos absorver
integralmente: sobre o sabor do Shii Také
e a textura do Pleurote, sobre a
mistura orgânica compactada em troncos que era utilizada para o cultivo do Champignon de Paris, e também sobre a
principal atração daquela Cave Champignonnière – o Pied Bleu, espécie pela qual são responsáveis por 45% da produção
mundial. Enquanto eu me preocupava em registrar o que era possível, Nane já se
adiantava e matava saudades de falar inglês.
Mas a primeira parte da visita não se limitava aos
cogumelos. As rochas utilizadas na construção dos castelos da região, inclusive
Chambord, tinham sido retiradas das frias cavernas que visitávamos. Havia ali uma
pequena exposição de instrumentos e explicações sobre métodos medievais para a
extração do tuffeau, além de outras
relacionadas às condições de trabalho na época. Seguimos tentando explicar o
que era possível aos nossos amigos. Nane chegou a dizer para eles não
acreditarem em tudo que dizíamos. Eles acharam graça, e acabamos dando muitas
risadas juntos até o fim do passeio.
As informações sobre aquelas rochas calcáreas serviram de
introdução à segunda parte do passeio – a cidadela subterrânea. É obra de um
artista plástico, que levou quase três anos para ser concluída e pretende
preservar as condições originais das construções da região do Vale do Loire.
Rica em detalhes, as esculturas incluem, por exemplo, um gato pulando janela e
mãos abrindo portas.
Terminada a visita, enfrentamos o
risco de um choque térmico na saída das cavernas. Trocamos a temperatura de
13ºC pelos quase 30ºC de uma primavera francesa com jeito de verão. Compramos um
vidro de mousseline de Pied Bleu na
loja e nos despedimos da agradável companhia dos amigos ingleses, os únicos que
fizemos em toda a viagem. De lá fomos para a deliciosa cidade de Amboise em
busca de alternativas para o lanche da noite que faríamos no quarto do hotel.
domingo, 1 de julho de 2012
Retirantes
As crianças fazem fila. Carregam
trouxinhas sobre o ombro direito e usam lenços vermelhos presos com caixas de
fósforo em torno do pescoço. Os meninos vêm com chapéus de cangaceiros, camisas
brancas e jeans remendados. As meninas, por sua vez, têm enfeites no cabelo, usam
saias multicoloridas e repetem a simplicidade do branco em suas blusas.
As crianças caminham pelo pátio para
formar um círculo antes de se sentarem. Ainda em silêncio, uma a uma, deixam as
trouxas no centro da roda fazendo um amontoado delas. E, quando a música
começa, elas soltam a voz. Fazem dos lenços uma fogueira igual à de São João, cantam
o sofrimento da seca e o adeus à Rosinha. Desenham corações com os dedos, que
batem em seguida as asas brancas do sertão.
É a penúltima apresentação
daquela turma em uma festa junina da creche Palmo e Meio.
Não tiramos os olhos de Alice,
que já nos dizia durante a semana que aquele seria o dia mais feliz da vida
dela. Quando falava da festa, reclamava dos cansativos ensaios e caprichava nos
olhares de sabichona para falar de Luiz Gonzaga, agora amigo íntimo das
cantorias no banheiro. Bastante irrequieta, não escondia a ansiedade.
Não tiramos os olhos de Alice
porque ela não se limita agora a cantar. A interpretação da música está em gestos,
caras e bocas. A judiação em seus braços é tão sofrida quanto a seca. Seus olhos
tristes morrem de sede junto com o alazão. Sua mão bate forte no peito a
promessa de voltar para o sertão. E nós não escondemos as lágrimas.
Na apresentação derradeira as
crianças dançam forró. De cabo a rabo, com muita animação. Vixe, como eu estou feliz! São três vezes, porque na primeira os
pais dançam também. E nós dançamos sem jeito e, claro, sem tirar os olhos de
Alice.
Ao seu modo, aquelas crianças são
retirantes também. Aos poucos, dão adeus a Rosário. No fim deste ano, quando
estiverem prontas, vão bater suas asinhas brancas e partir. Enquanto isso, elas
escrevem cartinhas para o correio do amor, leem frases no microfone, correm de
um lado a outro, pedem água, tiram os sapatos, jogam a bola na boca do palhaço,
trazem um brinde, correm um pouco mais.
Faltam ainda alguns meses de
muito aprendizado, mas as crianças já batem no peito e prometem voltar.
E nós fazemos coro, agradecendo
com os dedos adultos que também aprenderam a desenhar corações.
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