quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Palavras Encantadas do País das Maravilhas

Buá
Verbo de origem musical, derivado de “ensaboar”.
Alice entra no chuveiro, senta no banquinho e espera o carinho da mãe. O asseio vem com música: Nane ensaboa a mulata. A criança é muito pequena, não se cuida sozinha, mas recria o verbo do banho. Ensaboando tem o som reduzido. Buando é o gerúndio que ela apreende. Tomar banho se escreve buá – minha filha não escorrega o erre e acentua a vogal temática com firmeza.

Cambote
Substantivo masculino, parte do corpo do pai.
Alice pede para brincar comigo. Quer dar voltas no ar até ficar tonta, ou ser levada pelos pés com os cabelos lambendo o chão. Eu não tenho mais pique: proponho uma dança, mas a valsa no colo dura pouco. A criança insiste, quer ir além: estar mais perto do céu parece ser a solução. Cambote é pescoço e pode ser escada. Felizmente, ela é miúda e as dores que vêm à noite não atrapalham o meu sono.

Estremida
Adjetivo sazonal, dos meses mais frios.
Depois da aula de natação, batendo os dentes, Alice pede a toalha. Faz questão de mostrar os pelinhos eriçados e diz: olha como eu estou estremida, pai! Arrepiada foi a primeira palavra que ganhou sinônimo no glossário de palavras encantadas.

Mandora
Substantivo feminino de personalidade forte.
O que sai da garganta da menina é uma ordem: eu sou a mandora, pai! A palavra não contém erro de digitação, e trocar letras não será suficiente para explicar seu significado. No sofá, estamos prontos para começar o jogo; temos os controles enlaçados nos pulsos e a tela aguarda nossas primeiras decisões. Alice é o jogador número 1, vai comandar a brincadeira. Mandora significa líder.

Desfiloso
Adjetivo indefinido.
Alice vê o cartaz na saída do cinema e repete a propaganda da televisão: já está nas lojas, mãe! Nane explica que é o quarto de uma série de filmes e convida a menina para ver o primeiro. Ela aceita, desde que seja na mesma tarde. Alguns dias depois, curada da ansiedade e ainda curtindo as férias, reconhece os Piratas da Disney. Sobre Jack Sparrow, a filhota comenta: ele é muito desfiloso.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Aqui é o Metrô

Deixei o carro na garagem na manhã de sexta, feriado do padroeiro. Peguei o ônibus na Real Grandeza para atravessar o túnel e descer a Siqueira Campos recordando os tempos de escola, daquele último ano do primeiro grau, quando éramos quatro ou cinco andando pelas ruas na volta para casa. Saltei perto na estação do metrô para matar a estranha saudade de caminhar em Copacabana – gente demais, desordem demais para o meu gosto. Parei para tomar meio litro de mate com menta – fazia calor, também demais para mim. Virei na esquina da Nossa Senhora de Copacabana, em frente à praça, para experimentar as novidades de um roteiro quase esquecido. Entre a papelaria e o cinema Ricamar, que só existem na memória, encontrei um foco de resistência: o Traiteurs de France. Ali, no último desvio antes do meu destino, comprei uma caixinha de macarons para os meus pais.

Alice me esperava. Mais cedo, ao telefone, ela tinha recusado a conversa. Não queria voltar para casa, sequer me ouvir. O passa-fora no pai valeu uma bronca e uma ameaça: perder a oportunidade de saber quais eram os meus planos para aquele dia.

Deixamos meus pais depois de assistir a um desenho animado. Pegamos o elevador social porque o outro não funcionava. Subimos a Rodolfo Dantas contra a correnteza, contra o fluxo de quem se dirigia à praia para aproveitar o dia ensolarado. Caminhamos até a estação Cardeal Arcoverde, onde anunciei: aqui é o metrô, filha. Carregamos o cartão e passamos pela roleta. Tudo era novidade: a escada rolante pareceu longa demais e o túnel colorido... maneiro, pai! As esteiras estavam desligadas, e assim mesmo passamos por elas. Mais a frente, de outra escada, vimos o trem partir: aquele vai para Ipanema, expliquei. Sentamo-nos nas cadeiras brancas para esperar a nossa vez, que demorou tempo bastante para curtirmos o silêncio e a ideia de que estávamos dentro de uma montanha. Terminamos contando quantas pessoas embarcariam com a gente: éramos sete.

Alice estava se divertindo. Mais cedo, ao telefone, acabei perguntando se ela queria conhecer o metrô. Arrependida, ela mudou de humor. Ansiosa, pediu desculpas. Eu mantive a bronca e, claro, o roteiro da aventura.

O vagão nos deixou na estação seguinte. A viagem durou o tempo de uma explicação sobre as cores dos assentos – Alice estava pronta para oferecer os nossos lugares de cor laranja. O calor nos aguardava do lado de fora da estação e mereceu a trilha sonora que cantamos para atravessar o deserto: Ala-la-ô-ooô-ooô. O caminho das calçadas estreitas de Botafogo é aquele que percorro ao menos três vezes por semana; Voluntários da Pátria é a rua que Alice reconhece nas esquinas, nas lojas e na casa do mistério – a visita à Igreja de São João Batista ficou para o domingo.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Epifania

Foi uma decepção quando substituíram a surpresa pelo feijão. A irmã queria encontrar o anel da princesa; mas o gatinho de porcelana também servia. A avó francesa, que não comia feijoada, muito menos farofa, até fazia algumas concessões – a coroa vermelha do Medieval Times, por exemplo, durante muitos anos substituiu a dourada, que acabava rasgando com o tempo ou não era tão firme quanto deveria. Por isso, o consenso: feijão era demais, quase ultrajante. Antes fossem as favas de fato.

A Galette de Rois era comprada pertinho de casa, em Copacabana, e a celebração se dava no lanche do fim de tarde, depois que o pai chegava do trabalho. A mãe cortava as fatias e as colocava cuidadosamente nos pratos. Fazia sempre aquela cara de sonsa, de que não sabia onde estava a surpresa ou o feijão; como se estivesse procurando, chegava a cavoucar o recheio para disfarçar. Porém, a conspiração ia muito além da teoria, as duas crianças mais velhas tinham certeza.

Ficou óbvio quando começaram a aparecer convidados: o prato sorteado era daquele amigo que nunca havia participado da brincadeira. Ou, se fosse o caso da irmã levar o namorado, o feijão seria dela, claro. A princesa colocaria então a coroa na cabeça do consorte, momento que valia também a cara de decepção do pai, o presunçoso rei do pedaço. O irmão mais velho achava graça, enquanto raspava o recheio e deixava as casquinhas de lado.

À namorada, o rapaz teve que avisar: fazia parte do pacote pagar micos como aquele e o convite era quase uma intimação. Escolhida rainha, ela acabou gostando da ideia, tanto que se casou com o tal, um nobre franco-tupiniquim de meia tigela.

Neste 6 de janeiro, em sua própria casa, atrás de uma sobremesa, ele encontra meia romã sobre a pia da cozinha e sente falta da avó sentada à cabeceira dirigindo a cerimônia. Lembra-se do irmão mais novo, temporão, e dela tentando equilibrar a coroa entre bochechas para uma foto. E também da estreia da filha, que girava os olhos sem quase mexer a cabeça, tentando entender os motivos daqueles singelos sorrisos a sua volta, os mesmos que ela vê agora refletidos no rosto do pai enquanto aguarda impaciente o doce que pediu.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Catapluft

Deitei a mão esquerda sobre o despertador ao primeiro toque, a palma acionando a função soneca para prolongar a minha preguiça por mais 8 minutos. Porém, ao mesmo tempo, o polegar consciente empurrou o botão que desligava o alarme e abriu o parêntese.

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Naquela época, eu tinha uma pequena tarefa a cumprir e, àquela hora, o aparelho conseguia tirar-me da cama, coisa que nem o choro da criança conseguia fazer nas horas escuras da madrugada. Às 7h30 eu me levantava, ia ao banheiro e dali para o quarto dela, um bebê ainda, que costumava abrir os olhos assim que eu entrava e fazer alguns muxoxos depois de me ver.

Ela já sentava, não falava e, por isso, nós nos surpreendíamos a cada dia com a capacidade de compreensão daquela pequena criatura. Eu já sabia que os bebês se sentem seguros com os rituais; então dizia sempre assim, depois do sorriso e do bom dia: vamos trocar a fralda, minha filhinha. Entre a pergunta e a afirmação, era uma espécie de convite que chegava de braços esticados, os mesmos que a levavam para o trocador.

Lá, ficava sentadinha, esperando uma palavra mágica: catapluft era a senha para ela se deitar com a ajuda das minhas mãos, e o aviso de que a desagradável seção de limpeza estava para começar. Era, de fato, uma invasão e eu me sentia na obrigação de pedir licença. Assim, eu antecipava todos meus movimentos: vou tirar a fralda, fofinha; agora é hora de limpar o bumbum... Também não me esquecia de repetir meu pai: fazer um sanduíche de pezinhos com manteiga, queijo e presunto para tascar uma suave mordida.

Tarefa cumprida, colocava meu bebê no colo e íamos até a porta do quarto, onde conversávamos com a bonequinha de cabelos amarelos e vestido lilás, que está ali até hoje, pendurada no banquinho, logo abaixo de uma placa que marca o território com o nome dela. Eu costumava repetir as sílabas para a minha filha enquanto o meu indicador percorria as letras e fechava o parêntese.

)

Como eu ia dizendo, deitei a mão esquerda sobre o despertador... e cumpri os passos da minha tarefa rotineira até colocar Alice sentada no trocador. Naquele dia, quando anunciei o catapluft, ela não esperou pelas minhas mãos: abriu um sorriso e se jogou para trás.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Pacto de Natal

Alice acordou bem cedo no sábado para cumprir o que combinamos na noite anterior. Entrou no quarto e eu despertei com seus passinhos. Contornou a cama para me cutucar e sussurrar: Vamos, papai! Um pouco zonzo, olhei para ela e para o relógio: 7h52. Para não despertar a Nane, fiz sinais para que me esperasse na sala e fui ao banheiro. Troquei logo de roupa para não precisar voltar depois. Quando cheguei à sala, expliquei que era muito cedo, que as lojas ainda não estavam abertas. Tínhamos que fazer o tempo passar.

Fui para a cozinha, onde preparei o Toddy e tirei do cacho dez uvas verdes sem caroço. Deixei tudo sobre a bandeja no braço do sofá e abri a porta para pegar o jornal, como sempre, jogado sobre o capacho. Sentei-me ao lado de Alice, que me ofereceu as uvas. Peguei duas e agradeci. Separei o Globinho para ela ler; ou melhor, para ver os desenhos da última página e as idades das crianças que os fizeram. Depois, ela pediu para ver TV. Topei e foi boa distração enquanto eu lavava a louça.

Às 9h30 decidi sair: talvez as lojas já tivessem abertas por causa do Natal, que seria dali a uma semana. Ela se vestiu sozinha e colocou os chinelos. Do lado de fora, o dia estava lindo, o céu azul e a maior parte das portas ainda fechadas. Caminhamos então até a esquina, atravessamos duas ruas e fomos até a banca de jornal. Ali, ela me mostrou diversas revistas, e eu me distraí com outras. Deixei que ela escolhesse uma. Levou aquela que vinha com um brilho para os lábios de brinde e tinha na capa a personagem de um programa de TV chamada Vitória – a preferida da vez.

De lá, propus que fôssemos à lojinha de produtos naturais e ela não se opôs. No caminho paramos em frente a uma vitrine cheia de roupas infantis. Ela me mostrou todas as que gostaria de ganhar, enquanto procurava personagens nas estampas. Àquela altura, as lojas começavam a abrir: quis entrar, mas eu disse que não. Seguimos em frente, sem reclamações. Em nosso destino, sentamo-nos à mesa para tomar um suco, um mate e lermos juntos a revista comprada na banca. De tão comportada, Alice ganhou um doce para depois do almoço.

Na volta, encontramos enfim todas as portas abertas. Sem rodeios, entramos na loja combinada. A vendedora perguntou o que queríamos e eu disse que era com a menina. Mesmo se enrolando em minhas pernas, acometida por súbita vergonha, ela não hesitou. Em silêncio, mas com convicção, Alice levantou o dedo e escolheu o presente que daria para mãe. Eu cheguei a duvidar daquela certeza, a moça veio com alternativas, mas ela não mudou de ideia. Saiu de lá satisfeita com a compra e excitada com a parte seguinte do plano.

Quando entramos em casa, às 10h20, Nane já estava acordada. Alice tentou disfarçar fazendo gracinhas, dando risadas, fechando com as mãos os olhos da mãe, enquanto eu me dirigia para o quarto para esconder a sacola com o presente dentro do armário.

Por mais vontade que tenha, ela resiste à tentação de contar porque aprendeu a gostar do jogo. Por mais que eu conte, eu gosto também e manterei aqui o pacto firmado entre pai e filha: caberá somente à mãe revelar o presente de Alice.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Feitiço da Ilha

A lembrança do filme do pavão me veio na sexta-feira, enquanto esperávamos a balsa, depois de revezarmos ao volante durante tempo equivalente aos oito CDs que separamos pouco antes de sair de casa. Estávamos ali com Alice para uma rara reunião de família e um casamento na praia. Resultado do cansaço das horas de estrada e do tédio pela espera na fila, o jogo de associações inusitadas aconteceu assim mesmo: a ilha, o pavão, as drag queens, um filme, outro e histórias de amor.

A ilha nada tinha com João Ubaldo, até porque não havia feitiço por ali. Mas a Ilhabela, que era o nosso destino, me trouxe a tal lembrança: Alice pedindo para assistir ao filme do pavão. Naquele dia, em casa, gargalhei porque logo concluí que ela falava de Priscilla, a rainha do deserto. E o pavão só podia ser uma das drag queens.

Ela viu o filme pela primeira vez num dia de surto, daqueles que a mãe não sabe mais o que inventar para distrair a criança e ter um pouco de paz. A novidade funcionou: a menina vidrou os olhos na tela e sossegou. Depois, passou a cantar e repetir Mamma Mia vezes sem fim. Porém, eu tinha me esquecido que Alice costumava se referir à história de outra forma – simplesmente o filme dos meninos que se vestem de meninas. Tão óbvio quanto mais misterioso começou a me parecer o pavão. Ela se esforçou para caprichar na explicação: o filme tinha um menino, que gostava de uma menina, que virava... um falcão chamado Michelle Pfeiffer! Como se fosse um jogo de mímica, enfim matamos a charada: ela queria ver o Feitiço de Áquila.

Dentro do carro, com o ar desligado e as janelas abertas, consegui esboçar um sorriso ao completar o ciclo das associações inusitadas. A história de Isabeau e Etienne me trouxe de volta aos motivos da viagem, a fila andou e a balsa nos levou para a ilha.

Ali, no dia seguinte, os noivos contaram a sua própria história de amor. Escolheram uma celebração casual, com os pés na areia. Na praia, curiosos que estavam ali de bobeira, curtindo o sábado de sol, e alguns convidados que vinham de bem longe (de distâncias muito maiores que os nossos oito CDs) se juntaram para assistir à cerimônia. Sobrinhas e primas abriram o caminho para noivos: Alice era uma das flower girls e estava vestida a caráter, com flores brancas no cabelo, rosas e vermelhas na roupa. Pouco antes do pôr-do-sol, o irmão do noivo celebrou o casamento; a tia discursou para noiva; e Nane discursou para o primo (mesmo emocionada, ela não deixou de revelar os podres; mas ninguém se lembra disso, nem o noivo). A festa continuou no restaurante à beira-mar e só foi interrompida pelo sono das crianças.

No domingo, de novo na fila para barca, para passar o tempo, escrevi mentalmente frases aleatórias que me deram um rascunho de crônica. Tocava então o primeiro dos CDs...

Família ê! Família ah! Família!

E se nunca perdemos essa mania, os noivos vão concordar, não é por motivo de feitiço.

Enfeitiçado estou eu, enquanto escrevo.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Fugaz

Voltei a frequentar o Maracanã naquele ano difícil, 2008. A oportunidade de ver o meu time disputar a Libertadores foi a frágil válvula de escape que encontrei. Desde o primeiro jogo, aqueles 6 a 0 perfeitos no Arsenal argentino, eu me entreguei à religião do futebol nos fins de noite das quartas tricolores, naquele absurdo horário da televisão. Mas partidas perfeitas como aquela não funcionam em texto porque se bastam em tela. Devem ser vistas, de preferência, sem o narrador ou torcida. Para mim, o gol de Dodô no segundo tempo, por exemplo, merece ser objeto de exposição e pintado quadro a quadro. Por isso e para cumprir uma promessa antiga a uma amiga, deixo esse jogo de lado e fico entre dois épicos e uma tragédia – todos terminados com o mesmo placar: a vitória do Fluminense por 3 a 1.

Escolho o primeiro dos épicos.

Cheguei cedo ao Maracanã com meu pai e logo nos separamos para nos misturarmos. Cada um procurou seu canto para assistir ao embate dos tricolores, carioca e paulista. Eu me dirigi para o lado esquerdo das cabines de rádio, no alto das cadeiras especiais, perto da lanchonete. Ele ficou perto dos elevadores, também lá em cima. Para lidar com o nervosismo e o vento frio que ronda o estádio, é um hábito comum ficarmos de pé.

Os outros torcedores preenchiam aos poucos os espaços vazios, trazendo as cores que jamais empalidecem, abusando da criatividade nos gritos de guerra e nos jogos de luzes. No embalo de uma só voz, já com o estádio lotado, o show começou e o time logo correspondeu: antes dos 15 minutos, Washington, chamado de Coração Valente, abriu o marcador. Faltava muito tempo e mais um gol para nos dar a diferença de que precisávamos para chegarmos à semifinal do torneio. A arquibancada não perdeu o ritmo da empolgação; mas o time, com o passar do tempo, sim.

O segundo tempo começou mais tenso, com o adversário mais presente, interrompendo a cantoria da torcida em alguns momentos. O empate veio aos 25 minutos, junto com um silêncio quase definitivo. No entanto, não houve tempo para abatimento: nosso anti-herói argentino, Conca, encontrou Dodô no minuto seguinte. Ele marcou e, no meio da euforia dos que estavam em volta, corri para encontrar meu pai. Descabelado, ele não estava comemorando. Estava aliviado: ainda bem, ainda bem, suspirava enquanto nos abraçávamos. Sabia que assim a esperança não seria abalada. Retornamos aos nossos cantos para viver intensamente os minutos que restavam. As minhas emoções voltaram então a se apoiar no guarda-corpo que insistia em marcar meus braços.

A ansiedade nos dominava. A torcida empurrava o time e tentava fazer parar o tempo. A bola rondava a área do São Paulo, ricocheteava na defesa deles, teimava em fazer a nossa vontade. No entanto, ninguém arredava o pé porque, em momentos como aquele, dentro de nossas mentes insanas, a certeza se confunde com a esperança. No fim, ou as duas acabam juntas ou a primeira engole a segunda. E aconteceu assim: na última chance, num escanteio aos 46 minutos, dos pés de Thiago Neves para a cabeça de Washington, uma catarse jamais vista. Meia hora passada e ninguém ousava arredar o pé, tamanha a vontade de que aquilo durasse para sempre. Quando reencontrei os olhos do meu pai, vi apenas as lágrimas da felicidade fugaz, a mesma que levei para o travesseiro e não me deixou dormir naquela madrugada.