Não fazia muito tempo que eu tinha trocado a companhia da Jovem Pan por aquela fita cassete em minhas viagens diárias ao Fundão. A opção pela rádio era circunstancial: eu não tinha um setlist, nem pretendia encontrar uma trilha sonora; eu procurava companhia, mesmo que fosse a de um bate-estaca. Quando havia amigos que pegavam carona, eu desligava o som e preferia uma boa conversa – assunto não faltava. Até então, a minha relação com a música era assim, quase de pouco caso, talvez porque em casa houvesse discos por toda parte menos na vitrola.
Durante 21 anos, a trilha sonora da minha vida foi incidental. Quando criança, esbarrava com o carimbador maluco ou a Emília na televisão. Gostava muito do Gonzaguinha na voz de um amigo peruano do meu pai. Aprendi a respeitar o hino nacional por causa da Marselhesa que fazia a minha avó parar o que estivesse fazendo, levar a mão peito e chorar. Quase adolescente, eu dizia que gostava de samba, mas não conhecia quase nada. No ônibus da escola, sempre tocava Legião. Nas festas que aconteciam em um play em Botafogo, celebrava com os amigos duas versões de Kátia Flávia.
A tal fita mudou meus hábitos: uma boa conversa passou a ter música de fundo; perdeu o sentido interromper uma boa música depois de estacionar o carro na faculdade. Não foi assim, de uma hora outra: precisei ouvir o pedido de um amigo para me tocar. Certo dia, ele protestou quando parei o carro e girei a chave antes corrermos para a sala de aula. Não havia motivo para pressa. Estávamos numa ilha superpovoada, éramos estudantes de engenharia, éramos “Dust in the Wind”.
Se um amor traz muita novidade, no meu caso, trouxe música também, e o primeiro setlist estava na capa da fita que ganhei da Nane quando completamos um mês de namoro. A fita não existe mais, mas a capa está aqui, servindo como amuleto de memória ou cola de prova. Na verdade, não precisava dela para lembrar a primeira música das 24 músicas, “Because the Night”, que já era uma das minhas preferidas. Mas a cola serviu para eu reencontrar uma cartinha no verso da capa: ela esperava que eu guardasse lembranças desse amor no futuro.
Essas lembranças se revelam hoje quando ouço “Wuthering Heights” terminar no rádio e fico aguardando que a música traga Pink Floyd com “Wish You Were Here”.
Ou quando fico procurando “Vincent” atrás das portas (“Touch Me”).
Essas lembranças podem fazer diferença agora: antes de dormir, vou reorganizar as músicas no MP3 para dividirmos os fones de ouvido na cama.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
Antes o Chá
Eram 7 horas da manhã de algum dia de novembro de 2007 quando chegamos ao aeroporto de Sapezal. Esperáva-nos um Cheyenne. O avião, que um dos engenheiros que nos acompanhava insistia em chamar de ataúde voador, era pequeno, não comportava mais do que os cinco passageiros que voltavam da viagem a campo, mas o apelido não se justificava: longe de parecer um teco-teco, o pássaro era pressurizado. Colaboravam o horário e as condições meteorológicas. Assim, pousamos em Cuiabá menos de uma hora depois, sem turbulências.
Como o aeroporto de Cuiabá fica em Várzea Grande, distante do Centro, optamos por aguardar ali mesmo os voos cujas partidas estavam marcadas para horários bem próximos, todos em torno das 11 horas. Aqueles que partiam para Belo Horizonte e São Paulo embarcaram sem contratempos. Com um atraso tolerável, meia hora talvez, os dois que restávamos fomos chamados para a sala de embarque. A fila já estava formada quando um funcionário da Gol solicitou que os passageiros que tivessem o Rio de Janeiro como destino final se apresentassem no balcão. Lá nos informaram apenas que seríamos remanejados.
Os minutos seguintes foram tensos, com os passageiros preteridos cercando os funcionários do check-in em busca de respostas que não fossem evasivas. Demorou até que nos calassem com um voucher para o almoço e a promessa de que embarcaríamos em voo agendado para as 16h30. Contudo, a notícia completa era um pouco pior: trocaríamos uma escala em Brasília por outra em Campo Grande com destino a Guarulhos, onde trocaríamos de aeronave para, enfim, chegar ao Rio. Se tudo se resolvesse assim, como prometido, menos mal.
No entanto, o voo demorou a sair, o avião ficou mais tempo em solo que o previsto na escala pantaneira e chegamos a São Paulo após a última partida para o Rio, às 23 horas e alguns irritantes minutos. A paciência já tinha acabado e as respostas ainda eram imprecisas. Picolés da Häagen-Dazs nos ajudaram a relaxar, enquanto o suspense ainda durava e as alternativas ficavam entre passar a noite em hotel pago pela companhia aérea e embarcar em voo extra, o que, por fim, acabou acontecendo. Um avião velho, com assentos com cheiro de mofo e estofado puído, levou para o Rio uns 20 passageiros extenuados, além de alguns funcionários da própria empresa de aviação.
Para não dar mais chance ao azar, dispensamos o táxi comum quando chegamos ao Galeão. Ali nos despedimos, um do outro e os dois do quase interminável chá de cadeira com asas. Um pouco antes das 2 horas da madrugada, girei a chave de casa, louco por um banho e ainda pilhado demais para dormir.
No início de dezembro, soubemos que três semanas tinham nos separado de uma sopa de flechas: índios tinham acabado de invadir uma das hidrelétricas em construção que havíamos visitado. Meses depois, eles voltariam para botar fogo em tudo.
Antes o chá que a sopa queimando a garganta.
Como o aeroporto de Cuiabá fica em Várzea Grande, distante do Centro, optamos por aguardar ali mesmo os voos cujas partidas estavam marcadas para horários bem próximos, todos em torno das 11 horas. Aqueles que partiam para Belo Horizonte e São Paulo embarcaram sem contratempos. Com um atraso tolerável, meia hora talvez, os dois que restávamos fomos chamados para a sala de embarque. A fila já estava formada quando um funcionário da Gol solicitou que os passageiros que tivessem o Rio de Janeiro como destino final se apresentassem no balcão. Lá nos informaram apenas que seríamos remanejados.
Os minutos seguintes foram tensos, com os passageiros preteridos cercando os funcionários do check-in em busca de respostas que não fossem evasivas. Demorou até que nos calassem com um voucher para o almoço e a promessa de que embarcaríamos em voo agendado para as 16h30. Contudo, a notícia completa era um pouco pior: trocaríamos uma escala em Brasília por outra em Campo Grande com destino a Guarulhos, onde trocaríamos de aeronave para, enfim, chegar ao Rio. Se tudo se resolvesse assim, como prometido, menos mal.
No entanto, o voo demorou a sair, o avião ficou mais tempo em solo que o previsto na escala pantaneira e chegamos a São Paulo após a última partida para o Rio, às 23 horas e alguns irritantes minutos. A paciência já tinha acabado e as respostas ainda eram imprecisas. Picolés da Häagen-Dazs nos ajudaram a relaxar, enquanto o suspense ainda durava e as alternativas ficavam entre passar a noite em hotel pago pela companhia aérea e embarcar em voo extra, o que, por fim, acabou acontecendo. Um avião velho, com assentos com cheiro de mofo e estofado puído, levou para o Rio uns 20 passageiros extenuados, além de alguns funcionários da própria empresa de aviação.
Para não dar mais chance ao azar, dispensamos o táxi comum quando chegamos ao Galeão. Ali nos despedimos, um do outro e os dois do quase interminável chá de cadeira com asas. Um pouco antes das 2 horas da madrugada, girei a chave de casa, louco por um banho e ainda pilhado demais para dormir.
No início de dezembro, soubemos que três semanas tinham nos separado de uma sopa de flechas: índios tinham acabado de invadir uma das hidrelétricas em construção que havíamos visitado. Meses depois, eles voltariam para botar fogo em tudo.
Antes o chá que a sopa queimando a garganta.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Autoficção
Às segundas eu costumava sentar no sofá do consultório com os pés descalços e, fato raro, falar quase sem parar. Quando sobrava tempo para ouvir, o verbo se repetia: expandir. A cada vez que o assunto retornava, eu eliminava as possibilidades com a alegação mais sincera: falta de interesse. Acabei percebendo que apenas a minha satisfação pessoal seria capaz de trazer alternativas para a expansão. Por isso, terminava a sessão falando do blog, das ideias que tinha para divulgá-lo, do retorno que eu tinha dos amigos leitores, da surpresa que era escrever tanto e tão fácil. Foi assim que expandir se tornou sinônimo de escrever melhor.
A terapia já tinha passado a ser quinzenal quando me deparei com a ementa do curso de Autoficção da Estação das Letras. Reconheci ali boa parte dos meus textos em perguntas simples: “Ao lembrar, inventamos? Quem somos senão quem decidimos ser?” Percebi que a questão não era apenas escrever melhor, mas entender motivações e encontrar direções. Desde a primeira aula, o curso é uma extensão da terapia. Descobri que autoficção é um exercício de autoconhecimento, neste caso, feito em grupo formado por pessoas com a mesma vontade de transformar lembranças em histórias e de aprender a preencher os vazios de memória com letras.
A autoficção ocupa agora os instantes de inspiração ao longo da semana e as minhas noites de segunda. Por isso, a terapia temporariamente acontece em horário alternativo, em quintas alternadas. Lá continuamos a tratar de expansão, sem esconder a empolgação com o primeiro tiro: certeiro. Ela diz que eu encontrei a minha turma e eu não posso dizer que foi tarde: aos 37 anos, sou um dos mais novos aprendizes. Enquanto ela fica com uma boa quantidade dos marcadores de livro para divulgar o blog, eu fico imaginando quanta ficção preenche aquele consultório de releituras biográficas.
Não nego a ansiedade pela próxima aula, porque hoje, talvez pela primeira vez, a vontade supera a inibição: quero expor para depois reescrever. E para escrever melhor, preciso das críticas, quero ouvir o que dizem os colegas e a nossa orientadora, com mais esperança do que vergonha.
Aqui, alguma autocrítica me leva a questionar por que não vejo traço da ficção de que trata o curso e que promete o título. Só encontro uma explicação: se tudo o que escrevi é fato, os vazios foram preenchidos, também com letras, fora do texto.
A terapia já tinha passado a ser quinzenal quando me deparei com a ementa do curso de Autoficção da Estação das Letras. Reconheci ali boa parte dos meus textos em perguntas simples: “Ao lembrar, inventamos? Quem somos senão quem decidimos ser?” Percebi que a questão não era apenas escrever melhor, mas entender motivações e encontrar direções. Desde a primeira aula, o curso é uma extensão da terapia. Descobri que autoficção é um exercício de autoconhecimento, neste caso, feito em grupo formado por pessoas com a mesma vontade de transformar lembranças em histórias e de aprender a preencher os vazios de memória com letras.
A autoficção ocupa agora os instantes de inspiração ao longo da semana e as minhas noites de segunda. Por isso, a terapia temporariamente acontece em horário alternativo, em quintas alternadas. Lá continuamos a tratar de expansão, sem esconder a empolgação com o primeiro tiro: certeiro. Ela diz que eu encontrei a minha turma e eu não posso dizer que foi tarde: aos 37 anos, sou um dos mais novos aprendizes. Enquanto ela fica com uma boa quantidade dos marcadores de livro para divulgar o blog, eu fico imaginando quanta ficção preenche aquele consultório de releituras biográficas.
Não nego a ansiedade pela próxima aula, porque hoje, talvez pela primeira vez, a vontade supera a inibição: quero expor para depois reescrever. E para escrever melhor, preciso das críticas, quero ouvir o que dizem os colegas e a nossa orientadora, com mais esperança do que vergonha.
Aqui, alguma autocrítica me leva a questionar por que não vejo traço da ficção de que trata o curso e que promete o título. Só encontro uma explicação: se tudo o que escrevi é fato, os vazios foram preenchidos, também com letras, fora do texto.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Brincando com Espelhos
Sem muita paciência para os jogos habituais, peguei uma folha de papel em branco. Com o lápis e duas linhas, dividi a folha em quatro retângulos quase iguais e, em cada um deles, desenhei um número que ela pintou de vermelho. A brincadeira que propus consistia em contar uma história em quatro partes com ilustrações. Fiz o desenho no retângulo que tinha o número um e Alice ditou a primeira frase. Nós revezamos os lápis de cor e eu traduzi em letras toda a imaginação dela. No fim tínhamos três histórias. A terceira tinha três partes e a folha dividida em triângulos; criação minha, ali um menino e um porco eram amigos e gostavam de futebol. A versão dela apareceu no dia seguinte, com trapézios definindo os espaços e celebrando a amizade de uma menina com uma vaquinha. Ela mesmo desenhou as figuras e as letras que eu soletrava. Entre um quadro e outro, aprendeu a copiar, no modo arcaico do ctrl-C, ctrl-V, com os olhos: menina é igual a menina, se já escrevi não preciso perguntar de novo; e vaca é V-A, va, C-A, ca. Simples assim.
Na estante de livros que fica no quarto dela, no meio de tantos, fica aquele que eu escrevi: em folhas dobradas e grampeadas, está a menina que comia livros, com textos e ilustrações do papai, tiragem de exemplar único, em edição exclusiva da filhinha. A menina do conto tem medo de monstros, come os livros mas não leva os malvados para o estômago. Eles ficam na cabeça dela a noite inteira. Com lápis e papel, o pai traz a solução: escrever uma história, que ele inicia e ela termina: comendo os monstros para ter belos sonhos. Na última página, o pai realiza seu sonho, escreve um livro. Agora, Alice repete a personagem, quer também ser corajosa como o pai (sic) e publicar o seu. O título é quase óbvio: a menina que gostava de comer canetas (ela é geniosa, um tanto nervosa; imagine o estado da tampa de caneta que sobrar em suas mãos). As dobraduras e os grampos se repetem; também a letra A, que vira um chapeuzinho para a protagonista na capa. Os sete quadrinhos da história se condensam em uma única página: ali chovem canetas, que a menina busca na geladeira; ali o pai proíbe e a mãe autoriza. Nas outras folhas, dois contos menores: um desejo de chuva e outro, de moedas. Contrariando a lógica, lê-se da direta para a esquerda, espelhado. E o fim de cada história ocupa, em letras graúdas, páginas inteiras.
A brincadeira dos espelhos não termina com Alice. Com eles, recrio versões das nossas versões, como imagens repetidas infinitamente. Aqui os espelhos são feitos de ideias, papel e ocupam a tela de computador. Não há espaço para figuras, mas as formas e as cores se encontram na imaginação de quem lê.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Daniel no Buraco do Coelho
Daniel tem quarenta mil namoradas. Quem afirma é Alice, os olhinhos brilhando de orgulho. Eu faço careta, mamãe diz que é melhor escolher outro, porque as coisas não funcionam assim: namorado é um só. Quantas namoradas você acha que seu pai tem? Ela diz que duas e eu fico em maus lençóis. Ela ri e me salvo. Mas o Dani terminou com a Luiza, diz com sorriso inocente. É verdade, insiste, enquanto conto nos dedos as trinta e nove mil, novecentas e noventa e nove que sobraram. A minha pré-adolescente de seis anos sofre de amor. Dobra o papel em dois porque quer escrever um cartão para ele. Desenha flores de um lado, corações de outro e me pede para escrever com as letrinhas de mãos dadas. Eu não posso rir, adverte. E começa sua pequena fantasia com a Barbie no lugar de Alice. Daniel é o príncipe da Barbie. E, com tamanhos diversos, todas as outras frases começam com o mesmo sujeito composto: Daniel e Alice. Ela não percebe, mas são eles que estão com as mãos entrelaçadas por uma letra. Eu brinco com a ansiedade dela: enquanto escrevo que eles estão no baile, digo que foram para o lixo; faço dele uma borralheira e o príncipe logo vira um tampinha. Deixo a menina nervosa; mas, quando não há mais espaço de um lado da folha, eles são felizes para sempre. Do outro lado, porém, o ciúme aparece na primeira frase. Concluo que Rani, a concorrente, também tenha terminado com ele. E agora, quantas restaram, além da minha própria filha? Alice gosta da ideia que tive, a de passear no bosque, e eles partem para lá na frase seguinte. Eu revejo minha sugestão e trago o lobo para resolver o problema. Na história que conto, Daniel já era, enche uma barriga enorme junto com a vovozinha. Na narrativa dela, escrita de fato, eles retornam do bosque para dormir; acordam e vão ao museu. Eu me pergunto, então, se o rapaz consegue acompanhar a minha menina até o país das maravilhas, onde o queijo branco é o brie e o bacalhau não dá vez à sardinha. Exigente, no último espaço que resta, ela ainda leva o menino ao casamento da Giulia. (Ele sabe mesmo onde está se metendo? No buraco do coelho, tudo acontece muito, muito rápido; por isso, o orelhudo está sempre atrasado.) Deixo príncipe sapo e outros bichos de lado e, por fim, releio com Alice cada frase do cartão, sem desvios para quaisquer dos meus labirintos imaginários. Com letras de forma, ela desenha o fim. Agradece com os olhos ainda brilhando, e eu ganho mais um beijo no dia dos pais.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Cardápio de Memórias
Inspirado no desafio da final da segunda temporada de Top Chef Masters, escrevo aqui meu cardápio de memórias. Nele, a cronologia se sobrepõe ao convencional e a sobremesa intercala pratos quentes.
Se da expectativa pelo leite materno não tenho qualquer lembrança, começo pelos pesados almoços de domingo: rabada com agrião ou dobradinha com feijão branco. Eram artes de minha mãe, que ainda me fazem salivar e agora ignorar as entrelinhas para pedir, com toda a cara-de-pau que um filho pode ter, quatro conchas da dobradinha num pote de plástico da próxima vez, por favor. Neste caso, exclusivo porque sem concorrência. Soube disso quando, em princípio de namoro, usando como desculpa a ascendência dela, levei Nane ao restaurante A Polonesa em Copacabana. Muita coragem da minha parte não resistir à dobradinha ao curry, que os olhos dela fizeram questão de evitar durante toda a noite.
A minha ascendência francesa é, claro, responsável pelo despertar da minha curiosidade gastronômica. A minha vontade de cozinhar se confunde, às vezes, com necessidade de tentar reproduzir os sabores que a minha avó nos proporcionava, embora meu paladar tenha uma leve preferência oriental pelos temperos. Sem me esquecer do inesquecível patê de fígado, eu escolhi uma sobremesa para este parágrafo do cardápio. O Malakoff só dava o ar de sua graça no Natal. Era montado sobre uma fôrma cônica, coberta de biscoitos champagne que, encomendados especialmente para a ocasião, eram molhados no kirsch. Os biscoitos, colocados lado a lado, em diagonal, escondiam o recheio - um delicioso creme de amêndoas, que eram antes cuidadosamente descascadas em água quente. Depois de desenformada, a torta recebia cerejas e as amêndoas restantes para enfeitar.
Ao fogão, sou bagunceiro e vivo de improvisos. Daí a minha preferência por risotos – não aqueles de mamãe, feitos no dia seguinte ao banquete, mas os tradicionais italianos preparados com arroz arbóreo. Acompanhei toda a elaboração do prato pela primeira vez num jantar entre amigos: era um risoto de funghi. Decidi a partir daquele dia me aventurar e logo passei a trocar ingredientes ou me virar com o que restava na despensa e na geladeira. A cozinha se tornou de vez terapia, diversão com aqueles e outros amigos, função de marido e pai nos afazeres domésticos. Dos meus experimentos, prefiro o risoto catupirinha, onde troco o vinho por boa cachaça, uso limão (de preferência, o siciliano) e uma quantidade apenas suficiente catupiry. O prato pode fazer companhia a um salmão com molho teriyaki ou ser o centro das atenções quando repleto de camarões.
Considero o meu desafio cumprido em parte, porque preciso viabilizar o cardápio, dividindo-o em duas refeições: a dobradinha com feijão branco no almoço e o risoto catupirinha com camarões no jantar. Em ambas, ofereceremos salada verde à vontade, com molho de mostarda da Mami que também tentarei reproduzir. Como não sobrarão fatias do Malakoff para a noite, a Nane irá reservar seus imperdíveis cupcakes de cenoura com gotas de chocolate que estão no freezer e preparar o ganache. Falta apenas combinar o dia. Sugestão: meu aniversário se aproxima. Compromisso: para não correr risco de ser posto para fora de casa a vassouradas na manhã seguinte, será providenciada ajuda profissional para limpar a cozinha.
Se da expectativa pelo leite materno não tenho qualquer lembrança, começo pelos pesados almoços de domingo: rabada com agrião ou dobradinha com feijão branco. Eram artes de minha mãe, que ainda me fazem salivar e agora ignorar as entrelinhas para pedir, com toda a cara-de-pau que um filho pode ter, quatro conchas da dobradinha num pote de plástico da próxima vez, por favor. Neste caso, exclusivo porque sem concorrência. Soube disso quando, em princípio de namoro, usando como desculpa a ascendência dela, levei Nane ao restaurante A Polonesa em Copacabana. Muita coragem da minha parte não resistir à dobradinha ao curry, que os olhos dela fizeram questão de evitar durante toda a noite.
A minha ascendência francesa é, claro, responsável pelo despertar da minha curiosidade gastronômica. A minha vontade de cozinhar se confunde, às vezes, com necessidade de tentar reproduzir os sabores que a minha avó nos proporcionava, embora meu paladar tenha uma leve preferência oriental pelos temperos. Sem me esquecer do inesquecível patê de fígado, eu escolhi uma sobremesa para este parágrafo do cardápio. O Malakoff só dava o ar de sua graça no Natal. Era montado sobre uma fôrma cônica, coberta de biscoitos champagne que, encomendados especialmente para a ocasião, eram molhados no kirsch. Os biscoitos, colocados lado a lado, em diagonal, escondiam o recheio - um delicioso creme de amêndoas, que eram antes cuidadosamente descascadas em água quente. Depois de desenformada, a torta recebia cerejas e as amêndoas restantes para enfeitar.
Ao fogão, sou bagunceiro e vivo de improvisos. Daí a minha preferência por risotos – não aqueles de mamãe, feitos no dia seguinte ao banquete, mas os tradicionais italianos preparados com arroz arbóreo. Acompanhei toda a elaboração do prato pela primeira vez num jantar entre amigos: era um risoto de funghi. Decidi a partir daquele dia me aventurar e logo passei a trocar ingredientes ou me virar com o que restava na despensa e na geladeira. A cozinha se tornou de vez terapia, diversão com aqueles e outros amigos, função de marido e pai nos afazeres domésticos. Dos meus experimentos, prefiro o risoto catupirinha, onde troco o vinho por boa cachaça, uso limão (de preferência, o siciliano) e uma quantidade apenas suficiente catupiry. O prato pode fazer companhia a um salmão com molho teriyaki ou ser o centro das atenções quando repleto de camarões.
Considero o meu desafio cumprido em parte, porque preciso viabilizar o cardápio, dividindo-o em duas refeições: a dobradinha com feijão branco no almoço e o risoto catupirinha com camarões no jantar. Em ambas, ofereceremos salada verde à vontade, com molho de mostarda da Mami que também tentarei reproduzir. Como não sobrarão fatias do Malakoff para a noite, a Nane irá reservar seus imperdíveis cupcakes de cenoura com gotas de chocolate que estão no freezer e preparar o ganache. Falta apenas combinar o dia. Sugestão: meu aniversário se aproxima. Compromisso: para não correr risco de ser posto para fora de casa a vassouradas na manhã seguinte, será providenciada ajuda profissional para limpar a cozinha.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Dominó em Braille
Hoje é segunda-feira. Papai chegou mais cedo que o normal e de cabelo cortado. A criança nem desconfiava. Mas, quando encontrou a avó no portão da escola, decidiu ir para casa sem fazer o tradicional pit-stop na vizinha, que mora dois andares abaixo. Do lado de dentro do apartamento, com certa apreensão, pai e mãe ouviram os gritinhos que se aproximavam no corredor, distribuindo ordens. Abra a porta, mamãe! Agora! O pai abriu e sorriu. Rá. A avó deu beijos de boa noite para cada um e logo se retirou. A menina ficou, achando graça das próprias piadas, pedindo por favor ao papaizinho e dizendo obrigado à mamãezinha. Que bicho a mordeu, não se sabe ainda.
Pediu para ver um filme, aceitou sem questionar o que já estava no aparelho desde a manhã de domingo e não reclamou sua cena favorita ou o trecho que o capricho do momento às vezes exige. Assistiu ao desenho animado sem fome ou sede, deixando a mãe trabalhar um tempo a mais em sua tradução e o pai atualizar a planilha das contas do mês no computador. Tanta surpresa merecia atenção e ele largou os números da economia doméstica para propor um jogo, como há algum tempo já não faziam. Sem titubear e mantendo o ritmo da boa vontade, ela desligou a televisão e foi ao quarto escolher o brinquedo da vez. Pacientemente, esperou o pai preparar o sanduíche de muzzarela com tomate e orégano, enquanto organizava as peças da Torre de Pisa no chão.
A tal da torre não rendeu e ela topou trocá-la pelo dominó. Espalharam as pedras barulhentas pelo chão e começaram a jogar. Mesmo quando ela não dispunha dos números para prosseguir, a carinha de insatisfação não trazia mau-humor. Era uma gargalhada a cada vez que o pai dizia: Ih! Acho que me dei mal. As mãozinhas buscaram tantas peças que o dono do jogo venceu a primeira partida. A segunda veio com uma novidade. A menina ditou uma nova regra: Não pode ver, papai! Ele só entendeu a ideia quando os dedos minúsculos deslizaram sobre uma das pedras e contaram cada uma das cavidades que se traduziam em números. A mãe, aparentemente concentrada no trabalho, vibrou com a variante criada pela filha, e o pai propôs que colocassem vendas nos olhos numa próxima vez.
Na metade da segunda partida o jogo voltou à sua regra normal e ela venceu sem dificuldades. Iniciaram a negra logo que a mãe anunciou faltarem 10 minutos para a hora de dormir. O tempo era curto. Para evitar argumentações típicas pré-cama, a anarquia correu solta e ela virou o jogo depois de reduzir à metade as peças compradas: 2x1. Mais surpresas vieram em seguida, quando o pai teve que ficar com os olhos fechados para que ela guardasse o jogo no armário da sala e cumprisse toda a rotina da noite apenas com a ajuda da mãe, repetindo infinitas vezes: Não pode ainda, Não pode, Ainda não pode... Quando ele abriu os olhos, ela estava sorrindo, esparramada no chão, com umas das pernas para cima. Pronta para dormir.
Mas irrepreensível é uma palavra rara: uma hora e meia depois, o pai terminou de escrever a história e ela ainda não dormiu. Já levantou três vezes sem assuntos para inventar e agora tagarela sozinha no quarto.
Pediu para ver um filme, aceitou sem questionar o que já estava no aparelho desde a manhã de domingo e não reclamou sua cena favorita ou o trecho que o capricho do momento às vezes exige. Assistiu ao desenho animado sem fome ou sede, deixando a mãe trabalhar um tempo a mais em sua tradução e o pai atualizar a planilha das contas do mês no computador. Tanta surpresa merecia atenção e ele largou os números da economia doméstica para propor um jogo, como há algum tempo já não faziam. Sem titubear e mantendo o ritmo da boa vontade, ela desligou a televisão e foi ao quarto escolher o brinquedo da vez. Pacientemente, esperou o pai preparar o sanduíche de muzzarela com tomate e orégano, enquanto organizava as peças da Torre de Pisa no chão.
A tal da torre não rendeu e ela topou trocá-la pelo dominó. Espalharam as pedras barulhentas pelo chão e começaram a jogar. Mesmo quando ela não dispunha dos números para prosseguir, a carinha de insatisfação não trazia mau-humor. Era uma gargalhada a cada vez que o pai dizia: Ih! Acho que me dei mal. As mãozinhas buscaram tantas peças que o dono do jogo venceu a primeira partida. A segunda veio com uma novidade. A menina ditou uma nova regra: Não pode ver, papai! Ele só entendeu a ideia quando os dedos minúsculos deslizaram sobre uma das pedras e contaram cada uma das cavidades que se traduziam em números. A mãe, aparentemente concentrada no trabalho, vibrou com a variante criada pela filha, e o pai propôs que colocassem vendas nos olhos numa próxima vez.
Na metade da segunda partida o jogo voltou à sua regra normal e ela venceu sem dificuldades. Iniciaram a negra logo que a mãe anunciou faltarem 10 minutos para a hora de dormir. O tempo era curto. Para evitar argumentações típicas pré-cama, a anarquia correu solta e ela virou o jogo depois de reduzir à metade as peças compradas: 2x1. Mais surpresas vieram em seguida, quando o pai teve que ficar com os olhos fechados para que ela guardasse o jogo no armário da sala e cumprisse toda a rotina da noite apenas com a ajuda da mãe, repetindo infinitas vezes: Não pode ainda, Não pode, Ainda não pode... Quando ele abriu os olhos, ela estava sorrindo, esparramada no chão, com umas das pernas para cima. Pronta para dormir.
Mas irrepreensível é uma palavra rara: uma hora e meia depois, o pai terminou de escrever a história e ela ainda não dormiu. Já levantou três vezes sem assuntos para inventar e agora tagarela sozinha no quarto.
Assinar:
Postagens (Atom)