Sentávamos em torno da mesa redonda, de costas para a janela que dava para o mar, ao lado de um espelho enorme que ocupava quase toda a parede da sala de jantar na casa da minha avó. A diferença de idade não era tão grande, mas eu era o professor – particular, de matemática. Professor ainda estudante. A aluna vestia de preto sua adolescência, seus motivos e mistérios. Tinha olhos de quem pouco dormia. Era uma menina muito compenetrada, prestava uma atenção enorme àquilo que eu dizia, exercitava as fórmulas da 6ª ou 7ª série sem reclamar. Vinha sempre acompanhada pela avó, uma senhora alta, muito bem vestida, que permanecia sentada na poltrona da sala de estar durante toda aquela hora de números e variáveis. A avó passava o tempo lendo, um livro que depois me deu de presente. E não foi o único: ganhei também outro livro, um de receitas de coquetéis, que deve estar guardado ainda no quarto ao lado da mesma sala espelhada que abrigava a mesa redonda.
Foram alguns meses de insistente silêncio até que resolvi provocar. Eu queria vê-la reagir, contar alguma coisa. Para conseguir o que queria, levei à mesa alguns de meus poemas. Interrompi a aula para mostrar um deles. Se por respeito apenas, eu não sabia ainda, mas ela mostrou interesse. Talvez tenha lido mais de um e, dando-me certeza, falou de si pela primeira vez: ela também escrevia poemas. Ela os trouxe na aula seguinte. Os temas eram da cor que ela vestia. Lembro que havia uma aranha no meio dos versos.
Não foi a única vez que intrometi poesia durante uma aula de matemática. O outro aluno era ainda mais silencioso (ao contrário dela, o silêncio dele começava nos olhos, os mesmos que se recusavam a me encarar). Entre nós, ele impunha uma distância quase cínica. Certa vez, com a aula chegando ao fim, ele quase cantou: vou-me embora, vou-me embora... Antes que me derrubasse com as evidências de uma aula entediante, perguntei se ele iria para Pasárgada. Pela primeira vez, ele sorriu também com os olhos. Voltei a perguntar: você é amigo do rei? Veio então outro sorriso, ainda maior que o primeiro: eu sou o rei. A partir daquele dia, as aulas passaram a ser realmente divertidas, até para mim, o bobo da corte. Ele foi meu aluno em sala de aula também, época em que li o livro que ele mesmo escreveu.
Há poucos anos, encontrei o rei de Pasárgada no Orkut. Contrariando as minhas expectativas, ele estudava Física. Dela, ficou apenas a recordação da avaliação que fez da minha aula e a maior recompensa que tive como professor particular em qualquer tempo: se me faltava experiência, aquela era uma hora de paz.
sábado, 21 de maio de 2011
domingo, 15 de maio de 2011
Sem Folga, Mãe
A baixinha acorda mal-humorada. Beijinho discreto na mãe, senta-se no sofá, estica o braço para receber o Toddy, que sempre fica pronto antes que ela se levante, e pede: Quero ver televisão. Não tem por favor, é uma ordem. E não quer saber de mim. Focada na tela, não se mexe quando lembro que temos um presente para dar e um show para apresentar. Demora um tempo ainda, espera pelo fim do programa para buscar a sacolinha de papel escondida no meu armário. Com as mãos para trás, faz mistério com sorriso sapeca. Está acordando, parece. O pingente em forma de coração faz a mãe sorrir. Acordou de vez: pirraças contínuas fazem a mãe fechar a cara. Hora do show, então. Ainda com a calça do pijama, para contrariar. Cumprimos o combinado no sábado. O CD toca Doce Mel e seguimos a coreografia que ela inventou, com algum improviso, claro. Depois, o show continua com Zélia Duncan, que nos ajuda a dizer que mamãe será feliz e todos... serão também! Mamãe sorri de novo, das nossas maluquices, e ganha um beijo duplo no final. Agora, a pequena quer ensaiar no dia de se apresentar. Troca o CD da infância da mãe, e de outras mães, por Glee. Diante de alguma hesitação minha (estou cansado; com preguiça para qualquer atividade física que não tenha sido prevista), mais pirraça. Resmunga, faz beiço, contorce o rosto... Será que criança não se toca? Não é assim que se consegue as coisas. A ladainha se repete e a mãe se aborrece, de novo. Eu topo encarar o ensaio, mas sem choro. Ela quer uma música que tenha um menino e uma menina cantando. Eu danço, sempre, e ela canta em seu dialeto preferido: o inglês embromado.
Vamos então almoçar com a minha sogra, mãe da mãe da baixinha. As outras mães ainda dominam a programação. A mãe da baixinha se pergunta, com razão, quando será a vez dela. Quando for avó? Por outro lado (o meu), a solução foi dada antes: um café da manhã no sábado, cuidadosamente marcado, para compensar a falta do almoço, para o horário não ficar apertado para a festa às quatro da tarde, de um amigo da escola – imperdível, então. O domingo não é diferente, com programação intensa: temos o aniversário de uma amiga da mãe, mãe também, no início da noite.
Quando o fim de semana termina, formulo algumas conclusões...
Ser mãe é não se esquecer das outras mães – as suas, as agregadas e as periféricas.
Ser mãe é aguentar a falta de tempo dos filhos maiores e a insolência dos filhos menores (insolente é termo de avó, que é mãe do pai ou da mãe, que é mãe ao quadrado).
Ser mãe é ter que contar com um marido tonto (euzinho), meio perdido no meio de tantas mulheres, oferecendo uma massagem à tarde, entre o almoço que passou e o jantar que virá.
O dia das mães não é como o dia do trabalhador. Porque ser mãe é ser mãe até no dia das mães. Sem folga.
Vamos então almoçar com a minha sogra, mãe da mãe da baixinha. As outras mães ainda dominam a programação. A mãe da baixinha se pergunta, com razão, quando será a vez dela. Quando for avó? Por outro lado (o meu), a solução foi dada antes: um café da manhã no sábado, cuidadosamente marcado, para compensar a falta do almoço, para o horário não ficar apertado para a festa às quatro da tarde, de um amigo da escola – imperdível, então. O domingo não é diferente, com programação intensa: temos o aniversário de uma amiga da mãe, mãe também, no início da noite.
Quando o fim de semana termina, formulo algumas conclusões...
Ser mãe é não se esquecer das outras mães – as suas, as agregadas e as periféricas.
Ser mãe é aguentar a falta de tempo dos filhos maiores e a insolência dos filhos menores (insolente é termo de avó, que é mãe do pai ou da mãe, que é mãe ao quadrado).
Ser mãe é ter que contar com um marido tonto (euzinho), meio perdido no meio de tantas mulheres, oferecendo uma massagem à tarde, entre o almoço que passou e o jantar que virá.
O dia das mães não é como o dia do trabalhador. Porque ser mãe é ser mãe até no dia das mães. Sem folga.
domingo, 8 de maio de 2011
Os Suspeitos
Antes do filme, os beijos. Durante, os beijos perderam a vez – o filme era muito bom. Saíram do shopping em Botafogo e estacionaram o carro na rua onde ela morava, com duas rodas sobre a calçada ao lado do tapume que escondia as obras do prédio que começava a subir. Trocaram mais beijos, antes do papo ficar sério. Convicta, ela disse que não gostava de jogar. Ótimo, porque parecia óbvio e só faltava mesmo oficializar. Estão agora namorando há exatos quinze anos.
A decisão foi tomada depois de um bilhete, dela para ele, e de umas poucas saídas, suficientes para descobrirem afinidades nos livros e no coração. O bilhete se transformou em inúmeras cartas, as dela mais longas que as dele, que nunca exercitou tanto expressar o que sentia. A fase de novidades e deslumbre esconde os defeitos que só a convivência revela, mas foi tateando surpresas maravilhosas que eles fizeram as escolhas que os trouxeram juntos até aqui, aos 8 de maio de 2011.
Sempre um passo a frente, ela encontrou trabalho nas salas de aula de inglês, enquanto ele andou em círculos durante tempo suficiente para ela desistir. O amor resistiu até ele se estabelecer e ela então procurou pelo apartamento que eles podiam pagar. Quando encontraram, decidiram se casar. Mas nada foi assim tão rápido quanto as frases sugerem. Tiveram tempo para se acostumarem, para comprarem os móveis, para os aborrecimentos com a lista de convidados e os pequenos detalhes que fizeram questão de terceirizar. O casamento aconteceu numa igreja daquela mesma rua insuspeita, pouco mais de cinco anos depois daquela conversa.
Os anos fortaleceram a parceria a ponto de planejarem um filho depois de uma longa viagem, apesar das muitas inseguranças que cercam a opção. A criança é o melhor resultado dessa parceria e a espera por ela talvez seja a etapa mais bonita desse amor. Ela chegou em 2005 ocupando espaços físicos e emocionais, reinventando antigos namorados, agora chamados de pai e de mãe. Com o tempo e o peso das responsabilidades mal divididas, mal conversadas, eles encontraram pessoas diferentes em seus pares. Tiveram que reavaliar os objetivos pessoais e rever as afinidades (a professora virou tradutora, o engenheiro voltou a escrever). E, ainda hoje, eles têm que reaprender a encontrar seus minutos além das horas que dedicam à criança.
Eles continuam juntos depois de quinze anos. Brigam quase nunca, mas se estranham às vezes. E quando isso acontece, ele se lembra mais uma vez daquele dia, em que eram suspeitos dentro de um carro mal estacionado numa rua escura, onde perambulava um sujeito manco que os seguia desde o cinema. Ali, os suspeitos transformaram casos de mistério em uma história de amor.
A decisão foi tomada depois de um bilhete, dela para ele, e de umas poucas saídas, suficientes para descobrirem afinidades nos livros e no coração. O bilhete se transformou em inúmeras cartas, as dela mais longas que as dele, que nunca exercitou tanto expressar o que sentia. A fase de novidades e deslumbre esconde os defeitos que só a convivência revela, mas foi tateando surpresas maravilhosas que eles fizeram as escolhas que os trouxeram juntos até aqui, aos 8 de maio de 2011.
Sempre um passo a frente, ela encontrou trabalho nas salas de aula de inglês, enquanto ele andou em círculos durante tempo suficiente para ela desistir. O amor resistiu até ele se estabelecer e ela então procurou pelo apartamento que eles podiam pagar. Quando encontraram, decidiram se casar. Mas nada foi assim tão rápido quanto as frases sugerem. Tiveram tempo para se acostumarem, para comprarem os móveis, para os aborrecimentos com a lista de convidados e os pequenos detalhes que fizeram questão de terceirizar. O casamento aconteceu numa igreja daquela mesma rua insuspeita, pouco mais de cinco anos depois daquela conversa.
Os anos fortaleceram a parceria a ponto de planejarem um filho depois de uma longa viagem, apesar das muitas inseguranças que cercam a opção. A criança é o melhor resultado dessa parceria e a espera por ela talvez seja a etapa mais bonita desse amor. Ela chegou em 2005 ocupando espaços físicos e emocionais, reinventando antigos namorados, agora chamados de pai e de mãe. Com o tempo e o peso das responsabilidades mal divididas, mal conversadas, eles encontraram pessoas diferentes em seus pares. Tiveram que reavaliar os objetivos pessoais e rever as afinidades (a professora virou tradutora, o engenheiro voltou a escrever). E, ainda hoje, eles têm que reaprender a encontrar seus minutos além das horas que dedicam à criança.
Eles continuam juntos depois de quinze anos. Brigam quase nunca, mas se estranham às vezes. E quando isso acontece, ele se lembra mais uma vez daquele dia, em que eram suspeitos dentro de um carro mal estacionado numa rua escura, onde perambulava um sujeito manco que os seguia desde o cinema. Ali, os suspeitos transformaram casos de mistério em uma história de amor.
sábado, 30 de abril de 2011
Lanterna sem Pilhas
Há alguns anos virei as minhas costas para tudo o que diz respeito à política. A minha leitura sobre o assunto nos jornais se restringe às manchetes. Em época de eleições, não assisto ao horário político obrigatório nem a debates. Sair de casa para votar é uma tortura e votar em branco, minha opção preferida. Antes de tratar da minha aversão, que já não é tão recente assim, é interessante contextualizar a minha formação política.
Nasci em 1974. Vivi meus primeiros anos de estudo na década de 80 – anos de anistia e redemocratização, de mobilização pelo voto direto, da formação de uma nova assembleia constituinte. No ambiente escolar, política e futebol me traziam o mesmo sentimento: solidão. Era o único tricolor da turma e o único com influências políticas à direita e contra o fluxo da opinião comum da época. As influências eram paternas, de formação conservadora, de militância intensa na juventude, de experiências de censura e perseguição quando fazia oposição aos governos de Getúlio e JK.
Na escola fiz o meu melhor amigo. E a amizade de duas crianças fez o impossível: reuniu numa mesma mesa o Clube da Lanterna e o PTB. A relação de respeito logo se transformou em amizade: Paiva foi um dos poucos convidados no jantar de aniversário de 50 anos do meu pai. De repente, a política começava a fazer sentido para mim e, na sala de aula, eu aprendia uma palavra que também fazia sentido: bem-comum.
Naqueles tempos, o sangue de meu pai fervia quando a nossa professora de história passava trabalhos que provocassem o debate político. Mesmo que tivesse razão ao criticar, por exemplo, um trabalho sobre os CIEPs às vésperas de uma eleição, ele exagerava na crença da conspiração. Antes de tudo, os trabalhos despertavam o senso crítico, formavam cidadãos e eu não me sentia tão sozinho assim.
Os anos foram passando e também a sensação de que eu (ou meu pai, num primeiro momento) estivesse errado em minhas (suas) convicções políticas. Aos poucos, fui colocando cores diferentes nos meus votos e prestando atenção em outros discursos. Contudo, a sopa insossa de letras partidárias aqui no Brasil fez com que eu buscasse referências políticas nos indivíduos e não em causas traduzidas por siglas, que perderam força com o tempo. Indivíduos que, no fim das contas, se revelavam muito parecidos entre si.
Houve ainda outro episódio de alento envolvendo Amaral Netto, que era amigo de meu pai, e uma figura intocável na mídia, com posição política absolutamente adversa. Depois de uma aproximação difícil, com grosserias de parte a parte, houve consenso que o projeto social proposto merecia alguma atenção. Ainda assim, foi pouco e o distanciamento se tornou aversão.
Em Verão, de J. M. Coetzee, na resposta de uma entrevistada ao suposto biógrafo do escritor sul-africano, encontrei uma boa definição para minha relação com a política. Sobre Coetzee, ela diz: “Não, não apolítico; melhor dizer antipolítico. Ele pensava que a política despertava o que havia de pior nas pessoas. Despertava o que havia de pior nas pessoas e também trazia à tona as piores figuras da sociedade. Ele preferia não ter nada a ver com isso.”
Em outro momento, ela diz também que “Na visão de Coetzee, nós seres humanos nunca abandonaremos a política porque a política é tão conveniente e tão atraente quanto um teatro em que damos vez às nossas emoções mais vis. Emoções mais vis significando ódio, rancor, despeito, inveja, sede de sangue e assim por diante.” Eu complemento dizendo que ainda estamos longe do dia em que os homens entenderão política como serviço absolutamente desinteressado, baseado em sentimentos de amor, respeito e tolerância.
Nasci em 1974. Vivi meus primeiros anos de estudo na década de 80 – anos de anistia e redemocratização, de mobilização pelo voto direto, da formação de uma nova assembleia constituinte. No ambiente escolar, política e futebol me traziam o mesmo sentimento: solidão. Era o único tricolor da turma e o único com influências políticas à direita e contra o fluxo da opinião comum da época. As influências eram paternas, de formação conservadora, de militância intensa na juventude, de experiências de censura e perseguição quando fazia oposição aos governos de Getúlio e JK.
Na escola fiz o meu melhor amigo. E a amizade de duas crianças fez o impossível: reuniu numa mesma mesa o Clube da Lanterna e o PTB. A relação de respeito logo se transformou em amizade: Paiva foi um dos poucos convidados no jantar de aniversário de 50 anos do meu pai. De repente, a política começava a fazer sentido para mim e, na sala de aula, eu aprendia uma palavra que também fazia sentido: bem-comum.
Naqueles tempos, o sangue de meu pai fervia quando a nossa professora de história passava trabalhos que provocassem o debate político. Mesmo que tivesse razão ao criticar, por exemplo, um trabalho sobre os CIEPs às vésperas de uma eleição, ele exagerava na crença da conspiração. Antes de tudo, os trabalhos despertavam o senso crítico, formavam cidadãos e eu não me sentia tão sozinho assim.
Os anos foram passando e também a sensação de que eu (ou meu pai, num primeiro momento) estivesse errado em minhas (suas) convicções políticas. Aos poucos, fui colocando cores diferentes nos meus votos e prestando atenção em outros discursos. Contudo, a sopa insossa de letras partidárias aqui no Brasil fez com que eu buscasse referências políticas nos indivíduos e não em causas traduzidas por siglas, que perderam força com o tempo. Indivíduos que, no fim das contas, se revelavam muito parecidos entre si.
Houve ainda outro episódio de alento envolvendo Amaral Netto, que era amigo de meu pai, e uma figura intocável na mídia, com posição política absolutamente adversa. Depois de uma aproximação difícil, com grosserias de parte a parte, houve consenso que o projeto social proposto merecia alguma atenção. Ainda assim, foi pouco e o distanciamento se tornou aversão.
Em Verão, de J. M. Coetzee, na resposta de uma entrevistada ao suposto biógrafo do escritor sul-africano, encontrei uma boa definição para minha relação com a política. Sobre Coetzee, ela diz: “Não, não apolítico; melhor dizer antipolítico. Ele pensava que a política despertava o que havia de pior nas pessoas. Despertava o que havia de pior nas pessoas e também trazia à tona as piores figuras da sociedade. Ele preferia não ter nada a ver com isso.”
Em outro momento, ela diz também que “Na visão de Coetzee, nós seres humanos nunca abandonaremos a política porque a política é tão conveniente e tão atraente quanto um teatro em que damos vez às nossas emoções mais vis. Emoções mais vis significando ódio, rancor, despeito, inveja, sede de sangue e assim por diante.” Eu complemento dizendo que ainda estamos longe do dia em que os homens entenderão política como serviço absolutamente desinteressado, baseado em sentimentos de amor, respeito e tolerância.
terça-feira, 26 de abril de 2011
Horas de Estrada
Rob Halford e Troy Bolton batem boca. A disputa acontece entre a música que toca no painel do carro e o filme que distrai a criança no banco de trás. Embora a distração não a impeça de perguntar se estamos perto de casa e de ensaiar um drama quando a resposta é negativa, devo reconhecer a sorte que temos. Meus pais tinham que reinventar passatempos. Com o DVD, nós podemos nos concentrar na água que bate forte no vidro, na frequência do limpador de para-brisa, nos carros que vão e vêm. E quando estes levantam água do chão e obstruem a visibilidade... Que legal! Sharpay acha um barato.
Obras a 27 quilômetros: a chuva dá uma trégua na violência, mas a lentidão do trânsito aumenta pouco antes da serra. O carro hesita, a embreagem trabalha como nunca e nós precisamos fazer xixi.
Nos intervalos de tensão, penso nos pardais. Parece poesia, mas é a indústria da multa que me irrita. Conto os carros que trafegam impunes pelo acostamento e não vejo vantagem na fiscalização pontual de velocidade. Pardal podia ser qualquer um assobiando, com capa de chuva e bloquinho na mão, anotando as placas dos malandros que pegam o atalho proibido ou costuram sem se preocupar com a vida. Não precisaria de mais de uma hora para o fiscal atingir a meta do dia.
Penso de novo na sorte. Quando criança, era uma Brasília bege que nos levava por aí sem ar condicionado. Nela, conheci as capitais do mundo, de Tóquio a Tegucigalpa, em viagens longas até Porto Alegre ou Salvador. Aprendi outras coisas também com os passatempos do meu pai, quase sempre um jogo sem tabuleiro, que preparava meu futuro nas gincanas do Sebastian Bar. De repente, acho que Alice pode estar perdendo uma boa oportunidade de jogar adedanha. Mas se Grease dá lugar aos Wildcats que dá lugar a Tim Burton, tenho certeza de que ela está se divertindo. Enquanto Alice, a outra, toma chá com o chapeleiro e se esconde no bule, a minha Alice inventa uma história.
Lea se junta ao Luke Rapidinho para enfrentar o inimigo Ráuli Devagar (ou Hauly, não sei). Ela diz que foi George Lucas que inventou o novo conto estelar e Chewbacca é o coelho. Lembra então que ele escondeu os ovinhos em casa, que está anoitecendo e não vai dar tempo de procurá-los. Não vai dar tempo também de lavar os cabelos. Drama, de novo.
Nane aumenta o volume: Bono discute com a Rainha de Copas.
Obras a 27 quilômetros: a chuva dá uma trégua na violência, mas a lentidão do trânsito aumenta pouco antes da serra. O carro hesita, a embreagem trabalha como nunca e nós precisamos fazer xixi.
Nos intervalos de tensão, penso nos pardais. Parece poesia, mas é a indústria da multa que me irrita. Conto os carros que trafegam impunes pelo acostamento e não vejo vantagem na fiscalização pontual de velocidade. Pardal podia ser qualquer um assobiando, com capa de chuva e bloquinho na mão, anotando as placas dos malandros que pegam o atalho proibido ou costuram sem se preocupar com a vida. Não precisaria de mais de uma hora para o fiscal atingir a meta do dia.
Penso de novo na sorte. Quando criança, era uma Brasília bege que nos levava por aí sem ar condicionado. Nela, conheci as capitais do mundo, de Tóquio a Tegucigalpa, em viagens longas até Porto Alegre ou Salvador. Aprendi outras coisas também com os passatempos do meu pai, quase sempre um jogo sem tabuleiro, que preparava meu futuro nas gincanas do Sebastian Bar. De repente, acho que Alice pode estar perdendo uma boa oportunidade de jogar adedanha. Mas se Grease dá lugar aos Wildcats que dá lugar a Tim Burton, tenho certeza de que ela está se divertindo. Enquanto Alice, a outra, toma chá com o chapeleiro e se esconde no bule, a minha Alice inventa uma história.
Lea se junta ao Luke Rapidinho para enfrentar o inimigo Ráuli Devagar (ou Hauly, não sei). Ela diz que foi George Lucas que inventou o novo conto estelar e Chewbacca é o coelho. Lembra então que ele escondeu os ovinhos em casa, que está anoitecendo e não vai dar tempo de procurá-los. Não vai dar tempo também de lavar os cabelos. Drama, de novo.
Nane aumenta o volume: Bono discute com a Rainha de Copas.
domingo, 10 de abril de 2011
A Presidente
Era uma vez uma formiguinha. Nasceu de um poema que escrevi há mais de quinze anos. Era assim diminuta e trabalhadeira. Não parava quieta. Era mãe dos nossos tempos de criança, um tanto dona-de-casa, outro tanto professora; casada com um homem dezessete anos mais velho, de tempos ainda mais remotos. Parou de trabalhar no Banco quando eu nasci, o mesmo em que ela conheceu meu pai (ela caixa, ele cliente). Voltou mais tarde, nas salas de aula. Além dos três que tinha em casa, era assim mãe de outros filhos também. Faltava o diploma, contudo. O sonho tinha sido adiado muitas vezes. Porque ser mãe é abdicar de sonhos íntimos para compartilhar realizações. E ser gente é perder para ganhar. Mas perder não é necessariamente para sempre.
O poema que escrevi foi lido em um dos discursos de sua posse. Poderia ter sido relido no discurso de formatura, se fosse um evento de uma só pessoa. A presidente veio antes da pedagoga, porque a formiguinha trabalhou muito antes de voltar a sonhar. Ela e meu pai sempre tiveram vida social intensa. Começaram com Encontro de Casais e continuaram como leões. Agora repito: minha mãe é dos nossos tempos de criança. Quando ajudaram a fundar o Lions Clube Glória, só os homens participavam das reuniões. Eles eram companheiros leões e as mulheres, gentilmente chamadas de domadoras. Transição completa, elas se tornaram companheiras leão. Mamãe foi a primeira mulher presidente do seu clube.
Alice estava na barriga quando a futura vovó pegou o canudo. Os anos de estudo não foram fáceis. Muito curiosa foi a inversão de papéis: Neidinha ligava pra mim depois das dez (ela nunca dormiu tão tarde como nos tempos de faculdade), reclamava da rigidez de um certo professor ou da prova ruim que tinha feito (da mesma prova ruim em que ela tinha tirado oito e meio). Cabia a nós, filhos, ouvirmos e incentivarmos. E a dissertação de final de curso foi então uma novela mexicana, em que o meu pai era o galã à moda antiga... eu ajudo, eu reviso, eu resolvo.
Neida é a formiga que já foi presidente, estilo doce e dedicada, e é pedagoga, estilo mãe de muitos filhos, do tipo preciso respirar. Os meus versos diziam, e se repetem hoje, assim:
FORMIGA-MÃE
Sabe a formiguinha?
Que nasceu faz pouco tempo
Que andou em pouco tempo,
Continua andando...
Muito brava e corajosa,
Continua buscando...
E tanto andou
Tanto buscou
Que acabou crescendo:
Virou formigona.
Sabe a formigona?
Que nasceu ainda agora
Que perdeu-se há dois minutos,
Continua perdida...
Hesitante e cheia de dúvidas,
Continua buscando...
E tanto tentou
Tanto aceitou
Que acabou recompensada:
Hoje é rainha.
Sabe a rainha?
Que tanto compreende
Que tanto sofretorce,
Ela é mãe!
(De tanto sobreviver,
Por tanto lutar)
E cria várias formiguinhas,
Que nascem felizes
Mas vivem tristes
Iguaizinhas àquela
Que começou esta história.
O poema que escrevi foi lido em um dos discursos de sua posse. Poderia ter sido relido no discurso de formatura, se fosse um evento de uma só pessoa. A presidente veio antes da pedagoga, porque a formiguinha trabalhou muito antes de voltar a sonhar. Ela e meu pai sempre tiveram vida social intensa. Começaram com Encontro de Casais e continuaram como leões. Agora repito: minha mãe é dos nossos tempos de criança. Quando ajudaram a fundar o Lions Clube Glória, só os homens participavam das reuniões. Eles eram companheiros leões e as mulheres, gentilmente chamadas de domadoras. Transição completa, elas se tornaram companheiras leão. Mamãe foi a primeira mulher presidente do seu clube.
Alice estava na barriga quando a futura vovó pegou o canudo. Os anos de estudo não foram fáceis. Muito curiosa foi a inversão de papéis: Neidinha ligava pra mim depois das dez (ela nunca dormiu tão tarde como nos tempos de faculdade), reclamava da rigidez de um certo professor ou da prova ruim que tinha feito (da mesma prova ruim em que ela tinha tirado oito e meio). Cabia a nós, filhos, ouvirmos e incentivarmos. E a dissertação de final de curso foi então uma novela mexicana, em que o meu pai era o galã à moda antiga... eu ajudo, eu reviso, eu resolvo.
Neida é a formiga que já foi presidente, estilo doce e dedicada, e é pedagoga, estilo mãe de muitos filhos, do tipo preciso respirar. Os meus versos diziam, e se repetem hoje, assim:
FORMIGA-MÃE
Sabe a formiguinha?
Que nasceu faz pouco tempo
Que andou em pouco tempo,
Continua andando...
Muito brava e corajosa,
Continua buscando...
E tanto andou
Tanto buscou
Que acabou crescendo:
Virou formigona.
Sabe a formigona?
Que nasceu ainda agora
Que perdeu-se há dois minutos,
Continua perdida...
Hesitante e cheia de dúvidas,
Continua buscando...
E tanto tentou
Tanto aceitou
Que acabou recompensada:
Hoje é rainha.
Sabe a rainha?
Que tanto compreende
Que tanto sofretorce,
Ela é mãe!
(De tanto sobreviver,
Por tanto lutar)
E cria várias formiguinhas,
Que nascem felizes
Mas vivem tristes
Iguaizinhas àquela
Que começou esta história.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Maratona e Treinamento Jedi
Ao ver o pórtico de entrada do estacionamento, caiu a ficha. Vibraram os gritinhos e as palmas da Alice. O parque estava muito cheio. Não chegava a estar calor, mas o sol queimava o cocuruto. Os minutos de espera ficavam próximos ou além da hora. Enfrentamos as filas daquele dia para tirar fotos. Jasmine e o abraço apertado do Tigrão foram um belo começo. Encontrar o titio Pooh (meu irmão camarada), melhor ainda. Se Rapunzel tinha um cantinho só para ela, as outras princesas ficaram para o fim da tarde, na maior das esperas daquele dia e quando a bateria da câmera já tinha acabado. Fotos no celular, então; ou, no site da Disney, onde o download custa exatos... esquece! Felizmente lá estava Ariel, a preferida. Mas a nossa Alice queria mesmo encontrar a outra Alice – essa foi a solitária frustração da menina em toda a viagem.
Chegamos perto das 10h e saímos 12h depois. Desafio para profissional, para Jedi maratonista. Nossos pés latejavam, a batata da perna reclamava, o cangote nem se fala. Eram 20h30 e, sempre de pé, estávamos em frente ao castelo da Aurora assistindo ao show de fogos, num dos momentos preferidos da Alice: Sininho voando nos céus de Anaheim. Sobre os meus ombros ela continuou na apresentação seguinte, perto da ilha de Tom Sawyer. Revezamos. Pra cá, pra lá, e a doce filhota compensava o nosso esforço narrando o que não conseguíamos ver: chegou o Mickey; a bruxa; agora o barco, com aqueles dois do filme da Alice... aliás, uma das diversões do dia foi remar, dar a volta na ilha dentro de uma canoa. Haja braço também!
O treinamento Jedi aconteceu no início da tarde. Nane e Alice se sentaram no chão junto com as outras crianças. Depois de muito alvoroço, algumas foram selecionadas para aprender a lutar com o sabre de luz. A aula só foi interrompida com a aparição da turma do lado negro da força: Darth Vader (Alice adora) e Darth Mau (assim mesmo, como o lobo). O primeiro desafiou os aprendizes e o segundo optou por distribuir caretas para os espectadores. O olhar compenetrado daqueles que enfrentavam o homem de preto só não era mais impressionante que a diferença de altura entre ele e os pequeninos. Fiquei procurando, mas o Yoda apareceu apenas disfarçado de mochila nas costas de algumas pessoas.
Intervalo para descanso no sábado de comprinhas e reencontro. Alice parecia um zumbi até ganhar um tênis rosa reluzente e, no Farmer’s Market, elegeu Fernanda sua nova melhor amiga.
Mas a maratona continuou no domingo. Em Buena Park, para nós, e em Los Angeles, para os que têm fôlego.
Chegamos perto das 10h e saímos 12h depois. Desafio para profissional, para Jedi maratonista. Nossos pés latejavam, a batata da perna reclamava, o cangote nem se fala. Eram 20h30 e, sempre de pé, estávamos em frente ao castelo da Aurora assistindo ao show de fogos, num dos momentos preferidos da Alice: Sininho voando nos céus de Anaheim. Sobre os meus ombros ela continuou na apresentação seguinte, perto da ilha de Tom Sawyer. Revezamos. Pra cá, pra lá, e a doce filhota compensava o nosso esforço narrando o que não conseguíamos ver: chegou o Mickey; a bruxa; agora o barco, com aqueles dois do filme da Alice... aliás, uma das diversões do dia foi remar, dar a volta na ilha dentro de uma canoa. Haja braço também!
O treinamento Jedi aconteceu no início da tarde. Nane e Alice se sentaram no chão junto com as outras crianças. Depois de muito alvoroço, algumas foram selecionadas para aprender a lutar com o sabre de luz. A aula só foi interrompida com a aparição da turma do lado negro da força: Darth Vader (Alice adora) e Darth Mau (assim mesmo, como o lobo). O primeiro desafiou os aprendizes e o segundo optou por distribuir caretas para os espectadores. O olhar compenetrado daqueles que enfrentavam o homem de preto só não era mais impressionante que a diferença de altura entre ele e os pequeninos. Fiquei procurando, mas o Yoda apareceu apenas disfarçado de mochila nas costas de algumas pessoas.
Intervalo para descanso no sábado de comprinhas e reencontro. Alice parecia um zumbi até ganhar um tênis rosa reluzente e, no Farmer’s Market, elegeu Fernanda sua nova melhor amiga.
Mas a maratona continuou no domingo. Em Buena Park, para nós, e em Los Angeles, para os que têm fôlego.
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