Se existe um tratado de amizade entre Brasil e Peru, meus pais assinaram no início da década de 80. Meu irmão ainda não era um acaso, nem sonhava nascer, quando meu pai passou dois meses em São Paulo fazendo um curso. Voltava ao Rio todo fim de semana, de ônibus, para nos ver. Lá, não era tão ruim assim... fez logo um grupo de amigos com um colombiano e Enrique, o peruano. Depois do curso, Enrique esteve aqui com a esposa, Esther, e filhos. Depois, meu irmão com menos de um ano, estivemos todos em Lima. Desde então, todos os amigos de Enrique, ou amigos dos amigos, vinham ao Rio com a referência de meu pai. E, assim, fizeram-se outras amizades.
German e Betty não pareciam turistas. Enquanto estavam lá em casa, eram parte da família. Se um casal pode escolher outro como casal irmão, era precisamente o caso deles com meus pais. German ia comprar o pão antes do café da manhã; saía para comprar queijo e presunto para o lanche do fim de tarde. O casal passeava sozinho na orla, acompanhava a família nos passeios. Num Fluminense e Vasco inesquecível de 89, pelo campeonato do ano anterior, ele e meu pai foram ao jogo. Minha mãe foi dormir, enquanto a saudosa Betty ficou esperando o marido e eu roendo as unhas até os minutos finais da prorrogação. German estava no Rio a trabalho quando minha irmã fez 15 anos. Veio com Emilio, outro que faz parte do tratado. E no dia da festa, chegaram as esposas Betty e Blanca, bem tarde porque o voo atrasou, mas ainda em tempo de curtirem o fim da comemoração.
Quando descobriu meu gosto por livros, Emilio me deu de presente um de Vargas Llosa, chamado a Guerra do Fim do Mundo, que trata de um dos episódios mais fascinantes da história do Brasil – Canudos. Não foi o único presente que ele me deu. Depois de passar o réveillon do ano 2000 com toda a família na casa de meus pais, seu presente foi Cusco em minha viagem de lua-de-mel no ano seguinte; mais que a viagem, a hospedagem, a programação e o carinho. De certa forma, Emilio, o pai, foi também responsável pela continuidade do tratado na segunda geração. Emilio, o filho, é apaixonado por futebol, criamos juntos uma hinchada internacional, em que la U ganhou um torcedor carioca e o Fluminense arrebatou um tricolor limenho. Durante a Libertadores de 2008, ele era companhia certa na Internet depois dos jogos, quando a adrenalina ainda se recusava a baixar e o computador era o meu refúgio na noite insone.
Aliás, grande colaboradora de Emilio pai foi a Internet e suas redes sociais. Hoje estamos todos conectados: eu e filhos de cada um dos que foram citados aqui. Mas há tempos não nos vemos em carne e osso (a terceira geração nem se conhece). O último a aparecer foi Enrique, há mais de seis anos, meses antes de falecer. Na próxima terça-feira, chega Esther, trazendo consigo o tratado de amizade em papel amarelado para que seja revalidado, apenas para cumprir protocolos burocráticos. Com ela, vem uma das grandes lembranças da minha infância: o sorriso aberto de Enrique, já adoçado pelo açúcar da caipirinha, repetindo os versos de Gonzaguinha, quase contando as sílabas. E meu pai, fazendo coro.
E a vida o que é? Diga lá, mi hermano.
É bonita! É bonita! E é bonita!
domingo, 14 de novembro de 2010
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Caçadas de Zezinho
Há onças e jaguatiricas por toda parte. Elas sobreviveram e se multiplicaram. Por isso, nós vivemos no abrigo. Era um cinema, dizem os mais velhos. Aqui existem quatro salas: a primeira e a segunda servem de dormitório; na terceira, fazemos as refeições e os adultos se reúnem; a última é a sala de livros, que o guardião chama de biblioteca. Eu conheço o guardião. Às vezes ele me deixa entrar para ver os livros, às vezes ele me conta o que dizem os livros. Além dele, apenas Mãe Dalva sabe ler. Foi naquela sala que, um dia, eu encontrei os cartazes de alguns filmes que passavam nessas telas enormes que hoje não servem de nada. Fiquei com um deles, guardei debaixo do meu colchão. Nele, em primeiro plano, há um homem sentado, e no fundo, um mundo parecido com o que vemos do lado de fora. O nome do homem é Denzel. Gosto dele. Por isso, as outras crianças me chamam de Zéu, Zé ou Zezinho.
Outro dia eu perguntei para o guardião sobre as onças. Para sair do abrigo, precisamos conhecê-las muito bem. Ele disse que tinha um livro interessante para me mostrar, mas só depois que todo mundo fosse dormir. Porque os livros estão proibidos desde que Mãe Dalva adoeceu e Paizinho morreu. Ele sabia o que fazer com os livros. Mãezinha diz também que o guardião é um tonto, não sabe interpretar o que lê. Ainda assim, dele eu também gosto. Ele me mostrou as “Caçadas de Pedrinho” há uma semana. De lá tiramos muitas informações sobre como as crianças podem matar as onças. Crianças e bonecas que falam. Nunca vi uma dessas, as bonecas daqui não falam. Eu contei os meus planos para ele: de sair do abrigo e descobrir o que havia lá fora, ir mais longe que qualquer adulto já tenha ido. Ele me preveniu também sobre os homens brancos, disse que no livro nós éramos tratados como negrinhos de estimação por eles. Contei essa parte para Mãe Dalva e quase me arrependi, tantas foram as perguntas que ela me fez. Quase no fim do sermão ela se lembrou de um dos textos que Paizinho tinha guardado. Peguei para ela.
O texto dizia: “Era talvez meu hábito “profissional” de colocar-me no lugar, ou na pele, dos outros. Isso não significa que sempre justifico esses outros, mas que tenho a capacidade de enxergar seus pontos de vista.” Logo abaixo, Paizinho tinha anotado o nome do autor: Amós Oz. Ela disse que ele era israelense e isso não me disse nada. Ela falou de guerras e tolerância, de economia e religião. Eu comecei a entender, mas não muito. Por fim, informou que podíamos reabrir a biblioteca, mas antes precisávamos encontrar um professor. Ela estava muito velha, não podia mais andar para procurá-lo e a voz dela, enfraquecida, não servia mais para ensinar. E o guardião era um ignorante, apenas conhecia as letras e sabia juntar as sílabas para formar palavras. Como se já conhecesse meus planos, ela me desejou sorte mais de uma vez.
Por enquanto, somos quatro. Sabemos o que fazer com as onças: pólvora nos olhos costuma ser infalível. Mãe Dalva nos advertiu sobre maltratar os bichos, mas reconhece que precisamos de facões e todas as armas de fogo que encontrarmos. E ela não precisa saber, mas o guardião vai continuar nos ajudando. Ontem ele me trouxe outro livro, que ele chamou de livro de guerra para crianças, chamado “Senhor das Moscas”. Vamos nos pintar antes de partir. Não temos medo da natureza selvagem das outras crianças que encontraremos por aí, não temos medo de nada, só da nossa própria ignorância. Ah! Mãezinha vai ficar orgulhosa. E sabemos o que procuramos: um professor. Estamos no fim da primeira reunião... Como é nome daquele filme do pôster dos meninos que estão agarrados uns aos outros, como uma corda no precipício? Isso!... da primeira reunião dos Goonies!
Outro dia eu perguntei para o guardião sobre as onças. Para sair do abrigo, precisamos conhecê-las muito bem. Ele disse que tinha um livro interessante para me mostrar, mas só depois que todo mundo fosse dormir. Porque os livros estão proibidos desde que Mãe Dalva adoeceu e Paizinho morreu. Ele sabia o que fazer com os livros. Mãezinha diz também que o guardião é um tonto, não sabe interpretar o que lê. Ainda assim, dele eu também gosto. Ele me mostrou as “Caçadas de Pedrinho” há uma semana. De lá tiramos muitas informações sobre como as crianças podem matar as onças. Crianças e bonecas que falam. Nunca vi uma dessas, as bonecas daqui não falam. Eu contei os meus planos para ele: de sair do abrigo e descobrir o que havia lá fora, ir mais longe que qualquer adulto já tenha ido. Ele me preveniu também sobre os homens brancos, disse que no livro nós éramos tratados como negrinhos de estimação por eles. Contei essa parte para Mãe Dalva e quase me arrependi, tantas foram as perguntas que ela me fez. Quase no fim do sermão ela se lembrou de um dos textos que Paizinho tinha guardado. Peguei para ela.
O texto dizia: “Era talvez meu hábito “profissional” de colocar-me no lugar, ou na pele, dos outros. Isso não significa que sempre justifico esses outros, mas que tenho a capacidade de enxergar seus pontos de vista.” Logo abaixo, Paizinho tinha anotado o nome do autor: Amós Oz. Ela disse que ele era israelense e isso não me disse nada. Ela falou de guerras e tolerância, de economia e religião. Eu comecei a entender, mas não muito. Por fim, informou que podíamos reabrir a biblioteca, mas antes precisávamos encontrar um professor. Ela estava muito velha, não podia mais andar para procurá-lo e a voz dela, enfraquecida, não servia mais para ensinar. E o guardião era um ignorante, apenas conhecia as letras e sabia juntar as sílabas para formar palavras. Como se já conhecesse meus planos, ela me desejou sorte mais de uma vez.
Por enquanto, somos quatro. Sabemos o que fazer com as onças: pólvora nos olhos costuma ser infalível. Mãe Dalva nos advertiu sobre maltratar os bichos, mas reconhece que precisamos de facões e todas as armas de fogo que encontrarmos. E ela não precisa saber, mas o guardião vai continuar nos ajudando. Ontem ele me trouxe outro livro, que ele chamou de livro de guerra para crianças, chamado “Senhor das Moscas”. Vamos nos pintar antes de partir. Não temos medo da natureza selvagem das outras crianças que encontraremos por aí, não temos medo de nada, só da nossa própria ignorância. Ah! Mãezinha vai ficar orgulhosa. E sabemos o que procuramos: um professor. Estamos no fim da primeira reunião... Como é nome daquele filme do pôster dos meninos que estão agarrados uns aos outros, como uma corda no precipício? Isso!... da primeira reunião dos Goonies!
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Um Braço Quebrado
Eram oito da noite, poucas horas antes do Bateau Mouche naufragar na baía de Guanabara. Eu estava assistindo à TV, aparelho de segunda mão trocado por outras carcaças eletrônicas pré-históricas, deitado no chão de tacos quase soltos da sala de estar. Com o dedão do pé direito, zapeava pelos canais disponíveis, que não passavam de uma meia dúzia naqueles tempos, esperando pela São Silvestre que em 1988 ainda acontecia à noite. Era o único dia do ano que me fazia desejar morar em outro lugar que Copacabana. Aquela espera pela virada, aquela multidão formigando pelas ruas, aquele treinamento forçado de renovação das esperanças, tudo aquilo me incomodava. Eu tentava me entreter com as poucas opções na televisão e com a perspectiva de ver o nascer do sol da varanda depois de passar a noite jogando Gemini ou lendo um bom livro. Naquele ano, a situação ficou ainda mais complicada pela falta convidados ou convidandos habituais. A casa costumava ficar lotada de gente, e a mesa, cheia da comida, que eu e meus irmãos passávamos a noite beliscando. A lotação ia para a praia pouco antes da meia-noite e nós, a família, ficávamos sozinhos por alguns minutos, enquanto os fogos explodiam, para nos abraçarmos e brindarmos com champanhe. Eu não entendia muito bem a emoção contida dos adultos naquela comemoração pelo novo ano, não via motivo para olhos tão marejados. Mas era assim e, naquele ano especialmente, os minutos da família se transformaram em horas ainda mais longas depois do que aconteceu.
Eram oito da noite, eu estava deitado com as costas no chão frio trocando os canais da TV com o ajuste grosso do meu dedão do pé. Eu falava e repetia, mas hoje sei que as crianças têm séria deficiência auditiva quando o assunto não interessa ou as contraria. Minha mãe reforçava: não pula, não pula... ou para de pular, para variar. Meu irmão tinha quatro anos, idade de não dar ouvidos. Teimoso também, eu não abandonei a posição esdrúxula em que me encontrava e tornei-me o obstáculo do treinamento para corrida de 10 metros com uma única barreira que ele fazia consigo mesmo. Você vai se machucar era outra frase sem efeito. E, na enésima tentativa, ele fracassou. Tropeçou no lado direito da minha barriga e caiu com os braços protegendo o rosto, com todo o peso do seu corpo sobre o cotovelo esquerdo. Não me lembro dele chorar, lembro-me apenas da minha mãe segurando o bracinho ao telefone, falando com Maurício. Pouco depois das oito, foram os três para Jacarepaguá – mãe, pai e irmão – encontrá-lo na clínica tirar radiografia. Ficamos eu, minha irmã e avó esperando, sem saber como seria a meia-noite daquele réveillon. De volta, eles entraram em casa às 23h58, com o braço do Tito enfaixado, pronto para operar às 13h do dia primeiro de janeiro de 1989. Felizmente, eles encontraram um guarda compreensivo na entrada do Túnel Velho e conseguiram passar pela multidão com as luzes internas do carro acesas. Encontrei meu pai chorando no quarto. Acho que ali o vi chorar de verdade pela primeira vez.
O ano novo estreava com uma tragédia na baía, e nós esparramados em colchonetes no mesmo chão da sala, paparicando a criança com uma fatura completa no braço, que insistia em não chorar. Ganhamos a companhia da noviça rebelde na madrugada. Eu assisti ao filme ao lado dele, mas não vi o sol nascer. Adormeci tentando entender o meu mundo de forma diferente.
Eram oito da noite, eu estava deitado com as costas no chão frio trocando os canais da TV com o ajuste grosso do meu dedão do pé. Eu falava e repetia, mas hoje sei que as crianças têm séria deficiência auditiva quando o assunto não interessa ou as contraria. Minha mãe reforçava: não pula, não pula... ou para de pular, para variar. Meu irmão tinha quatro anos, idade de não dar ouvidos. Teimoso também, eu não abandonei a posição esdrúxula em que me encontrava e tornei-me o obstáculo do treinamento para corrida de 10 metros com uma única barreira que ele fazia consigo mesmo. Você vai se machucar era outra frase sem efeito. E, na enésima tentativa, ele fracassou. Tropeçou no lado direito da minha barriga e caiu com os braços protegendo o rosto, com todo o peso do seu corpo sobre o cotovelo esquerdo. Não me lembro dele chorar, lembro-me apenas da minha mãe segurando o bracinho ao telefone, falando com Maurício. Pouco depois das oito, foram os três para Jacarepaguá – mãe, pai e irmão – encontrá-lo na clínica tirar radiografia. Ficamos eu, minha irmã e avó esperando, sem saber como seria a meia-noite daquele réveillon. De volta, eles entraram em casa às 23h58, com o braço do Tito enfaixado, pronto para operar às 13h do dia primeiro de janeiro de 1989. Felizmente, eles encontraram um guarda compreensivo na entrada do Túnel Velho e conseguiram passar pela multidão com as luzes internas do carro acesas. Encontrei meu pai chorando no quarto. Acho que ali o vi chorar de verdade pela primeira vez.
O ano novo estreava com uma tragédia na baía, e nós esparramados em colchonetes no mesmo chão da sala, paparicando a criança com uma fatura completa no braço, que insistia em não chorar. Ganhamos a companhia da noviça rebelde na madrugada. Eu assisti ao filme ao lado dele, mas não vi o sol nascer. Adormeci tentando entender o meu mundo de forma diferente.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Leituras e Interconexões
Três livros estão abertos.
“Como se não Houvesse Amanhã” é um deles. São contos de diversos autores, todos baseados em músicas da Legião Urbana. Histórias curtas, perfeitas para carregar na mochila durante a semana e ler antes da aula de tênis, em qualquer sala de espera ou até no avião. Eu encontrei o livro na Livraria Galáxia da rua México, onde desestresso por alguns minutos na hora do almoço, mas não comprei na primeira vez em que o vi. Não costumo me conter tanto com os livros, mas a fila anda tão grande que tenho evitado. E, quanto mais escrevo, menos tempo tenho para ler. A decisão de comprá-lo veio depois de ler uma crônica de minha irmã blogueira que falava das letras de música da Legião e o comentário de umas de suas amigas que citava o livro e que hoje me segue (e eu a sigo também). Depois de ler um ou dois contos, escolhi a minha música para escrever aqui. “O Mundo Anda Tão Complicado” é resultado disso.
A mais nova leitura é “Barroco Tropical”, ainda nas primeiras páginas. O livro, autografado pelo autor José Eduardo Agualusa, escritor angolano, foi presente de um amigo, geólogo que trabalha comigo, morou muitos anos em Moçambique e conhece minha predileção pelos autores africanos de língua portuguesa, sendo Mia Couto um gosto que temos em comum. Há quase um ano ele me convidou para ir a Livraria da Travessa no Leblon onde Agualusa estaria. Não fui, acabei na Lapa com meu irmão, passando momentos descritos aqui na “Retrospectiva 2009 - Parte II”. O Barroco é leitura para o fim de noite, um dos livros abertos na mesa de cabeceira.
O terceiro é “Everything is Illuminated”, ou “Tudo se Ilumina”. Infelizmente parei no primeiro capítulo, que inspirou outro de meus textos: “Todos os Nomes”. Não sei explicar o motivo da parada. Talvez seja a expectativa pela leitura de outro livro de Jonathan Safran Foer, já que “Extremamente Alto, Incrivelmente Perto” é um dos melhores que já li. A interrupção não tem relação com a história, que eu já conheço do cinema. Aliás, foi por causa do filme do Liev Schreiber, estrelado pelo Frodo (ou melhor, Elijah Wood), que comprei um dos meus livros preferidos, que tem um dos meus personagens preferidos – Oskar Schell, uma das crianças citadas numa de minhas primeiras publicações, chamada “No Machimbombo”. Sei que recomeço em breve.
Leio também “Insatiable”, livro de vampiros da Meg Cabot. “Oi?”. É a única leitura com prazo. Nane está traduzindo o livro, o segundo da mesma autora e o quarto da Galera, selo jovem da Record. Seus enredos e personagens são descomplicados, ao contrário de outros do gênero que li. Interessante também que, logo no início do livro, ela usa a história para confessar que escrever uma história sobre vampiros foi uma necessidade imposta pelo mercado. Enquanto leio, dou uma ajudinha na revisão e aproveito para compartilhar com a Nane uma de nossas afinidades. E se você entendeu que eu errei a conta, não é assim. Nesse caso, é o arquivo que está aberto, bem aqui ao lado, com o controle de alterações ativado e o marcador é uma tarja amarela sobre o número do capítulo.
“Como se não Houvesse Amanhã” é um deles. São contos de diversos autores, todos baseados em músicas da Legião Urbana. Histórias curtas, perfeitas para carregar na mochila durante a semana e ler antes da aula de tênis, em qualquer sala de espera ou até no avião. Eu encontrei o livro na Livraria Galáxia da rua México, onde desestresso por alguns minutos na hora do almoço, mas não comprei na primeira vez em que o vi. Não costumo me conter tanto com os livros, mas a fila anda tão grande que tenho evitado. E, quanto mais escrevo, menos tempo tenho para ler. A decisão de comprá-lo veio depois de ler uma crônica de minha irmã blogueira que falava das letras de música da Legião e o comentário de umas de suas amigas que citava o livro e que hoje me segue (e eu a sigo também). Depois de ler um ou dois contos, escolhi a minha música para escrever aqui. “O Mundo Anda Tão Complicado” é resultado disso.
A mais nova leitura é “Barroco Tropical”, ainda nas primeiras páginas. O livro, autografado pelo autor José Eduardo Agualusa, escritor angolano, foi presente de um amigo, geólogo que trabalha comigo, morou muitos anos em Moçambique e conhece minha predileção pelos autores africanos de língua portuguesa, sendo Mia Couto um gosto que temos em comum. Há quase um ano ele me convidou para ir a Livraria da Travessa no Leblon onde Agualusa estaria. Não fui, acabei na Lapa com meu irmão, passando momentos descritos aqui na “Retrospectiva 2009 - Parte II”. O Barroco é leitura para o fim de noite, um dos livros abertos na mesa de cabeceira.
O terceiro é “Everything is Illuminated”, ou “Tudo se Ilumina”. Infelizmente parei no primeiro capítulo, que inspirou outro de meus textos: “Todos os Nomes”. Não sei explicar o motivo da parada. Talvez seja a expectativa pela leitura de outro livro de Jonathan Safran Foer, já que “Extremamente Alto, Incrivelmente Perto” é um dos melhores que já li. A interrupção não tem relação com a história, que eu já conheço do cinema. Aliás, foi por causa do filme do Liev Schreiber, estrelado pelo Frodo (ou melhor, Elijah Wood), que comprei um dos meus livros preferidos, que tem um dos meus personagens preferidos – Oskar Schell, uma das crianças citadas numa de minhas primeiras publicações, chamada “No Machimbombo”. Sei que recomeço em breve.
Leio também “Insatiable”, livro de vampiros da Meg Cabot. “Oi?”. É a única leitura com prazo. Nane está traduzindo o livro, o segundo da mesma autora e o quarto da Galera, selo jovem da Record. Seus enredos e personagens são descomplicados, ao contrário de outros do gênero que li. Interessante também que, logo no início do livro, ela usa a história para confessar que escrever uma história sobre vampiros foi uma necessidade imposta pelo mercado. Enquanto leio, dou uma ajudinha na revisão e aproveito para compartilhar com a Nane uma de nossas afinidades. E se você entendeu que eu errei a conta, não é assim. Nesse caso, é o arquivo que está aberto, bem aqui ao lado, com o controle de alterações ativado e o marcador é uma tarja amarela sobre o número do capítulo.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Troy Story
Era uma vez um príncipe boneco chamado Eric. Ao contrário dos outros príncipes, ele não vestia roupa de gala para ir ao baile em busca de sua princesa. A praia dele era outra: usava um bermudão, exibia os músculos do peitoral e azarava uma boneca sereia de rabo esverdeado. O nome dela era Ariel. Eles eram apaixonados e viviam felizes para sempre até ouvirem aquela música tocando na sala. O “para sempre” acabou aos poucos, à medida que outras bonecas chegavam e a menina crescia. Primeiro vieram as pernas compridas das Barbies, mulheres bárbaras com diversos sobrenomes ou histórias de princesa para contar; depois a misteriosa Hanna – ora de cabelos castanhos, ora loiríssima, de microfone em punho, cantando sobre o melhor de dois mundos (e nenhum deles era o fundo do mar).
Mas eram as mãos da menina davam o tom das tentações do príncipe surfista, quando colocava em pé cada uma das bonecas para passear com ele. Neste caso, o rabo era uma tremenda desvantagem para Ariel, uma sereia cada vez mais enciumada, pensando em retornar para os braços do rei Tritão, seu pai, ou fazer um novo pacto com Úrsula, a bruxa do mar. Ao menos, ela tinha companhia em terra firme, já que Fiona, com aquela roupa de kung fu e a máscara de ogra, não atraía nem um pouco o único galã do pedaço. Fiona tinha, de fato, nascido para viver num mundo tão tão distante. Por aqui, nem Daniel San seria capaz de encará-la.
Um belo dia, depois que a menina viu Harry beijando Cho, a crise do casal marinho ganhou proporções ainda maiores. As bonecas passaram a fazer fila para beijar Eric. O sortudo tinha um harém, mas não usava turbante nem tinha o nome de Aladdin (Jasmine que não nos ouça, mas ele e o gênio sempre foram vistos muito bem acompanhados). O sortudo podia ir preso a qualquer momento porque, não bastasse a cantora adolescente, colecionava também colegiais da High School, que além de cantarem, dançavam. O sortudo era um coitado, não dava conta de tanta mulher.
O caso parecia sem solução até que a mãe da menina precisou escolher um presente para a vovó dar no dia das crianças. Mamãe e papai chegaram a cogitar o tal do Ryan como opção. Mas, e se ele se apaixonasse pelo Eric? Não haveria partilha, só aumentaria a fila. Antes do Viagra e antes que Ariel fugisse no saco de brinquedos antigos que iria para doação, chegou então um boneco adolescente chamado Troy. Contrariando o pretenso cavalheirismo dos príncipes, o menino não foi pontual. Sua carruagem demorou mais que uma semana para chegar. O dia das crianças já tinha passado, mas Eric teve, enfim, com quem dividir as atenções (ou tensões) e não corre mais o risco de ser preso (Troy até deu uma piscadela para Fiona, mas antes que apanhasse, foi ao encontro das mais jovens ensaiar o próximo musical).
Para Ariel, o final não foi feliz. Ela continuou resmungando pelos cantos. A menina, por outro lado, ficou radiante com o novo brinquedo. Naquele dia, que já era um dia qualquer, ela parecia feliz para sempre.
Mas eram as mãos da menina davam o tom das tentações do príncipe surfista, quando colocava em pé cada uma das bonecas para passear com ele. Neste caso, o rabo era uma tremenda desvantagem para Ariel, uma sereia cada vez mais enciumada, pensando em retornar para os braços do rei Tritão, seu pai, ou fazer um novo pacto com Úrsula, a bruxa do mar. Ao menos, ela tinha companhia em terra firme, já que Fiona, com aquela roupa de kung fu e a máscara de ogra, não atraía nem um pouco o único galã do pedaço. Fiona tinha, de fato, nascido para viver num mundo tão tão distante. Por aqui, nem Daniel San seria capaz de encará-la.
Um belo dia, depois que a menina viu Harry beijando Cho, a crise do casal marinho ganhou proporções ainda maiores. As bonecas passaram a fazer fila para beijar Eric. O sortudo tinha um harém, mas não usava turbante nem tinha o nome de Aladdin (Jasmine que não nos ouça, mas ele e o gênio sempre foram vistos muito bem acompanhados). O sortudo podia ir preso a qualquer momento porque, não bastasse a cantora adolescente, colecionava também colegiais da High School, que além de cantarem, dançavam. O sortudo era um coitado, não dava conta de tanta mulher.
O caso parecia sem solução até que a mãe da menina precisou escolher um presente para a vovó dar no dia das crianças. Mamãe e papai chegaram a cogitar o tal do Ryan como opção. Mas, e se ele se apaixonasse pelo Eric? Não haveria partilha, só aumentaria a fila. Antes do Viagra e antes que Ariel fugisse no saco de brinquedos antigos que iria para doação, chegou então um boneco adolescente chamado Troy. Contrariando o pretenso cavalheirismo dos príncipes, o menino não foi pontual. Sua carruagem demorou mais que uma semana para chegar. O dia das crianças já tinha passado, mas Eric teve, enfim, com quem dividir as atenções (ou tensões) e não corre mais o risco de ser preso (Troy até deu uma piscadela para Fiona, mas antes que apanhasse, foi ao encontro das mais jovens ensaiar o próximo musical).
Para Ariel, o final não foi feliz. Ela continuou resmungando pelos cantos. A menina, por outro lado, ficou radiante com o novo brinquedo. Naquele dia, que já era um dia qualquer, ela parecia feliz para sempre.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Saudades de Bequinha
Ela tinha aparência frágil e medo de que o vento a levasse, mas não havia resfriado capaz de pegá-la. Contudo, o início de 2008 a trouxe sangrando. O diagnóstico deu pouquíssimas esperanças e a primeira operação... abriu, fechou, não dá! Passei duas noites com ela. Terríveis, a segunda pior que a primeira. Em ambas, o sono do começo da noite foi tranquilo. Depois da meia-noite, porém, começaram os pedidos pelo cafezinho que não vinha. Que indelicadeza! Só o soro a alimentava e apenas às vezes molhávamos com água a boca que insistia com o café. Nem um cafezinho sequer! Na segunda das madrugadas, ela pediu banho: Rodolphinho, fala com a enfermeira, por favor. Elas não a tratavam bem, imagina. Eu procurei a enfermeira, que explicou que o banho seria dado depois da troca de turno, pela manhã. Ela ouviu, mas voltou a pedir, e eu saí do quarto tantas vezes quanto pude para fingir que perguntava de novo e de novo; para fazer o tempo passar, o meu e o dela. Não sei com que forças minha mãe e minha tia dividiram outras incontáveis noites. E, para mim, ela morreu quando entrou em coma pouco tempo depois.
Para ela, porém, ainda não havia terminado. Acordou de forma inesperada. Eu não acreditei, demorei a visitá-la, até que resolvi aparecer num domingo. Ninguém garantia que ela poderia reconhecer os filhos ou os netos. Quando entrei no quarto, minha mãe estava sentada numa poltrona, segurando a mão dela. Elas se olhavam e eu parei na porta. Quando ela me viu, registrei uma das imagens que passarão no filme da minha vida, se um dia acontecer assim. Mais magrinha que sempre, minha avó abriu um enorme sorriso banguela, fechou ainda mais os olhos já apertados e estremeceu visivelmente dos pés a cabeça. Você! Era eu mesmo.
Passou o aniversário no hospital conosco, quando os dedos lambuzados de bolo das filhas davam os últimos presentes aos seus lábios, bem escondidos das “vizinhas” enfermeiras que vinham cumprimentá-la pelos 88 anos em seu micro-apartamento. Ainda ficou pouco mais de um mês na casa da minha tia até retornar à sua casa de então. Para Alice, era assim: ali era a casa da bisa, onde deixávamos vovó nas tardes de sábado. Lá ficou então, repetindo de longe que tudo ficaria bem, até se despedir de vez, sete meses depois de sua primeira internação.
Era 12 de outubro e a professora não esperou pelo seu dia. Escolheu as crianças para nos dizer que a vida continua sim. Assim, sem ela. Escolheu o dia das crianças para que, no filme de nossas vidas, lembrássemos o cheiro do pastel, o gosto do nhoque, o calor da canja; para que o nosso último retrato com ela tivesse pipoca, jujubas e uma risadinha pontuada por “i”s. Escolheu mostrar aos alunos que devemos continuar acompanhando o giro do globo terrestre e marcar nossos passos na geografia que ela ensinou, enfrentando os reveses da vida com coragem.
Para ela, porém, ainda não havia terminado. Acordou de forma inesperada. Eu não acreditei, demorei a visitá-la, até que resolvi aparecer num domingo. Ninguém garantia que ela poderia reconhecer os filhos ou os netos. Quando entrei no quarto, minha mãe estava sentada numa poltrona, segurando a mão dela. Elas se olhavam e eu parei na porta. Quando ela me viu, registrei uma das imagens que passarão no filme da minha vida, se um dia acontecer assim. Mais magrinha que sempre, minha avó abriu um enorme sorriso banguela, fechou ainda mais os olhos já apertados e estremeceu visivelmente dos pés a cabeça. Você! Era eu mesmo.
Passou o aniversário no hospital conosco, quando os dedos lambuzados de bolo das filhas davam os últimos presentes aos seus lábios, bem escondidos das “vizinhas” enfermeiras que vinham cumprimentá-la pelos 88 anos em seu micro-apartamento. Ainda ficou pouco mais de um mês na casa da minha tia até retornar à sua casa de então. Para Alice, era assim: ali era a casa da bisa, onde deixávamos vovó nas tardes de sábado. Lá ficou então, repetindo de longe que tudo ficaria bem, até se despedir de vez, sete meses depois de sua primeira internação.
Era 12 de outubro e a professora não esperou pelo seu dia. Escolheu as crianças para nos dizer que a vida continua sim. Assim, sem ela. Escolheu o dia das crianças para que, no filme de nossas vidas, lembrássemos o cheiro do pastel, o gosto do nhoque, o calor da canja; para que o nosso último retrato com ela tivesse pipoca, jujubas e uma risadinha pontuada por “i”s. Escolheu mostrar aos alunos que devemos continuar acompanhando o giro do globo terrestre e marcar nossos passos na geografia que ela ensinou, enfrentando os reveses da vida com coragem.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
O Otrrrrro Lado
Minha irmã blogueira tem razão: quando eu ainda morava com meus pais, se você telefonasse para mim pela primeira vez, surtaria com a notícia. Com o sotaque francês que, dizem, nunca foi corrigido porque meu avô achava charmoso, Mami diria: ele está do otrrrrro lado. O lado de lá é o apartamento dela até hoje. No lado que era o de cá, ainda moram meus pais. E são os únicos apartamentos do andar.
Mami passava a maior parte do dia conosco. O apartamento ao lado era pouco frequentado, mesmo por ela, que somente retornava para dormir. Nele, eu fazia algumas incursões no quarto da biblioteca, que guarda os remanescentes da Livraria Sauret. Às vezes, na sala de jantar, usava a cadeira de balanço para ler. Por isso, se você ligasse, eu poderia estar do otrrrrro lado. Na mesma sala, entre candelabros de prata e um enorme espelho, minha mãe dava aulas particulares, em busca de sossego. Meu pai procurava revistas antigas na bibilioteca, principalmente as que traziam informações sobre política ou futebol. Meu irmão era muito pequeno ainda, mas hoje toma conta do computador que fica num dos três quartos. Só minha irmã ousava perturbar os mistérios que rondam a casa até hoje.
Mami veio antes da guerra; aliou ao sotaque francês vícios do espanhol que trouxe de terras do cone sul; casou-se no Brasil com o avô que tinha o meu nome; defendeu a França dos nazistas aqui mesmo no Rio – tinha até codinome; e falava muito pouco sobre tudo. O otrrrrro lado ainda é uma espécie de santuário, onde se respeita a história e o silêncio.
À noite, quando queríamos comer gelatina, eu e minha irmã entrávamos no apartamento dela de forma cautelosa, um passo de cada vez. Já que não havia movimento, não havia também motivos para desperdício e, assim, apenas um abajur ficava aceso. A escuridão restante era uma aventura para duas crianças com muita imaginação. No corredor, em posição privilegiada, de frente para sala (a do espelho enorme), ao lado da cozinha e a caminho dos quartos, ficava o pequeno quadro de uma moça que tinha um olhar talvez hipnotizante. Domi dizia que ela nos vigiava. Queria me assustar e me assustava. Mas tanto fez que também passou a ter medo ou acreditar no que dizia. Com os potes de gelatina, saíamos dali correndo, ela gritando, até fecharmos todas as portas no caminho até a nossa casa. Geralmente deixávamos a luz da cozinha acesa para poder voltar mais tarde, atrás de outra guloseima qualquer ou de um pouco mais de adrenalina.
Há muito tempo não frequento o otrrrrro lado à noite. Na verdade, não faço muita questão, porque as melhores lembranças são diurnas, dos livros e dos cafés da manhã que reuniam a família aos domingos. Domi se mudou pra Curitiba e para lá levou o quadro. No quarto de hóspedes do apartamento dela, onde sempre dormimos, um dia reencontrei a moça. Nada assustadora, coitada. Suspeito que ela e minha irmã tenham se acertado, mas nunca conversamos sobre isso.
Mami passava a maior parte do dia conosco. O apartamento ao lado era pouco frequentado, mesmo por ela, que somente retornava para dormir. Nele, eu fazia algumas incursões no quarto da biblioteca, que guarda os remanescentes da Livraria Sauret. Às vezes, na sala de jantar, usava a cadeira de balanço para ler. Por isso, se você ligasse, eu poderia estar do otrrrrro lado. Na mesma sala, entre candelabros de prata e um enorme espelho, minha mãe dava aulas particulares, em busca de sossego. Meu pai procurava revistas antigas na bibilioteca, principalmente as que traziam informações sobre política ou futebol. Meu irmão era muito pequeno ainda, mas hoje toma conta do computador que fica num dos três quartos. Só minha irmã ousava perturbar os mistérios que rondam a casa até hoje.
Mami veio antes da guerra; aliou ao sotaque francês vícios do espanhol que trouxe de terras do cone sul; casou-se no Brasil com o avô que tinha o meu nome; defendeu a França dos nazistas aqui mesmo no Rio – tinha até codinome; e falava muito pouco sobre tudo. O otrrrrro lado ainda é uma espécie de santuário, onde se respeita a história e o silêncio.
À noite, quando queríamos comer gelatina, eu e minha irmã entrávamos no apartamento dela de forma cautelosa, um passo de cada vez. Já que não havia movimento, não havia também motivos para desperdício e, assim, apenas um abajur ficava aceso. A escuridão restante era uma aventura para duas crianças com muita imaginação. No corredor, em posição privilegiada, de frente para sala (a do espelho enorme), ao lado da cozinha e a caminho dos quartos, ficava o pequeno quadro de uma moça que tinha um olhar talvez hipnotizante. Domi dizia que ela nos vigiava. Queria me assustar e me assustava. Mas tanto fez que também passou a ter medo ou acreditar no que dizia. Com os potes de gelatina, saíamos dali correndo, ela gritando, até fecharmos todas as portas no caminho até a nossa casa. Geralmente deixávamos a luz da cozinha acesa para poder voltar mais tarde, atrás de outra guloseima qualquer ou de um pouco mais de adrenalina.
Há muito tempo não frequento o otrrrrro lado à noite. Na verdade, não faço muita questão, porque as melhores lembranças são diurnas, dos livros e dos cafés da manhã que reuniam a família aos domingos. Domi se mudou pra Curitiba e para lá levou o quadro. No quarto de hóspedes do apartamento dela, onde sempre dormimos, um dia reencontrei a moça. Nada assustadora, coitada. Suspeito que ela e minha irmã tenham se acertado, mas nunca conversamos sobre isso.
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