segunda-feira, 1 de março de 2010

Feliz Aniversário

Eu adoro dar presentes. Prefiro os aniversários e os momentos inesperados para tentar surpreender. Além de causar surpresa, o presente precisa levar consigo um pouco de quem a provoca. Ele não pode ser casual, tem que dizer claramente: eu escolhi para você. E, claro, você tem que gostar. Só assim, o presente cumpre a sua função. Só assim, ele torna o momento especial. No entanto, colocar a surpresa, eu e você num mesmo presente pode não ser fácil.

Às vezes dá certo. Deu certo comigo há treze anos e meio. Naquele dia, eu era você e você era eu. Eu ainda estava na faculdade e estagiava em Furnas à tarde. Vindo do Fundão, deixava o carro na rua Paulo Barreto, na garagem do prédio onde ainda mora meu padrinho. Eram quase seis horas, e eu estava ansioso para deixar o estágio para comemorar meus 22 anos. Como fazia todos os dias, entrei no prédio e fui logo buscar o carro. Meu presente de aniversário estava lá. Era um bolo. O carro era o bolo. Ele estava enfeitado com balões e cartazes. Nele, estavam a maior das surpresas, você e eu. Do presente convencional, não me lembro exatamente; posso facilmente confundi-lo com o do Natal do mesmo ano ou do aniversário do ano seguinte. Daquele presente, não me esqueço. Para mim, encontrar o carro daquele jeito foi como ganhar um buquê de rosas e um cartão com vários outros dentro. Porque, se as rosas murcham, os balões esvaziam... E, como os cartazes, o cartão acaba no fundo de alguma gaveta qualquer. Fica com a gente o que precisa ficar: a lembrança da intenção, do carinho e do amor. Ficou comigo a lembrança de um amor de fato que apenas começava.

Hoje, eu sou eu. Mais uma vez, meu coração bate.

Hoje, primeiro de março, você é você. Feliz aniversário.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Cachinhos de Ouro, por Alice

Agora é a minha vez, pai. Era uma vez... o papai tá lendo jornal e a mamãe mexendo nas flores. O filho não está. Aqui ela lê as imagens. O ursinho é um traço pequeno, quase imperceptível. O livro é em inglês. Ela sabe, mas isso não faz diferença. Ela apenas identifica as letras. Mesmo assim, ensaia alguns sons e logo retorna ao português. Por que tem essas janelas? São quatro e ela mesma encontra explicação: da mamãe, do papai, do filho e da menininha. As duas primeiras páginas valem pelo livro inteiro. Ela ainda mantém a concentração. Tinha cadeira grande, cadeira média, cadeira do filho. E as camas. Agora ela conta a história, sem detalhes, com aparente pressa. Eu ajudo: o que eles iam tomar? Sopa. Eles saíram. A caixinha de ouro sentou na cadeira do papai. Corrijo: Cachinhos, de cabelo enroladinho. A cadeira dele é dura. A da mamãe é macia, a do filho é boa. E ajudo de novo: o que aconteceu com a cadeira? Ela quebrou. Depois, ignora a temperatura das sopas. Tenta o inglês de novo, algo como somebody to love. Com ritmo (Queen, graças a Glee). Caixinha dormiu. Vira as páginas e estala a língua. O que aconteceu, filha? Ela dormiu, pai. Já disse. E os ursos? Eles chegaram. O pai, a mãe e o filho. Aí... ela estala a língua de novo. Aí... ela cansou. A história é interrompida. Ela está satisfeita, abraça o livro e já aceita dormir. Mas não dorme. Eu saio do quarto. Ela ainda conversa com Caixinha, que saiu correndo da casa dos ursos. Ela pede música e eu volto. O Hoedown começa a tocar. Uma hora depois, a música para. Ela conversa com outros amigos. Eu vou à cozinha e abro a geladeira. Sinto falta do potinho de iogurte que restava. Alice e Cachinhos estão no quarto dividindo a mesma colher.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Bendita Quarta-feira

Bom dia. Vamos consultar o roteiro dos blocos de hoje? Terça-feira de carnaval e de muito calor. Mais um dia daqueles! Muita animação? Nenhuma! Prefiro frio. Não gosto de multidão. Gosto de samba, mas não do que toca no carnaval, quando pouco se ouve além das marchas. Preciso saber dos blocos para fugir deles. Andar em paz pela cidade. Sem trânsito para chegar à casa meus pais. É aniversário do meu irmão e temos um almoço com hora marcada para terminar: antes dos blocos.

Saibam que, apesar da propaganda em torno da repressão, o cheiro de mijo está em toda parte. Junto ao portão da garagem, diz o porteiro, as meninas se agacham e mal se dão conta da câmera. Ele se diverte. É o big brother daqui. Da mesma forma, um lixo.

No carnaval do Rio, samba-enredo, alegorias e adereços são iguais todos os anos. Os destaques também: são os gringos que vem para se divertir e nada acrescentar, são os jogadores de futebol insinuando que a vitória perdoa qualquer irresponsabilidade, são as celebridades bissextas das comunidades.

Pra quem não quer ou não pode enfrentar horas de estrada, a melhor opção é ficar em casa, com ar-condicionado ligado, brincando de cinema. Ou dividir com amigos queridos, exilados que vêm matar saudades do Rio, o desconforto de um baile infantil e a busca por uma mesa de bar, uma daquelas para jogar conversa fora.

Bendita seja a quarta-feira de cinzas.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Antes do Sono

Estávamos os três no quarto dela, arrumando os livros. Ela aceitou a idéia de dar alguns para quem não tem, ou para bebês que ainda não sejam uma menina grande. Separamos em pilhas os que ela não queria mais e os de que mais gosta. Quando viu a bruxa Fofim, não hesitou: desse o papai gosta.

Ela dorme com música. Antes da música, quando já estou em casa, lemos um livro. Se não, mamãe canta para ela e, depois, deixa o CD tocar. Quando a vez é minha, procuro interpretar as histórias que leio. Como não consigo esconder as minhas preferências, ela rapidamente aprende o meu gosto. Mas, respeito o dela. Sejam princesas ou princesas, leio com voz de sapo, lobo e, claro, princesas.

Quando termino minha leitura, ela pede a vez. Repete a história do seu jeito, estalando a língua entre as frases, narrando com incontáveis “aís”. Faço perguntas para ajudar. Ela perde a paciência e fecha o livro pedindo que eu conte outra. Porém, é hora de dormir.

Minha maior dificuldade é convencê-la de que, com a luz já apagada, eu posso ainda contar histórias da minha cabeça. Muitas vezes, antes mesmo que eu consiga dar a opção, ela corta o meu barato: papai, da sua cabeça não! Então, é hora de dormir.

Lembro-me do tempo que minha avó, quando meus pais não estavam em casa, posicionava a cadeira estrategicamente no corredor e contava histórias da cabeça dela para mim e minha irmã, que dormíamos em quartos diferentes. O personagem principal se chamava Pedro. Era um modelo de criança. Pelo menos, não tinha os nossos defeitos.

Já a vaca Vitória era a preferida da outra avó, a mesma que gostava das balas e de pipoca. E, depois que a luz apaga aqui, isso é o melhor que consigo: fazê-la rir do pum na panela e acabar a história, porque já é hora. Saio do quarto, o CD toca e ela canta, às vezes dança, até dormir.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Os Monstros de Alice

Boo! Alice nunca teve problemas com o Mike, Sully ou mesmo Randall. Ela gosta muito da Imperatriz da História sem Fim, mas não esconde a tristeza quando Atreyu fere mortalmente o lobo. Em sua primeira crise de identidade, disse que não gostava de seu rosto. Eu quero um rosto igual ao da Hermione, mãe. No entanto, Alice não nega sua paixão pela desvairada Bellatrix.

I’m very scared for this world

Levamos Alice para nos ajudar a descobrir onde vivem os monstros. Tive que assinar um termo de responsabilidade para entrar com ela no cinema. Ok. O filme é para adultos que se divertem se escondendo na cabeça do John Malkovich. O filme trata da nossa essência selvagem. Mas ela não tem medo e é capaz de entender o que basta para sua idade. Max tem um acesso de raiva e chega a morder a mãe. Ele tava fazendo pirraça, né? Pena que não viu a metade final. Febril, acabou adormecendo no colo da Nane.

Here’s a scene
You’re in the back seat laying down

Alice estava no carro quando um motoqueiro irritado socou o retrovisor do vovô. As motos foram talvez os primeiros monstros. Depois veio o Barney. Ou melhor, alguém vestido de Barney numa festa. E outros vestidos de Pablo e de Tasha. E mais ainda, no palco. Quero sentar bem longe, pai. Ela sempre soube que havia gente ali (nós mostramos, ela viu).

I think about this world a lot and I cry
And I’ve seen the films and the eyes

Agora Alice tem medo de sangue. Sobra também para quem sangra no cotovelo ou aparece com o olho roxo. Ela sabe que a violência dói na alma também. Evitamos falar de sangue. Vamos, então, pra casa da vovó? Não, por ora, Alice não quer. E da outra vovó? Também não. As vovós que venham até aqui. Ela está com saudades, mas quer ficar em casa.

She is so young and old
I look at her and I see the beauty

Você vai morrer papai? Você vai morrer mamãe? Eu não quero ficar velhinha. Filha, estamos aqui.

Os monstros de Alice batem, choram, sangram e morrem.

...you are everything

domingo, 17 de janeiro de 2010

Carta para Alice

Alice,

Faz tempo que quero escrever para você. Contar minhas histórias, expor minhas idéias e minhas angústias. Tudo para você ler um dia. Até hoje, porém, apenas em pensamento escrevi e reescrevi os primeiros parágrafos. Repetidas vezes, no caminho de volta do trabalho, contei pra mim mesmo sobre o dia em que você entrou em casa pela primeira vez.

Tentando ser preciso, acho que foi no dia 11 de novembro de 2004. Dia em que sua mãe abriu a porta com um sorriso improvável. Um sorriso enorme, do tipo que começa nos olhos. Era dia de semana e ela ainda dava aulas de inglês. Chegava tarde, depois das 9h da noite, muito cansada... por isso, o sorriso era improvável. E o sorriso começava nos olhos porque você era parte dele. Eu sequer desconfiava.

Sua mãe parecia excitada, radiante... você estava nos nossos planos há alguns meses. Mas aquele era também um mês improvável. Mês de um amor só, de uma única chance para você nascer. Sua mãe estava excitada, radiante... tinha guardado pra si, durante quase uma semana, o resultado do teste de farmácia e a expectativa da confirmação.

Quando sua mãe abriu a porta, vi você chegar. Mas não sabia que era você. Ela se sentou no sofá sem desfazer o sorriso. Disse que tinha um presente pra mim. Um dia antes, ela tinha me dado outro presente. Um daqueles presentes sem motivos, sem embrulho e, talvez por isso, delicioso. Era um livro (diferente apenas porque tinha sabor). Segundo ela, daquela vez, o presente vinha embrulhado e só poderia ser desembrulhado dali a alguns meses.

Ela precisou colocar o dedo no umbigo para ficha cair. “Está aqui”. Você não sabe o que é ficha, né? Era uma moedinha que a gente usava para telefonar da rua. E a ficha, naquele dia, era a peça do quebra-cabeça que faltava para o bobão aqui entender que seria pai e que nós seríamos três a partir de então.

Demorei mais de cinco anos para escrever. Tempo suficiente para lembrar os detalhes daquele dia. Tempo suficiente para o texto amadurecer por aí e esperar pela sua leitura. Por tudo isso, temos que agradecer a um certo pai crônico.

Ainda assim, acho que demorei muito tempo para escrever sobre o dia em que você abriu a porta de casa pela primeira vez; sobre o dia em que sua mãe chegou às 9h da noite de um dia comum como a mulher mais feliz do mundo; sobre o dia em que eu soube que seria seu pai.

Beijinhos.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Das Aventuras em Paraty

Escrever é uma aventura. Vivemos para contar, muitas vezes sem saber que caminhos escolher, quase sempre sem ter ideia de onde vamos chegar. Uma aventura precisa de gente. Em Paraty, temos 14 adultos, 7 crianças e muitas vontades para coordenar. Então vamos colocar toda essa gente numa pequena escuna e falar de uma segunda-feira de sol e chuva.

Escuna colorida, Paz e Amor. Muita gente branquinha com medo de sol. Alguma criança (a minha) com medo de peixe. Todos curtindo a paisagem, sem espaço (além do mar) para fugir das diferenças. E eu, torcendo para um navio pirata aparecer e tesouros encontrar. Só para contar uma aventura de verdade. Mas, voltando a realidade, vamos mergulhar.

Não se trata de mentira. Alice tem medo de peixe, mas aceita usar o papai de prancha para chegar à praia. Coragem momentânea. Porque os peixes estão lá e, se comem pão, ai de minhas perninhas! Diego é um jedi na água. Para ele, o macarrão laranja é uma speeder bike; o azul, um sabre de luz. O titio é o inimigo. Bad Guy. As crianças se esbaldam e eu chego à conclusão de que preciso de aulas com Mestre Yoda. É muita princesa, muito batom... Mau sapão!

Das praias e das ilhas, as fotos dizem mais que as palavras. Então, vamos voltar e esperar que caia sobre nós a chuva que vemos no horizonte. Água que traz frio, Paraty de volta e decisões equivocadas. Ainda debaixo de chuva, vamos quatro homens buscar quatro carros. Enfrentamos as ruas alagadas do estacionamento ao píer e, mais uma vez, as ruas alagadas no retorno à pousada. Desafiamos os paralelepídedos, que batem com força. Mal vemos os quebra-molas que nos desafiam.
 
Atravessamos o último trecho com água sobre as rodas, acelerando fundo em primeira marcha. E comemoramos, enfim.

Bruno acerta em cheio: a diferença entre os adultos e as crianças não está na intensidade da vibração, mas na expressão do desejo de repetir... “De novo!”.

Pra mim, chega.